Cinefoot e o Pasolini boleiro
“A Última Partida de Pasolini”, de Giordano Viozzi

Por Maria do Rosário Caetano

Os cinéfilos brasileiros sabem que Pier Paolo Pasolini (1922-1975) era apaixonado pelo “futebol poesia” da geração Pelé, aquele que derrotou a Itália, por 4 x 1, na Copa de 1970. Ele até escreveu famoso ensaio sobre “Futebol Prosa”, praticado pelos europeus, e “Futebol Poesia”, defendido pelos latino-americanos. Estes seriam dribladores, aqueles praticantes da troca de passe e da triangulação.

O que poucos brasileiros sabem é que Pasolini foi um jogador praticante, daqueles que não abriam mão de uma partida séria, comemorativa ou de uma simples pelada. O filme escolhido pelo Cinefoot para sua noite de encerramento e premiação – “A Última Partida de Pasolini” (Giordano Viozzi, 62′, 2019) – prova a devoção boleira do diretor de “Teorema”e “Gaviões e Passarinhos”.

Num dos momentos mais cinéfilos e futebolísticos do documentário, vemos o time de Pasolini, de 53 anos, enfrentando o time de Bernardo Bertolucci, 34. O mesmo Bertolucci que ele iniciara no cinema (o diretor de “O Último Tango em Paris” fora assistente de Pier Paolo em “Accattone”, de 1961). A partida comemorava o término das filmagens de “Salò – Os 120 Dias de Sodoma”, sombrio e dilacerado testamento do diretor bolonhês, e do épico bertolucciano “Novecento”.

O documentário de Giordano Viozzi se divide em duas partes. Na primeira, ele busca pistas da última partida jogada por Pasolini, em 14 de setembro de 1975, em San Benedetto del Tronto. Última, porque, menos de dois meses depois, num dia de Finados, ele seria assassinado em Ostia, zona portuária de Roma. Na segunda parte, o documentarista faz da partida pretexto para relembrar período fundamental na história da Itália, atormentada por movimentos rebeldes como as Brigadas Vermelhas. E, também, para destacar as ideias de Pasolini, um intelectual na linha de frente de seu tempo, capaz de expor as contradições de seu país e de seus artistas.

O Cinefoot (Festival de Cinema & Futebol) realiza sua décima-primeira edição a partir dessa sexta-feira, 20 de novembro, no espaço virtual. Até dia 27, serão exibidos, gratuitamente, 76 filmes (sendo 59 brasileiros e os demais, originários de 12 países), na plataforma Innsaie.TV.

Argentina, França, Itália, Peru, Colômbia, México, Uruguai, África do Sul, República Tcheca, Portugal e uma coprodução Alemanha-Palestina compõem as delegações estrangeiras. Caberá, inclusive, à terra de Maradona a honra de abrir o festival, nessa sexta-feira, às 20h30, com “Loteca”, de Mauro Beccaría. O filme, um documentário, se passa num dia de maio de 1984.

Quem resume a história de “Loteca”, sem contar o final, é Celso Sabadin, da equipe do Cinefoot e corintiano fiel: “Os jogadores do Racing de Córdoba fizeram seu jogo na loteria esportiva e, no decorrer da rodada, perceberam que somavam 12 pontos. Ou seja, faltava acertar só um último jogo para eles ganharem uma fortuna. E, quis o destino, que este último jogo fosse justamente o deles próprios, Racing x Ferro. Jogaram a partida contra o rival não apenas com a motivação normal de vencer, mas com a motivação extra de ganhar na loteria esportiva. Ganharam ou perderam? Assistam ao filme e saberão”.

O Cinefoot, primeiro festival boleiro da América Latina, vai comemorar os 50 anos do tricampeonato mundial brasileiro no México e os 70 anos do Maracanã. E, já que dará seu ponta-pé inicial neste 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, prestará tributo ao goleiro Moacir Barbosa (1921-2000) e ao time Negritude F.C.

Antônio Leal, criador, diretor do festival e torcedor do Fluminense, nada tem de pó-de-arroz. Ama o samba e a bola e reconhece o papel central desempenhado pelos afro-brasileiros em nossa história futebolística. Afinal, somos o único país pentacampeão do mundo. Com seu humor característico, Leal pondera que o ano vem sendo muito difícil, por causa da pandemia e do pouco apreço dedicado à cultura e ao audiovisual, mas, mesmo assim, “ vamos tocando a bola, virando o jogo e entrando em campo para anunciar a relação de convocados para as mostras competitivas e informativas especiais que irão compor esta edição de número 11”.

