Sérgio Mendes narra seus êxitos internacionais no singular

Por Maria do Rosário Caetano

Sérgio Mendes ganhou um filme para chamar de seu. Tão seu que, ao longo de 94 minutos, não sobra tempo para mencionar nem um décimo dos instrumentistas geniais que o ajudaram a fazer sucesso por seis longas décadas, desde que estourou com “Mas que Nada”, hit benjoriano, até o tempo presente.

O pianista, compositor e arranjador, hoje octogenário, nasceu em Niterói, teve osteomielite na infância, foi obrigado a ficar em casa e apaixonou-se pelo piano. Transformou-se em músico dedicado, apaixonado e em fina sintonia com as modas sonoras de cada nova era. Quando a Bossa Nova estourou nos EUA e, algum tempo depois, um golpe militar instalou regime ditatorial no Brasil, Sérgio resolveu tentar a sorte na terra do Tio Sam.

O jovem pianista enfrentou algumas dificuldades, mas conheceu a glória em pouco tempo conseguindo colocar muitos sucessos no hit parade norte-americano. “Mas que Nada”, cantada em português, ocupou a posição número 47 entre as 100 mais executadas no disputadíssimo mercado do país de Frank Sinatra.

Para narrar seus triunfos nos States (e, por extensão, no Brasil), Sérgio Mendes escolheu o documentarista John Scheinfeld, diretor de “Os EUA x John Lennon” (2006) e “Chasing Trane: The John Coltrane Documentary” (2016). Ou seja, um gringo descolado.

O resultado final é um documentário de corte clássico, com rico material de arquivo (graças ao craque Antonio Venancio), alguns depoimentos (todos a favor do biografado), muita música e paisagens belíssimas. Seja do Rio de Janeiro, seja de Niterói (com seu fascinante e niemárico Museu de Arte Contemporânea), seja de Los Angeles, onde o músico estabeleceu as bases de seu lar estadunidense.

Foi na meca californiana do cinema que um aspirante a ator, em busca da sobrevivência, fazia bicos como carpinteiro. Um dos trabalhos que executou, com grande habilidade, foi um estúdio de som na casa de Sérgio Mendes. O rapaz, que tornar-se-ia famoso planetariamente, chamava-se Harrison Ford. Um terremoto destruiria o belo estúdio. Mas a amizade entre o ex-carpinteiro e o músico resistiria ao tempo.

Em viagem egoica, Sérgio Mendes narra sua história musical em primeira pessoa e só recorre a um ou outro parceiro – em figuração de luxo (ou nem isso) – para insinuar-se magnânimo. Destaque (mesmo assim relativo) só para as cantoras Gracinha Leporace (Sra. Sérgio Mendes) e Lani Hall, para o empresário Herbert Alpert, o produtor Quincy Jones, o rei do futebol, Pelé, o rei do Gueto do Candeal, Carlinhos Brown, e o cineasta Carlos “Rio” Saldanha. E, claro, para o astro Harrison “Indiana Jones” Ford. Quem, em sã consciência, deixaria de contar história de tão curiosa carpintaria?

A falta de reconhecimento (e generosidade) de Sérgio Mendes com os músicos espanta até os mais leigos. Assistindo ao filme ao lado de Luiz Zanin Oricchio, bem mais dotado de conhecimentos musicais que eu, externei duas decepções.

A primeira: a passagem do saxofonista Cannonball Adderley (1928-1975) pelo filme fora meteórica. Como o grande músico estadunidense era fã assumido da Bossa Nova (a ponto de ir ao Aeroporto de Nova York buscar a turma que faria o concerto do Carnegie Hall, razão de sincero orgulho de Roberto Menescal) supunha-se que ganharia espaço mais significativo.

A segunda decepção: uma cantora da banda Brasil 66 sequer tivera seu nome mencionado. A outra, Lani Hall, que deixaria o grupo para casar-se com o empresário Herbert Alpert, sim, ganharia nome, sobrenome e voz. Deixei passar, atribuindo meu incômodo ao feminismo. É duro ver uma mulher emudecida num filme protagonizado por um homem, produzido por outro, dirigido por mais um outro, fotografado por outro mais (Dan Brockett) etc. Luiz Zanin também estranhou o apagamento da cantora.

Seguimos vendo o filme. Um documentário que tem muitos méritos. Impossível negar. Mas que peca por colocar Sérgio Mendes num pedestal, como se ele tivesse feito tudo sozinho.

Intrigada, procurei, então, interlocutor qualificado para troca de ideias – o crítico musical Tárik de Souza, cada vez mais enfronhado no mundo do audiovisual. Além de integrar a equipe do excelente “O Som do Vinil”, de Charles Gavin, e de ter comandado, no Canal Brasil, o ótimo programa “MPBambas”, Tárik realizou para a Rádio MEC o programa “Bossamoderna”, até hoje no ar (com reprises de onze anos de história).

