Festival É Tudo Verdade realiza edição online e homenageia Caetano Veloso
“Os Doces Bárbaros”, de Jom Tob Azulay

Por Maria do Rosário Caetano

O É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários de São Paulo realiza sua vigésima-sexta edição, a segunda online, mês que vem, de 8 a 18, com acesso gratuito. Além de suas tradicionais mostras competitivas de curtas e longas brasileiros e internacionais, o festival homenageará os cineastas Maureen Bisilliat, Cris Marker, Ruy Guerra e o polivalente Caetano Veloso.

Ao divulgar os concorrentes da edição desse ano, o criador do festival, Amir Labaki, lembrou que 2021 contou, ainda, com “significativo número de inscritos” para alimentar a equipe curatorial. Ano passado, foram 1600 títulos internacionais e brasileiros. Este ano, foram 1200. Mas fez questão de registrar seu temor de que, por falta de políticas públicas de fomento ao audiovisual, a situação no próximo ano se revele das mais difíceis, em especial para a produção brasileira. Fez questão de registrar, também, e com respaldado de Eduardo Saron, do Itaú Cultural, que os setores artísticos-culturais brasileiros vivem, com a pandemia, momento dos mais preocupantes.

Em 2020, primeira edição online do É Tudo Verdade, foram selecionados dez longas-metragens. “Estávamos comemorando os 25 anos de criação do festival e, frente à alta qualidade dos filmes, ampliamos a quantidade de concorrentes”. Para esse ano, voltou-se ao número histórico, sete filmes. Os estrangeiros continuam com 12 títulos.

Entre os selecionados nacionais, estão dois filmes dirigidos por mulheres – “Alvorada”, de Anna Muylaert e Lô Politi, sobre os últimos dias da presidenta Dilma Rousseff no Palácio (niemárico) da Alvorada, e “Paulo César Pinheiro – Letra e Alma”, de Andrea Prates, em parceria com Cleisson Vidal. Este filme registra a imensa (mais de mil canções) produção do compositor carioca, parceiro de inventores da grandeza de Baden Powell e Tom Jobim.

Completam a lista, “Os Arrependidos”, de Ricardo Calil e Armando Antenore, “Zimba”, de Joel Pizzini, “Edna”, de Eryk Rocha, “Dois Tempos”, de Pablo Francischelli, e “Máquina do Desejo – 60 Anos de Teatro Oficina”, de Lucas Weglinski e Joaquim Castro. Como se vê, dois vencedores do festival retornam à competição – Eryk Rocha, premiado, em 2002, com “A Rocha que Voa”, sobre os anos cubanos de Glauber Rocha, e Ricardo Calil, com “Cine Marrocos”, dois anos atrás.

Aliás, o filme que se propõe a incendiar os debates dessa 26ª edição do ETV traz a assinatura de Calil e Antenore. Os dois jornalistas, hoje cineastas, abordam tema que é nitroglicerina pura: o arrependimento político de jovens que abraçaram a militância, dispostos a arriscar tudo, até a vida, por uma causa. Mas, presos e torturados, arrependeram-se e foram transformados em arma de propaganda por seus algozes.

Eryk Rocha acompanha Edna, jovem que luta pela terra à beira da rodovia Transbrasiliana. Os outros filmes seguem o mais prolífico veio de nossa produção documental contemporânea: artistas e movimentos culturais. Joel Pizzini recria a trajetória de Zbigniew Ziembinski (1908-1978), o grande diretor-ator polaco-brasileiro, que renovou nosso teatro (“Vestido de Noiva”) e interpretou personagens hilários em telenovelas da Globo. Weglinski e Castro dedicam-se a seis décadas de arte e vida do Teatro Oficina. Francischelli une dois artistas, os violonista brasileiro Yamandu Costa e o argentino Lucio Yanel.

Entre os quatro homenageados do É Tudo Verdade, está a fotógrafa e cineasta Maureen Bisilliat, que acaba de completar 90 anos. Diretora de “Xingu Terra” (1979), ela, que nasceu na Inglaterra, radicou-se no Brasil e apaixonou-se de tal forma pelo país, que aqui fincou raízes. Registrou poderosas imagens de populações indígenas xinguanas, o universo de João Guimarães Rosa, Euclides da Cunha, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade e dos irmãos Villas-Boas. O cartaz do festival reproduz foto dela, registro de colorida Festa de Iemanjá, realizada em Santos, no litoral paulista.

Outro homenageado, Cris Marker (1921-2012), sempre esteve na memória do ETV. Ano passado, ele foi lembrado com seu monumental “O Legado da Coruja”, exibido na programação dos 25 anos do festival. Esse ano, será o tema da Conferência Internacional de Cinema Documentário, núcleo reflexivo organizado por Maria Dora Mourão, da USP, e Amir Labaki. Na abertura do evento, o crítico Jean-Michel Frodon, responsável pela mais completa mostra retrospectiva da obra de Marker já realizada na França, fará palestra sobre o criador do seminal “La Jetée” e de dezenas de documentários ensaísticos que encontraram em “O Fundo do Ar É Vermelho” sua explosão mais apaixonante.

Marker será lembrado também por Carolina Amaral de Aguiar, professora da UFILA (Universidade Federal de Integração Latino-Americana), sediada em Foz do Iguaçu. Carol é autora de tese de doutorado transformada em livro (“O Cinema Latino-Americano de Cris Marker”, Alameda Editorial) sobre as incursões do documentarista por Cuba, Chile e, mesmo que à distância, pelo Brasil. Incursão que gerou muitos filmes. Um deles, “A Espiral” (1975), contou com Silvio Tendler em sua equipe. Por isso, o diretor de “JK” e “Jango” participará de live, na qual relembrará sua convivência com o mestre francês. Para finalizar o ciclo de encontros em torno do “mais célebre dos cineastas desconhecidos”, o estudioso do cinema documental, Bill Nichols, fará a palestra de encerramento do encontro on-line.

