Amazônia vista por dois fotógrafos de cinema

Por Maria do Rosário Caetano

Lúcio Kodato e Zetas Malzoni, dois experientes diretores de fotografia do cinema brasileiro, estão lançando o livro “Memórias de Rio – Amazônia 1970”. Por que o fazem com atraso de 50 anos? Essa pergunta é respondida pelos dois fotógrafos em textos sintéticos e bem-humorados, escritos para contextualizar o momento (e circunstâncias) em que as 700 imagens foram produzidas.

Kodato e Malzoni se encontraram, pela primeira vez, no set de filmagem de “Um Anjo Mau” (Roberto Santos, 1971). O primeiro seria o still (autor das fotos de cena) e o segundo faria figuração, já que iniciava carreira no teatro. Só que o assistente de fotografia (o titular era Hélio Silva) deixou as filmagens e Kodato foi promovido a fotógrafo-assistente. O still sobrou para Zetas, que dedicava boa parte de seu tempo livre (que era elástico) à fotografia.

Como os dois só pensavam em imagens (e sonhavam com o mundo do cinema), a amizade se estabeleceu na hora. E só fez crescer com o passar dos anos. Lúcio e Zetas tinham vinte e poucos anos, quando pintou a ideia de filmar e fotografar a Amazônia.

“Éramos dois ‘sem noção’, banhados em sonhos utópicos”, relembram. Daí, que “embarcamos sem pestanejar naquela aventura desafiadora”. Pegaram um mapa da região amazônica, duas câmaras cinematográficas e duas fotográficas, pouquíssimas roupas, quase nada de dinheiro e puseram o pé na estrada.

Rosely Nakagawa, que apresenta “Memórias de Rio”, descreve o itinerário dos dois fotógrafos-aventureiros: “descer o Rio Negro, de São Gabriel da Cachoeira até Manaus, com um mapa impresso, na década de 1970, para fotografar e filmar”. Isso, “num momento em que as condições políticas do país não favoreciam o deslocamento”. Era o tempo “do ‘Brasil Grande’, das usinas de energia, da rodovia Transamazônica, do Plano de Integração Nacional, do ‘integrar para não entregar’”. Enfim, 1972, o ano ufanista do Sesquicentenário da Independência.

A aventura não foi fácil. Nakagawa lembra que “graças à amizade”, Lúcio e Zetas “superaram câmeras afogadas pela umidade, fotômetros assados pelo calor, automóveis encalhados, noites mal dormidas, falta de comida”. Eles contaram até com “um guia cego”. Malzoni registra as perdas: “das quatro câmeras que levamos, só uma sobreviveu às condições climáticas da região”.

O saldo da viagem dos dois jovens, apesar da “sem-nocãozisse” aguda, foi dos mais significativos. Dela, resultaram um filme, “Rio Negro”, exibido no Globo Repórter, com narração de José Wilker, e os 700 slides, razão de ser de “Memórias de Rio”.

Quem desencavou o material, cinco décadas depois da aventura amazônica, foi Luísa, que, além de filha de Zetas Malzoni, é restauradora de filmes na Cinemateca Brasileira. Ao manipular o material em busca de sua preservação, ela entendeu que as imagens eram muito valiosas, registro de um tempo passado, e que mereciam compor um livro. Selecionou as fotos e o álbum foi impresso.

Ninguém saberá quem fez esta ou aquela foto. Malzoni comenta, com seu bom-humor característico: “como misturamos os rolos de filme no isopor sem identificá-los, passado tanto tempo, Lucio e eu não sabemos quem é o autor de cada imagem, a não ser daquelas em que aparecemos. Se ele está no quadro, a foto é minha. Se eu estou, é dele. Fora isso, são fotografias nossas, como as imagens do documentário”. Para arrematar: “Que assim permaneça, a ‘autoralidade’ inviável como testemunha de nossa amizade, das coisas que acreditávamos aos 20 anos e em que ainda acreditamos aos 70”.

O tempo confirmou a vocação dos dois rapazes para a direção de fotografia. Lúcio Kodato, quando regressou da aventura amazônica, levou uma bronca do pai, nascido no Japão, que viera viver no Brasil, primeiro como lavrador, depois como retratista, com pequeno estúdio na região do Mercado Municipal paulistano. O rapaz, “se queria ser fotógrafo para valer, que fosse estudar no Japão”. Lúcio foi e levou as imagens amazônicas. Ganhou reportagem em publicação especializada (revista Ashai Camera), que o deixou muito orgulhoso e emocionado. Sentimentos que o acompanham, ainda hoje, sempre que se vê, seja na reportagem ilustrada japonesa, seja nas fotos que realizou com o amigo ítalo-brasileiro. “Essas imagens me enchem de nostalgia”, relembra. “Olho para elas como se visse a floresta de cima, do hidroavião Catalina, do Correio Aéreo Nacional, em 1972. E me sinto leve por não ter deixado passar a oportunidade”.

Aos 73 anos, Kodato, que hoje é professor de fotografia, tem seu nome impresso nos créditos de filmes de Tânia Quaresma (“Nordeste, Cordel e Repente”), Maureen Bisiliat (“Xingu Terra”), Silvio Tendler (“Anos JK”, “Jango”), Francisco Ramalho (“Canta Maria”), Lúcia Murat (“Maré, nossa História de Amor”) e em uma coprodução internacional, “A Ilha dos Escravos” (Brasil, Cabo Verde, Portugal e Espanha). E, claro, a honra de ter integrado o time de feras que, sob o comando de Murilo Salles, fotografou a Copa do Mundo de 1994, aquela vencida pelo Brasil e que deu origem ao épico “Todos os Corações do Mundo”.

Zeta Malzoni, que nasceu em 1949, foi ator no Tuca (Teatro da PUC) e participou da montagem de “Pedro Páramo”. Depois do documentário “Rio Negro”, fotografou o curta “O Começo Antes do Começo”, de Márcio Souza e Roberto Kanané. Realizou, como diretor de fotografia, dezenas de curtas institucionais, fotografou longas de Roberto Santos (“Os Amantes da Chuva”, “Nasce uma Mulher”) e trabalhou em filmes de Renato Tapajós, como o longa “Linha de Montagem”, eleito um dos cem melhores documentários brasileiros pela Abracine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), e o média-metragem “Nada Será como Antes. Nada?”

Hoje, Zetas Malzoni cuida de sua fazenda. E conta história divertida: “um dia, fui negociar uma dívida com o gerente do banco. Ele se assombrou com o fato de que minha experiência anterior se resumisse a cinema e fotografia”. Profissional e descolado, o dublê de diretor de fotografia e fazendeiro não perdeu o jogo de cintura: “O senhor não se preocupe, porque cinema e cana-de-açúcar são a mesma coisa”. Ou seja, “um monte de gente sem dinheiro olhando o céu, perguntando se vai chover e garantindo que o próximo filme (ou a próxima safra) vai ser melhor”.

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