Mostra homenageia Fernando Coni Campos com exibição de “Ladrões de Cinema” e debate virtual
Ladrões de Cinema

A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo promove, nessa segunda-feira, 26 de outubro, debate on-line sobre a trajetória do cineasta baiano Fernando Coni Campos (1933-1988), diretor de sete longas-metragens, sendo dois deles muito festejados – “Ladrões de Cinema”, de 1977, e “O Mágico e o Delegado”, eleito o melhor filme no Festival de Brasília, em 1983.

Para debater a obra de Fernando Coni Campos, a mesa virtual contará com presença da atriz (e cantora) Tânia Alves, protagonista feminina de “O Mágico e o Delegado”, com o ator Antônio Pitanga, um dos “ladrões de cinema”, com o documentarista e diretor de fotografia Luis Abramo, e com o cineasta Joel Pizzini. Partiu, aliás, do diretor de “Caramujo Flor” e “Rio da Dúvida”, a sugestão de que a mostra paulistana prestasse homenagem póstuma ao realizador baiano, considerado um dos mais inventivos roteiristas de cinema do país.

“Ladrões de Cinema”, divertida e metalinguística história de favelados cariocas, que roubam equipamentos de trupe cinematográfica norte-americana e resolvem produzir um filme sobre a Inconfidência Mineira, causou tamanha euforia, que Arnaldo Jabor resolveu escrever, em parceria com o próprio Coni, remake rebatizado de “Made in Brasil”. O roteiro foi concluído, mas por causa dos custos, o projeto acabou abandonado. Ao contrário do “Ladrões de Cinema” original, feito na base da guerrilha, Jabor desejava trabalhar com produção estruturada. Portanto, dispondo de orçamento digno de um épico histórico.

Outro cineasta, Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988), este da primeira geração do Cinema Novo, também buscou parceria com Fernando Coni Campos. Juntos, os dois escreveram o roteiro de “O Imponderável Bento”, projeto que o diretor de “Macunaíma” preparava quando um câncer o matou, precocemente, em setembro de 1988 (tinha apenas 56 anos). Três meses depois, na véspera do Natal, morria, também precocemente, Fernando Coni Campos, aos 55 anos. O incrível roteiro sobre Bento, um “santo” brasileiro que levitava, também não foi transformado em filme (mas mereceu duas edições em livro).

Luis Abramo, diretor de “Abrindo o Armário” (parceria com Dario Menezes) e de “Antena da Raça” (parceria com Paloma Rocha), é um dos fotógrafos mais atuantes do cinema brasileiro. Entre seus trabalhos, estão “Proibido Proibir”, de Jorge Durán, e “Luneta do Tempo”, de Alceu Valença. Nesse exato momento, ele prepara longa documental sobre Fernando Coni Campos, seu pai. Está, também, ocupado em restaurar os filmes paternos, já que muitos deles encontram-se em situação preocupante.

“A obra de Fernando Coni Campos” – avalia – “ainda não está preservada por inteiro. Conseguimos apoio de edital da Cinemateca Brasileira, antes da fase atual, para recuperar parte de ‘Morte em Três Tempos’ e ‘O Homem em sua Jaula’”. Já os outros filmes – avisa – “estão com seus negativos depositados na Cinemateca e nosso desejo é restaurar e digitalizar ‘Viagem ao Fim do Mundo’ e ‘Ladrões de Cinema’, mas ainda não foi possível”. Para exibição nessa homenagem prestada pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, foi remasterizada cópia do “Ladrões”, que terá exibição num drive-in.

O longa documental que pretende resgatar a trajetória de Fernando Coni Campos – ideia que partiu de provocação de Joel Pizzini – insere-se em projeto multimídia. “Nossa intenção” – avisa Luis Abramo – “é somar obra cinematográfica, textos literários e ensaísticos, desenhos e poesias do cineasta, que foi também artista plástico e escritor”. E “nasceu do desejo de refletirmos sobre o projeto de cinema poético e lúcido, que Fernando desenvolveu ao longo de três décadas”. O filho fotógrafo-e-documentarista conta que “a pesquisa e roteiro estão bem adiantados e inscritos em editais de fomento”.

Sobre a homenagem da Mostra a Fernando Coni Campos, Abramo registra que ela “traz ao público, passados mais 32 anos de sua morte, a possibilidade de um reencontro “com o cinema-poesia do realizador”. E acrescenta: “Fernando sempre acreditou que o grande mérito de uma boa história é que ela deve transformar quem conta e quem ouve e o cinema deve ser como o sonho. Nada melhor para esses tempos de indefinição que estamos vivendo”.

“Acredito” – finaliza – “que o cinema do Fernando Coni Campos, por fundamentar-se no diálogo entre a poesia e lucidez, será sempre atual”.

A Mostra SP selecionou, para esta sua quadragésima-quarta edição, que prossegue até dia quatro de novembro, a exibição de três filmes: os dois últimos – “Ladrões de Cinema” e “O Mágico e o Delegado” – e, da primeira fase, “Viagem ao Fim do Mundo” (1966), inspirado em dois capítulos (“O Delírio” e “O Senão do Livro”) de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, que Machado de Assis publicou em 1881.

 

FILMOGRAFIA
Fernando Luís Coni Campos (Bahia, 1933 – Rio de Janeiro, 1988)

1964 – “Morte em Três Tempos”
1967 – “Viagem ao Fim do Mundo”
1968 – “Um Homem e Sua Jaula” (codireção de Paulo Gil Soares)
1970 – “Uma Nega Chamada Teresa”
1970 – “Sangue Quente em Tarde Fria” (codireção com Renato Neuman)
1977 – “Ladrões de Cinema”
1983 – “O Mágico e o Delegado”

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