Alice Guy-Blaché

Por Maria do Rosário Caetano

O documentário norte-americano “Alice Guy-Blaché: A História Não Contada da Primeira Cineasta do Mundo” chega, nessa quinta-feira, 29 de outubro, aos cinemas brasileiros. E chega com muita adrenalina e disposição para entusiasmar olhares e sensibilidades feministas. Afinal, sua diretora Pamela B. Green não mediu esforços ao resgatar o legado da francesa que transformou-se, nos EUA, em pioneira da era muda e do nitrato. Uma pioneira, que teria seu trabalho negligenciado pela historiografia audiovisual, escrita majoritariamente por homens.

O título mundial do filme (“A História Não Contada da Primeira Cineasta do Mundo”) só foi modificado na França. Lá, pátria de Alice, dos Irmãos Lumière, de Louis Gaumont, de Meliès, Renoir e Godard, a realizadora iniciou sua carreira e foi reconhecida por livro de memórias (“Autobiografia de uma Pioneira do Cinema”, de 1976) e um telefilme (“Elle Voulait Faire du Cinéma”, de Caroline Huppert, de 1986, com Christine Pascal, no papel de Alice, e André Dussolier, como Léon Gaumont). Por isso, os distribuidores franceses deram ao filme de Pamela o enxuto título “Be Natural” (Seja Natural). Aliás, uma divisa da cineasta, que pedia a seus atores que agissem naturalmente, sem empostações.

Alice Guy-Blaché era uma bela e dinâmica jovem, quando tornou-se secretária do engenheiro e inventor Léon Gaumont (1864-1946). Ao 22 anos, ao acompanhar o chefe a evento fechado – nada mais, nada menos que a apresentação que os irmãos Lumière faziam, em dezembro de 1895, de sua mais nova invenção, o cinematógrafo –, ela seria contaminada pela sétima arte.

Apaixonada pelo que viu, Alice quis exercitar-se na nova linguagem. Gaumont aceitou, desde que ela não negligenciasse seus serviços burocráticos, em especial o zelo pela correspondência que chegava à empresa. O tempo passou e Alice Guy acabou nomeada chefe de produção da Gaumont.

A vida da moça sofreria uma segunda reviravolta, quando ela apaixonou-se pelo britânico Herbert Blaché-Bolton. Ele dedicava-se ao comércio de filmes e foi trabalhar no EUA. Levou com ele a esposa-cineasta, já devidamente reconhecida como a Sra. Alice Guy-Blaché.

Na efervescência dos anos iniciais do cinema, a francesa realizou centenas de filmes curtos. Calcula-se que foram quase mil títulos. Muitos deles sobreviveram e hoje causam encantamento por suas ousadias formais e temáticas. Suas criações mais famosas são “A Fada do Repolho”, o instigante “A Casa Dividida”, “As Consequências do Feminismo” e uma “Vida de Cristo” (“The Birth, the Life and the Dead of Christ”).

Com o correr dos anos, o marido britânico da francesa Alice passou a negligenciar a esposa e trocou-a por outras companheiras. Ela seguiu em frente, com os filhos de seu infeliz matrimônio. Até que resolveu regressar a Paris. Mas acabou seus dias nos EUA, onde morreu em 1968, aos 94 anos.

Pamela B. Green é uma documentarista obsessiva. Ela não mediu esforços para resgatar a trajetória de Alice Guy-Blaché. Colheu imenso material, entrevistou dezenas de pessoas, inclusive o russo Naum Kleiman, diretor do Museu Eisenstein de Moscou. E é Kleiman quem garante que “o filme ‘A Condição Feminista’ exerceu influência sobre o diretor de ‘Encouraçado Potenkin’”. E que o soviético não escondia tal influência.

O que falta a Pamela é um pouco de comedimento. Em seu afã de provar que figura tão importante na história do cinema foi arremessada no ostracismo pelo poder patriarcal, ela constrói narrativa acelerada, vertiginosa mesmo, que dura 103 minutos. Não há tempos reflexivos no filme. Mas, sim, brutal acúmulo de informações (e de suportes). Tudo que apareceu à frente da documentarista, tudo que ela buscou como uma incansável detective, por oito longos anos, ela utiliza. Afinal, dirigiu, montou e produziu o filme.

Para erigir seu longa documental, Pamela recorreu a nomes da linha de frente do cinema mundial. Caso da belgo-francesa Agnès Varda e da norte-americana Ava DuVernay. E também de Marjane Satrapi, Geena Davis, Julie Delpy e Julie Taymor. Contou, ainda, com a narração da atriz e cineasta Jodie Foster. Entre os homens, destacam-se depoimentos como o do diretor de “O Artista”, Michel Hazanavicius, e de um perplexo Peter Bogdanovich, cineasta e pesquisador.

A documentarista mobilizou também roteiristas, pesquisadores, historiadores, professores e parentes, buscados com fúria uterina, de Guy-Blaché. Recorreu a apoiadores financeiros que a ajudassem a realizar o sonhado resgate da pioneira do cinema e encontrou no fundador da Playboy, Hugh Hefner (1926-2017), seu mecenas. Ele assinou a produção-executiva, mas morreu antes de assistir à estreia do filme no Festival de Cannes, em 2018.

Um pouco de paz reflexiva faria muito bem ao filme. Mesmo assim, convulsivo e voraz, ele se apresenta obrigatório. Afinal – como aconteceu nos EUA e na maioria dos países do Ocidente –, o que nós, brasileiros, sabíamos de Alice Guy-Blaché (1873-1968), até emergir essa tão necessária e nova vaga feminista?

Alice Guy-Blaché: A História Não Contada da Primeira Cineasta do Mundo | Be Natural: The Untold Story of Alice Guy-Blaché
Longa documental, EUA, 103 minutos, 2018
Direção e montagem: Pamela B. Green
Roteiro: Pamela B. Green e da pesquisadora Joan Simon
Depoimentos: Agnes Varda, Ava DuVernay, Naum Kleiman, Ben Kingsley, entre outros
Narração: Jodie Foster
Fotografia: Boubkar Benezabat
Produção: Pamela B. Green, com apoio de Hugh Hefner
Distribuição: Arteplex Filmes

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