Pinóquio

Por Maria do Rosário Caetano

A versão cinematográfica de “Pinóquio”, dirigida por Matteo Garrone – lançamento nessa quinta-feira, 21 de janeiro, nos cinemas – é muito diferente das dezenas de outras que a antecederam. Oposta, até, quando comparada à célebre animação dos Estúdios Disney, embalada, em 1940, com música e cores aliciantes. Bem mais sombria que a fascinante versão de Luigi Comencini (“As Aventuras de Pinóquio”, 1973) e sem o humor histriônico da estabanada versão de Roberto Benigni, por ele dirigida e protagonizada (“Pinóquio e a Fada Azul”, 2002).

Quem viu dois dos mais famosos e premiados filmes de Garrone (“Gomorra” e “Dogman”), sabe que ele é devoto do realismo. Foi nesse registro que radiografou regiões da Itália dominadas pelo crime e, consequentemente, pela violência.

Quem se arriscou a ver “O Conto dos Contos”, sua perturbadora incursão no universo das narrativas fantásticas, sabe que Garrone não é adepto de estórias edificantes ou romantizadas. Tanto este filme, inspirado no “Pentamerão”, de Gianbattista Basile (com Salma Hayek à frente de elenco estrelado), quanto seu “Pinóquio” são sombrios, apavorantes e barrocos.

A Itália oitocentista dos tempos de Collodi contava com imensos bolsões de pobreza. Num deles, vive o artesão Gepetto (Roberto Benigni), o criador de “Pinóquio”, boneco de madeira apto a tornar-se humano caso seja estudioso e obediente. A miséria é tão terrível, que Gepetto apela aos mais ardilosos artifícios para conseguir uma caneca de sopa em noite gelada. Até o tronco de madeira, no qual suas mãos esculpirão o boneco, lhe fora doado por vizinho caridoso.

Quando o artesão termina sua obra, o boneco o cativa chamando-o de “babo” (papai). O velho Gepetto se desmancha em alegria e paixão. Finalmente terá um filho. Irá educá-lo e amá-lo. Sai para comprar um abecedário. O “menino” há de frequentar a escola. Sua pobreza é tão absurda, que será obrigado a trocar o próprio (e único) casaco pela cartilha. Num momento em que o povoado está coberto de neve.

Pinóquio, porém, tem outras intenções. Não quer saber de escola. Prefere vadiar, comer e beber à farta, divertir-se, dormir ao invés de cumprir normas, enfim viver novas e arriscadas experiências. Pagará caro por tais transgressões e fará Gepetto correr mundos à sua procura.

O espírito aventureiro do boneco falante o levará a um circo de marionetes (sequência das mais belas nos quatro filmes: o da Disney, o de Comencini, o de Garrone e, até, no destrambelhado longa de Benigni). Pinóquio será vítima de dois espertalhões (Gato e Raposa), transformar-se-á, junto com outras crianças malcriadas, em asno orelhudo e irá parar no ventre de um imenso peixe (um tubarão, nos filmes mais fieis a Collodi, uma baleia, na adaptação da Disney).

O poder de sedução das animações hollywoodianas é de todos conhecido. Os Estúdios Disney e seus seguidores encantam imensas plateias há quase um século com seus desenhos coloridos, suas canções que triunfam no Oscar, histórias para toda a família e bons conselhos reafirmados em finais felizes.

A versão de Luigi Comencini (1916-2007) não teve alcance planetário, mas, ao chegar como minissérie ao público italiano, na década de 1960, marcou época. Estourou na pátria de Collodi graças a elenco estelar: Mino Manfredi, como Gepetto, Andrea Balestri, o Pinóquio, Gina Lollobrigida, a Fada Azul, Vittorio de Sica, o juiz, e a dupla Franco Franchi e Ciccio Ingrassia (este, para quem não se lembra, é o tio doidinho que grita no “Amarcord” feliniano: “io voglio una donna!!!”). O sucesso foi tão grande, que os muitos capítulos seriados deram origem a um longa-metragem de pouco mais de duas horas.

Um item do filme de Comencini, porém, envelheceu: a mudança do boneco de madeira para sua versão humana. Com poucos recursos técnicos, o Pinóquio-marionetti tornou-se anacrônico, desengonçado e muito diferente do menino encantador que aparece nos momentos mais importantes da narrativa.