Um dos nomes mais internacionais do cinema brasileiro – o moçambicano-português-francês-carioca Ruy Guerra – também será homenageado pelo É Tudo Verdade. Afinal, realizou muitos filmes ficcionais (“Os Cafajestes”, “Os Fuzis”, “A Queda”, “Kuarup”), dirigiu o híbrido “Mueda – Memória e Massacre” e manteve intenso diálogo com o documentário. Além de ministrar masterclass sobre sua relação com o cinema não-ficcional, Ruy será festejado com exibição do documentário “O Homem que Matou John Wayne”, de Diogo Oliveira e Bruno Laet, produzido por sua biógrafa, a professora da Unicamp Vavy Pacheco Borges (“Paixão Escancarada”, Boitempo Editoral). Amir Labaki lembrou que o ETV antecipa, com essa homenagem a Ruy Guerra, os 90 anos que ele completará no próximo dia 22 de agosto.

O quarto homenageado, o cantor, compositor e cineasta Caetano Veloso, será homenageado com a mostra Caetano.Doc, composta com nove títulos que o têm como foco principal ou coletivo. Caso de “Os Doces Bárbaros”, de Jom Tob Azulay, “Narciso em Férias” e “Uma Noite em 67”, de Terra e Calil, e “Tropicália”, de Marcelo Machado. Os filmes serão mostrados pelo Spcine Play. E, alguns deles, pelo Canal Brasil, parceiro do festival, ao lado do Itaú Cultural, Sesc e da própria Spcine, empresa de fomento cinematográfico mantida pela Prefeitura de São Paulo.

 

26º Festival É Tudo Verdade – Edição online
Data: 8 a 18 de abril
Exibição gratuita de 69 filmes oriundos de 23 países
Mostras competitivas e informativas
Local: em plataformas de streaming: Looke, Spcine Play, Itau Cultural, Sesc em Casa e Youtube do É Tudo Verdade. E com alguns títulos no Canal Brasil.

 

OS SELECIONADOS:

. “Fuga” (Flee), de Jonas Poher Rasmussen – Sessão de Abertura do ETV
. “A Última Floresta”, de Luiz Bolognesi (filme de encerramento)
. “Paul Singer, Uma Utopia Brasileira”, de Ugo Giorgetti (Sessão Hors Concours)

Longas brasileiros

. “Alvorada”, de Anna Muylaert e Lô Politi
. “Paulo César Pinheiro – Letra e Alma”, de Andrea Prates e Cleisson Vidal
. “Os Arrependidos”, de Ricardo Calil e Armando Antenore
. “Zimba”, de Joel Pizzini
. “Edna”, de Ery Rocha
. “Dois Tempos”, de Pablo Francischelli
. “Máquina do Desejo – 60 Anos de Teatro Oficina”, de Lucas Weglinski e Joaquim Castro

Longas internacionais

. “Mil Cortes”, de Ramona S. Diaz
. “Presidente”, de Camilla Nielsson
. “História de um Olhar”, de Mariana Otero
. “Glória à Rainha”, de Tatia Skjirtladze
. “Leonie, Atriz e Espiã”, de Annette Apon
. “Sob Total Controle”, de Alex Gibney, Ophelia Harulyunyan e Suzana Hillinger
. “MLK/FBI”, de Sam Pollard
. “Eu e o Líder da Seita”, de Atsushi Sakara
. “9 Dias em Raqqa”, de Xavier de Lauzanne
. “Gorbachev. Céu”, de Vitaly Mansky
. “Paraíso”, de Sérgio Tréfaut
. “Vicenta”, de Dario Doria

Curtas Brasileiros

. “Cartas de Brasília”, de Larissa Leite
. “A Vida que Eu Sonhava Ter”, de Eliane Scardovelli Pereira
. “Yaõkwa: Imagem e Memória”, de Rita Carelli e Vincent Carelli
. “Ser Feliz no Vão”, de Lucas H. Rossi
. “Coleção Preciosa”, de Rayssa Coelho e Filipe Gama
. “O Karaokê de Isadora”, de Thiago B. Mendonça
. “Review”, de Tyrell Spencer
. “Sem Título # 7: Rara”, de Carlos Adriano
. “João por Ignez”, de Bebeto Abranches

Curta Internacionais

. “Uma Cidade e uma Mulher”, de Nicolas Khoury
. “Num Piscar de Olhos”, de Jorge Moneo Quintana
. “Quando o Mar Manda uma Floresta”, Guangli Liu
. “E14”, de Pelman Zekavat
. “Um Pai que Você Nunca Teve”, de Dominika Lapka
. “Sequência de Lacunas Sem Nome”, de Vika Kirchenbauer
. “A Montanha Lembra?”, de Delfina Carlota Vazquez
. “Projetando a Utopia”, de Catarina de Sousa e Nick Tyson
. “Terapia Deepfake”, de Roshan Nejaly

Mostra Caetano.Doc

. “Coração Vagabundo”, de Fernando Grostein
. “Narciso em Férias”, de Terra & Calil
. “Uma Noite em 67”, de Terra & Calil
. “Tropicália”, de Marcelo Machado
. “Os Doces Bárbaros”, de Jom Tob Azulay
. “Canções do Exílio”, de Geneton Moraes Neto
. “O Sol – Caminhando Contra o Vento”, de Tetê Moraes
. “Torquato Neto – Todas as Horas do Fim”, de Eduardo Ades & Marcus Fernando
. “Rogério Duarte, o Tropikaoslista”, de José Walter Lima

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