Leal e equipe reuniram 38 horas de conteúdo fílmico, distribuídas por 31 sessões, que permanecerão disponíveis por período extra após a estreia, podendo variar de dois até seis dias para visualização, dependendo da mostra na qual o filme está inserido.

Dois países – o México, anfitrião da Copa do Mundo de 1970, e a República Tcheca, que celebra o centenário das relações diplomáticas com o Brasil – serão os homenageados da décima-primeira edição do Cinefoot. Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, que em outubro completou 80 anos, será lembrando na mostra “Museu do Futebol Pelé em Foco”, com o média-metragem “Pelé: o Rei Desconhecido”, de Ernesto Rodrigues. Ao longo de 38 minutos, o documentário recupera histórias guardadas em arquivos estrangeiros, que vão da estreia do menino prodígio na Copa de 58 até a despedida em Nova York, nos tempos do Cosmos. Há flagrantes do atleta do século em campo (e fora dele) filmados por estrangeiros na Europa, nas Américas, Oceania e, claro, no Brasil.

Antônio Leal lembra que, desde o ano passado, o Cinefoot criou sessão especial para séries boleiras. Este ano, o festival promoverá a estreia de “Donas do Baba”, de Tais Bichara e Rodrigo Luna. Esta série documental, produzida na Bahia, traz histórias e rotinas de mulheres em suas diferentes relações com o futebol. “Baba” é o termo baiano para a partida informal, a popular pelada.

Além de duas mostras competitivas (longas e curtas), o Cinefoot apresentará doze mostras informativas: 50 Anos do Tri em Foco, 70 Anos do Maracanã, Mostra Dente de Leite, Pernambuco em Foco, Museu do Futebol Pelé em Foco, Homenagem a Falcão 40 anos A.S. Roma, Acessibilidade em Foco, México em Foco, Museu da Pelada, ESPN em Foco, Geraldinos & Arquibaldos e Série em Foco.

Os vencedores serão apontados por votação popular. Dos oito longas da competição internacional, três são brasileiros: “Sem Filtro: Flamengo”, de Flávio Barone, “50 Anos do Tri”, de André Galindo, e “A Glória Eterna”, de Ricardo Taves e Adriano Esteves. Eles vão disputar a Taça Cinefoot com o tcheco “Estádio”, de Tomás Hlavácek, o peruano “Identidade”, de José Carlos García e Carlos Granda, o uruguaio “Panagol”, de Gonzalo Lamela, o italiano “Paolo Rossi – Um Sonhador que Nunca Desiste”, de Michela Scolari e Gianluca Fellini, e o argentino “Procurando Panzeri”, de Sebastián Kohan Esquenazi.

A produção de curtas-metragens brasileiros sobre temas esportivos anda tão aquecida que, dos 37 concorrentes, trinta são prata-da-casa e sete são concorrentes são internacionais. Há curtas sobre o Tri, conquistado no México, e sobre futebol feminino, há filmes sobre o Flamengo, o São Cristovão e a emoção de um Gre-Nal. E um título de tema curioso, “Camisa Proibida”. E que camisa é essa? A de número 24. Jogadores profissionais, inseridos em ambiente machista, se negam a usar a camisa 24.

Outro tema curioso na competição de curtas: a presença do argentino Marcelo Bielsa no Leeds, da Inglaterra. Um brasileiro (Renato Senise) construiu, em 14 minutos, a narrativa de “Bielsa, o Deus Louco de Leeds”. Afinal, ele mudou a história do clube britânico ao levá-lo de volta à primeira divisão, depois de ausência de 16 anos. De estilo simples e dedicação total ao futebol, o argentino encheu de alegria a cidade do norte da Inglaterra. Transformou jogadores comuns em convocados da esquadra da pátria do futebol. E sobra espaço, no filme, para histórias engraçadas e testemunhos de torcedores que tiveram suas vidas impactadas pelo técnico argentino.

Além das exibições de curtas, médias e longas-metragens, a programação do Cinefoot apresentará atividades paralelas como a consagrada Mesa-Redonda (bate-papos com convidados comandados pelo Museu do Futebol, Leme/UERJ, Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte Ludopédio e pelo Centro de Artes da Universidade Federal Fluminense).

 
11º Cinefoot (Festival Internacional de Cinema e Futebol)
Data: 20 a 27 de novembro
On-line e gratuito (acesso pela plataforma Innsaie.TV)
Com duas mostras competitivas (uma de longas-metragens e uma de curtas) e doze mostras informativas. Os filmes em competição permanecerão disponíveis por 48 horas para visualização e voto do público após a estreia. Já os filmes das mostras informativas terão disponibilidade por prazo maior (ver caso a caso)
Programação completa disponível no site www.cinefoot.org

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