Festival de Brasília premia o documentário “Por Onde Anda Makunaíma?”
“Por Onde Anda Makunaíma?”, de Rodrigo Séllos

Por Maria do Rosário Caetano

“Por Onde Anda Makunaíma?”, longa documental de Rodrigo Séllos, produção que uniu esforços de Roraima e do Rio de Janeiro, foi o grande vencedor da 53ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, encerrada na tarde dessa segunda-feira, 21 de dezembro.

O júri foi bastante comedido na distribuição de troféus. Os doze “Candangos” dedicados, historicamente, à categoria longa-metragem nacional, foram reduzidos a três (além de melhor filme, houve um Prêmio Especial para o documentário carioca “Ivan, o TerrirVel”, de Mario Abbade, e Prêmio Especial de Montagem para Marta Luz, pelo documentário “A Luz de Mário Carneiro”).

A Crítica Cinematográfica (Prêmio Abraccine) escolheu o documentário mineiro “Entre Nós Talvez Estejam Multidões”, de Aiano Bemfica e Pedro Maia de Brito. O Júri Popular elegeu a única ficção selecionada para a competição – “Longe do Paraíso”, do baiano Orlando Senna.

O comando do festival fez questão de precisar a quantidade de votos recebidos, via digital, pelos quatro premiados. O longa de Orlando Senna, obteve 38,4% dos votos. O brasiliense “Candango, Memórias do Festival”, de Lino Oliveira, fez jus a 44,8% dos sufrágios. No terreno do curta, o cearense “Noite de Seresta”, de Muniz Filho e Sávio Castanheira, teve votação de vencedor em primeiro turno (60,7%). O curta brasiliense “Eric”, de Letícia Castanheira, fez pontuação modesta (19,3%).

Durante a cerimônia de premiação, realizada virtualmente, o secretário de Cultura, e presidente do festival, Bartolomeu Rodrigues agradeceu aos que o ajudaram “a realizar a quinquagésima-terceira edição do evento em prazo recorde de 75 dias”, e refirmou seus agradecimento ao diretor artístico Silvio Tendler. Garantiu que “todos os erros por ventura cometidos” são de sua “total responsabilidade”. Dois deles são de fácil solução: 1. contrabalançar a presença de ficções e documentários nas mostras competitivas, para que o festival possa sequenciar sua cinquentenária tradição (a menos que Brasília queira disputar com o Festival É Tudo Verdade a condição de maior festival de documentários da América do Sul); 2. revelar apenas os selecionados, jamais os “rejeitados” ou “excluídos”.

Quando a Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF tornou pública a imensa lista de “desclassificados”, acompanhados de suas respectivas notas rebaixadoras, a Revista de CINEMA recebeu de profissional de larga experiência na produção e realização cinematográfica, o seguinte comentário: “não é ético expor um filme dessa maneira”. Além “de prejuízo comercial, há que se lembrar que uma comissão de seleção faz julgamentos particulares; outro corpo de julgadores poderá achar genial um filme que não se classificou para um determinado festival”. O grave “é que, sabendo de antemão que este ou aquele filme foi rejeitado pelo Festival de Brasília, evento de grande tradição, este dado pode causar enormes danos. O momento que ora atravessamos já é tão difícil! Por que criar novas dificuldades?”

Com a chegada da vacina anti Covid-19, resta torcer para que, em 2021, a quinquagésima-quarta edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro volte à sua data histórica (setembro – “na primavera”, como previa o estatuto da pioneira Fundação Cultural do DF, transformada mais tarde em Secretaria de Cultura). E que regresse ao belo Cine Brasília, seu palco histórico, para encontro com os aplausos (ou vaias) de sua politizada e vibrante plateia.

Uma pena que, em seu sexagésimo aniversário, Brasília e seu festival tenham sido privados das calorosas sessões no cinema niemárico. Já imaginaram o que aconteceria durante a exibição de “Candango: Memórias do Festival”, quando a atriz Claudia Raia aparecesse como protagonista de “comercial” do candidato Fernando Collor de Mello? Seria vaiada de novo. O filme de Lino Meireles não pôde ser exibido presencialmente (o fez virtualmente primeiro tanto na Mostra de São Paulo, quanto no Festival Brasília 53). Mesmo assim, conquistou quase metade dos votos do Júri Popular. E fez jus a mais dois troféus: melhor filme da Mostra Brasília e Troféu Marco Antônio Guimarães, do Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro. Neste caso, por sua incansável busca de materiais de arquivo para contar a história do cinema brasileiro nos últimos 50 anos e do festival criado por Paulo Emilio Salles Gomes e equipe.

