“Fale com as Abelhas” e “Medo de Amar”
Fale com as Abelhas

Por Maria do Rosário Caetano

Dois filmes britânicos – “Fale com as Abelhas” e “Medo de Amar”– chegam ao público brasileiro nessa quinta-feira, 21 de janeiro. O primeiro, dirigido por Annabel Jankel, estreia nos cinemas. O segundo, de Guy Davies, vai direto para o streaming (plataforma Cinema Virtual).

Os dois longas-metragens contam histórias de amor, sem derramamentos ou chantagens emocionais. “Fale com as Abelhas”, recriação do best-seller homônimo de Fiona Shaw, concentra sua narrativa em delicada e difícil relação homoafetiva. Duas mulheres, uma médica bem-nascida e uma operária cercada de graves problemas financeiros, vivem numa pequena cidade, na Escócia do início da década de 1950.

Lydia (Holliday Grainger) divide-se entre o trabalho pesado e a criação do filho Charlie (Gregor Selkirk), um garoto de dez anos, muito introvertido. O que a operária ganha mal dá para as despesas domésticas. Não sobra, portanto, o dinheiro necessário ao pagamento do aluguel.

Robert (Emun Elliott), o marido de Lydia, participou da Segunda Grande Guerra, e ao regressar, cheio de problemas, abandonou esposa e filho à própria sorte. Para os moradores da pequena cidade, Lydia é uma destrambelhada que faz por merecer os infortúnios enfrentados a cada dia.

Quando a barra pesa e a operária e o filho são despejados, eles acabam encontrando abrigo temporário na bela e ampla casa da doutora Jean Markham (Anna Paquin), mulher reservada, discreta e muito dedicada a seu ofício. A médica, que acabara de regressar à cidadezinha onde nascera, já fizera amizade com Charlie. O que os aproximou foi o interesse do garoto pelas colmeias que Jean mantém em seu quintal. O menino aprende, até, a “falar” com as abelhas e a “revelar” a elas seus segredos. Para Lydia, Jean providencia a função de governanta da casa. Assim, evitarão dar motivo a mais falatório. Afinal, estão sob o mesmo teto uma mulher separada do marido e uma médica solteirona.

A diretora Annabel Jankel, de 65 anos, é dona de carreira das mais ecléticas, que vai do videoclipe a filmes comerciais hollywoodianos, passando por séries e pela publicidade (de refrigerante a causas nobres, como as defendidas pelo Greenpeace). Ela usou sua longa carreira como substrato para garantir a “Fale com as Abelhas” uma sólida, embora modesta, unidade.

E, o que é melhor, não foge de temas difíceis como violência doméstica, agressão sexual, racismo, homofobia e, até, da questão do aborto. O resultado é afirmativo, mas sem recorrer ao facilitário. As protagonistas têm ótimos desempenhos e o garoto dá conta da parte que lhe cabe.

“Medo de Amar” é fruto de roteiro original, mas bem que poderia basear-se em um romance, tamanha é sua paixão pela literatura e por dicionários. O diretor, Guy Davies, hoje com 29 anos, não esconde seu interesse em construir uma narrativa jovem e para jovens. Para tanto, buscou seus personagens em grupo de estudantes interioranos, que frequentam a mesma escola. Eles são vistos no período final de estudos e provas para conclusão do colegial. Dali em diante, se forem aprovados, deverão buscar vaga em uma universidade.

Medo de Amar

Entre os jovens estudantes, o destaque recai sobre Kai (Joshua Glenister), aquele que se mostra apto a estudar nas melhores universidades. É até disputado por elas. Além de sensível e estudioso, ele cultiva o hábito da leitura e da escrita. Tem um professor (Harry Loyd) que o estimula a seguir em frente, por reconhecer nele talento dos mais promissores.

O rapaz é apaixonado por Grace (Kim Sperman), jovem transgressora, que namora o valentão Kenner (Alexander Lincoln). O que não a impede, a cada noite, de seduzir, pela janela, o vizinho Kai. Despe-se com languidez e calma intencionais, deixando o estudante cada vez mais apaixonado. Enquanto ele fuma maconha com dois amigos e fala de seus desejos, Grace faz programas arriscados com a turma do namorado valentão. Vai às festas do colégio vestida para seduzir (como se não bastassem seus olhos matadores) e dança embalada por carreiras de cocaína.

Com calma e certa melancolia (o filme dura mais de duas horas), Guy Davies vai desfiando as histórias de seus jovens estudantes, que divertem-se em bucólicos piqueniques, nadam no rio, fazem sexo (alguns só pensam nisso), contam piadas. Um deles (o valentão Kenner, claro) resolve dar uns tiros com um velho rifle. Kai, com sua imaginação de escritor, soma realidade e sonhos. Até o desfecho, algo abrupto, mas impressionante, acompanharemos a narrativa com vívido interesse.

Embora “Medo de Amar” (suave tradução para Philophobia – pavor de apaixonar-se) seja construído como “filme de arte”, com um olho na crítica e outro no público, ele não foi muito longe. Guy Davies, que é também diretor de fotografia, roteirista e ator em filmes de amigos, não viu seu primeiro longa-metragem selecionado pelos grandes festivais de cinema (Cannes, Veneza, Berlim), sedentos em revelar novos talentos.

O filme, iniciado quando Davies tinha 26 anos (e meia dúzia de curtas no currículo), merece, sim, ser conferido. Mesmo que não tenha alcançado boa acolhida em festivais de primeira linha.

Em compensação, “Medo de Amar”, seu realizador e seu jovem protagonista (Joshua Genister) somaram dezenas de prêmios em festivais britânicos. Pelo menos como prata-da-casa, ele fez bonito.

Fora de seu país, “Philophobia” recebeu, no Prêmio Europeu (distribuído pela Academia Europeia de Cinema), o troféu de melhor fotografia (que o cineasta assina ao lado de Stefan Yap). Mais que merecido, pois suas imagens são de grande beleza e melancólica poesia.

“Medo de Amar” constitui-se como um bom programa, recomendável a quem ama literatura e está disposto a garimpar novos talentos surgidos no país de Ken Loach, Stephan Frears, Mike Leigh e Andrea Arnold.

 

Fale com as Abelhas | Tell It to the Bees
Grã-Bretanha, 103 minutos, 2019
Direção: Annabel Janke
Elenco: Anna Paquim, Holliday Grainger, Gregor Selkirk, Emun Elliott, Lauren Lyle, Kate Dickie, Billy Boyd, Joanne Gallagher
Fotografia: Bartosz Nalazek
Nos cinemas a partir dessa quinta-feira, 21/01

Medo de Amar | Philophobia
Grã-Bretanha e Suécia, 125 minutos, 2019
Direção: Guy Davies
Elenco: Joshua Glenister, Kim Spearman, Alexandre Morris, Harry Lloyd, James Faulkner, Guy Goldbourne e Charlie Francis
Fotografia: Guy Davies e Stefan Yap
Na plataforma Cinema Virtual, a partir dessa quinta-feira, 21/01

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