Perguntei: Tárik, você gostou do longa documental sobre a trajetória de Sérgio Mendes? Tárik respondeu: “Gostei e detestei”. E detalhou: “gostei de rever a trajetória espetacular do músico, especialmente na Bossa Nova, na qual perpetrou um dos maiores discos do segmento samba jazz – ‘Você Ainda Não Ouviu Nada’, de 1964”. Para avançar: “uma das faixas, ‘Neurótico’, de J.T. Mereilles, foi por mim escolhida como prefixo do meu programa ‘Bossamoderna’, na Rádio MEC”.

O autor de “Sambalanço – A Bossa que Dança”, livro que foi transformado em longa documental por Fabiano Maciel, gostou, também, “da estilização pop da bossa, bem depois do concerto do Carnegie Hall, que fez Sérgio Mendes galgar as paradas mundiais, com ‘Mas que Nada”, a primeira “top hit” em português (‘The Girl From Ipanema’ estourou na versão em inglês, com a Astrud Gilberto)”.

Tárik se incomodou, e muito, com a atenção zero dada aos músicos que ajudaram a erguer a exitosa carreira internacional de Sérgio Mendes.

“Detestei” – avisou – “o fato de, no documentário, ele não ter mencionado os músicos que tocaram com ele na época da Bossa”. Mesmo do Brasil 66, “Sérgio Mendes só fala da cantora Lani Hall, que depois se casaria com um dos chefões da gravadora, o maestro Herbert Alpert. A outra cantora loura, antes da entrada da Gracinha Leporace (com quem ele viria a se casar), não é sequer mencionada”.

O crítico musical prossegue em sua argumentação: “Sérgio Mendes não diz que foi Tom Jobim quem fez os arranjos do disco ‘Você Ainda Não Ouviu Nada’, e omite grandes instrumentistas que integraram seus grupos como o baixista Tião Netto, os bateristas Edison Machado e Dom Um Romão, os sopristas Paulo Moura, Hector Costita, Pedro Paulo, Maciel, e o percussionista Rubens Bassini”.

E mais: “ignora o guitarrista e os violões Durval Ferreira e Tom Jobim, a flauta e baixo de Bebeto (depois integrante do Tamba Trio), os sopristas Aurino Ferreira e Raul de Barros, as baterias de João de Palma e Chico Batera. Não dá destaque nenhum a J.T. Meirelles (1940-2008), arranjador da maior parte das faixas do primeiro disco de Jorge Ben, ‘Samba Esquema Novo’ (1963)”.

“Na minha avaliação” – prossegue Tárik – “entendo que ele poderia ter sido mais generoso com o Jorge Ben, que afinal, forneceu a ele o ‘big hit’ com o qual estourou duas vezes. A primeira em 1966, e a segunda, já sob a forma de rap no novo milênio, disparado por Wili.am”. Para constatar: “Sérgio Mendes só abriu exceção para o Carlinhos Brown e alguns astros internacionais com quem fez parceria”.

E, no arremate, dispara: “além de todo falado em inglês, o documentário me pareceu destinado apenas ao público externo. Mesmo que Sérgio se mostre sentimental, com ‘saudade’ do Brasil, ele não demonstrou esse afeto pelos companheiros que o ajudaram a erguer seu (merecido) pedestal”.

Em tempos de Spotfy, serviço digital que ignora os nomes dos compositores e dos músicos que acompanham cantoras e cantores, nada mais justo que esperar (de um longa documental) a valorização, de algum jeito ou forma, de grandes instrumentistas. Até porque seu astro – o niteroiense Sérgio Mendes – é ele mesmo um grande músico.

Não se pode esperar que todos sejam generosos como Roberto Menescal. O bossanovista capixaba (e tão carioca) derrama camaradagem em seus comentários sobre os colegas, divide suas glórias com eles e – asseguram os que o conhecem – licenciou-se da gravadora onde trabalhava para acompanhar os momentos derradeiros de sua grande amiga Nara Leão (1942-1989).

Um pouco de generosidade, em tempos tão escuros, faria (faz) bem a todo mundo. Mesmo assim, não percam “Sérgio Mendes no Tom da Alegria”. O filme traz música de significativa qualidade e imagens de grande beleza.

 

Sérgio Mendes no Tom da Alegria
Direção: John Scheinfeld
Fotografia: Dan Brockett
O filme registra as diversas fases da carreira internacional do músico Sérgio Mendes, dos tempos do Brasil 66, até eventos mais recentes, como a trilha sonora da animação “Rio” (Carlos Saldanha, 2011), que ele compôs com Carlinhos Brown, e o Rock in Rio 2017.

Bossamoderna
Programa radiofônico de Tárik de Souza, gravado ao longo de onze anos. Reprises dominicais, na Rádio MEC FM, sempre às 22 horas. O prefixo do programa, dedicado ao samba jazz, traz a faixa “Neurótico”, de J.T. Mereilles, do disco “Você Ainda Não Ouviu Nada” (Sérgio Mendes,1964).

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