Se, na categoria “longa brasileiro”, a competição foi morna (não houve um filme arrebatador como “A Hora da Estrela”, que, em 1985, ganhou 11 dos 13 Candangos em disputa), na categoria “curta nacional”, houve ótimos títulos em competição. O júri oficial e a Crítica coincidiram na escolha de “República”, da atriz e diretora Grace Passô.

Os jurados reconheceram, ainda, os méritos de três curtas notáveis: o potiguar “A Tradicional Família Brasileira KATU”, de Rodrigo Sena, o catarinense “A Morte Branca do Feiticeiro Negro”, de Rodrigo Ribeiro, e o pernambucano “Inabitável”, de Matheus Faria e Enock Carvalho. Um pequeno curta paranaense (de sintéticos sete minutos) – “Pausa para o Café”, de Tamiris Tertuliano – também tocou significativamente o corpo de jurados.

As qualidade de “KATU”, documentário sobre indígenas que vivem nas periferias urbanas, uns negando suas origens, outros (poucos) as assumindo e valorizando, é tão fascinante, que a Anistia Internacional, que buscaria nas competições do festival um filme em defesa dos Direitos Humanos (Troféu Cosme Alves Netto) deixou os longas-metragens de lado e laureou o valioso curta potiguar.

OS VENCEDORES:

Longa-metragem brasileiro

. “Por Onde Anda Makunaíma?” (RO/RJ), de Rodrigo Séllos – melhor filme
. “Ivan, o TerrirVel” (RJ), de Mario Abbade – Prêmio Especial do Júri
. “A Luz de Mário Carneiro” (RJ), de Betse de Paula – Prêmio Especial de Montagem (Marta Luz)
. “Entre Nós Talvez Estejam Multidões” (MG/PE), de Aiano Bemfica e Pedro Maia de Brito – Prêmio da Crítica (Abraccine)
. “Longe do Paraíso”, de Orlando Senna (BA) – Júri Popular

Curta-metragem brasileiro

. “República” (SP), de Grace Passô – melhor filme, Prêmio da Crítica (Abraccine)
. “A Morte Branca do Feiticeiro Negro” (SC) – De Rodrigo Ribeiro – melhor direção, Prêmio Canal Brasil
. “A Tradicional Família Brasileira KATU”, de Rodrigo Senna (RN) – Prêmio Especial do Júri, Prêmio Cosme Alves Netto de Direitos Humanos
. “Pausa para o Café” (PR), de Tamiris Tertuliano – melhor atriz (Maya e Rosana Stavis), roteiro (Tamiris Tertuliano e William de Oliveira), montagem (Tamiris Tertuliano)
. “Inabitável” (PE), de Matheus Faria e Enock Carvalho – melhor fotografia (Gustavo Pessoa), menção honrosa para o elenco coletivo (liderado por Luciana Souza)
. “Quanto Pesa” (MA), de Breno Nina – melhor direção de arte (Cris Quaresma)
. “Distopia” (BA), de Lilih Curi – melhor som (Anna Luisa Penna, Emilio Le Roux e Fredshon Araújo)
. “Noite de Seresta” (CE), de Muniz Filho e Sávio Fernandes – Júri popular

Mostra Brasília – Longa-metragem

. “Candango: Memórias do Festival” (DF), de Lino Meireles – melhor filme, Júri Popular, Prêmio Marco Antônio Guimarães por uso de material de arquivo (do CPCB)
. “Utopia Distopia” (DF-SP), de Jorge Bodanzky – Prêmio Especial do Júri

Mostra Brasília – Curta-metragem

. “Do Outro Lado” (DF), de David Murad – melhor filme
. “Rosas do Asfalto” (DF), de Daine Cortes – Prêmio Especial do Júri
. “Eric” (DF), de Letícia Castanheira – melhor direção, Júri Popular
. “Algoritmo” (DF), de Thiago Fostieri – melhor direção de arte (William Jungmann e Daniel Sena)

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