Já o “Pinóquio” de Garrone é fruto de verdadeiro virtuosismo de maquiagem, trucagem e efeitos especiais. E, por incrível que pareça, o resultado é discreto (o cineasta não queria shows pirotécnicos e exibicionistas vindos dos magos da computação). O menino-ator Federico Ielapi é visto como se fosse mesmo feito de madeira, com leves nervuras. Suas formas são (quase) humanas. Quando ele vira um menino de carne e osso, a transição se dá de forma delicada e perfeita.

O mais engraçado (ou constrangedor), em “Pinóquio e a Fada Azul”, que Roberto Benigni realizou depois de triunfar no Oscar (melhor ator e melhor filme estrangeiro com “A Vida é Bela”), é que o próprio Benigni, já cinquentão, interpreta o menino Pinóquio (sua amada Nicoletta Braschi faz a Fada Azul). O seu Pinóquio é histérico, grita sem parar e o roteiro claudica. O filme resultou em grande fracasso.

E por que Garrone, um diretor avesso a histrionismos, convocou Benigni para interpretar Gepetto? Vai saber. O que não podemos negar, ao ver o filme, é que o cineasta conseguiu domar o exagerado (e oscarizado) ator. O formidável desempenho de Benigni há de convencer até aqueles que o odeiam desde que saiu pisando cadeiras aveludadas para buscar sua primeira estatueta. Seu Gepetto é um homem pobre e carente, que sonha ter um filho com quem possa dividir a solidão de sua velhice.

O nariz de Pinóquio, que cresce a cada mentira que ele conta, povoa nosso imaginário. No filme dos Estúdios Disney, até folhas brotam no narigão do mentiroso. No de Benigni, folhas e flores aparecem no lenho-nariz. No filme de Comencini e no de Garrone, o nariz do garoto cresce quando ele falta com a verdade, mas não há busca de efeitos cômicos. Num momento da sombria fábula visionária de Garrone, pássaros vorazes bicam, com tamanha fúria, o nariz do mentiroso, que a imagem se faz amedrontadora.

Quem quiser divertir-se com a desobediência do boneco falante, que encantou Fellini e Coppola (que planejaram filmá-lo) e agora ocupa Guillermo del Toro, deve buscar o filme dos Estúdios Disney (ou mesmo o de Comencini, para divertir-se com as representações circenses de Franco “Gatto” Franchi & Ciccio “Volpe” Ingrassia). Já o filme de Garrone dialoga mais com o horror que com o humor. Suas cores (até o vermelho) são foscas. Vê-lo é um desafio.

Espectadores de índole mais inquieta terão motivos para apreciá-lo. Desde que não procurem unicamente a magia fabular do terrível (e fascinante) conto moral do florentino Carlo Lorenzini, vulgo Collodi (1826-1890). Afinal, se pensarmos bem, o escritor peninsular tornou-se motivo de tormento para muitas gerações de infantes. Que criança não teme ver o nariz crescer quando mente? Ou acordar com imensas orelhas de burro? Ou enclausurada no ventre de um peixe gigante?

 

Pinóquio
Itália, 125 minutos, 2019
Direção: Matteo Garrone
Nova adaptação do conto infantil de Carlo Collodi
Elenco: Roberto Benigni, Federico Ielapi, Gigi Proietti, Rocco Papaleo, Massimo Checherini, Marcello Forte, Marina Vacth, Alida Calabria
Trucagens: Mark Coulier
Efeitos especiais: Rachael Penfold
Distribuição: Imagem Filmes, com versão em inglês, legendada

 

FILMOGRAFIA
Matteo Garrone (Itália, 15 de outubro de 1968)

2019 – “Pinóquio”
2018 – “Dogman” (melhor ator em Cannes)
2015 – “O Conto dos Contos”
2012 – “Reality – A Grande Ilusão”
2008 – “Gomorra” (premiado em Cannes)
2004 – “First Love” (codireção de Massimo Gaudioso)
2002 – “O Estranho Sr Pepino”
2000 – “Roman Summer”
1996 – “Terra di Mezzo”

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