A trajetória do Rumo em filme cabeça e bem-humorado

Por Maria do Rosário Caetano

O grupo Rumo agitou a cena musical paulistana, nos anos oitenta, ao lado de Arrigo Barnabé, Itamar Assunção e sua banda Isca de Polícia, do Premê e do Língua de Trapo. Enfim, da turma que transformou a Praça Benedito Calixto e o aconchegante Lira Paulistana em foco irradiador de seus sons, ideias (cabeçudas ou não) e senso de humor (às vezes contido, às vezes desbragado).

Pois agora, o Rumo tem um filme para chamar de seu. Trata-se de longa documental dos mais instigantes, que chega aos cinemas nessa quinta-feira, primeiro de julho. No comando do projeto estão os cineastas Flávio Frederico e Mariana Pamplona. Na tela, muitos dos nove, dez ou até 15 integrantes fixos ou “agregados” à trupe.

Se “Rumo” tem um protagonista, ele é Luiz Tatit. Afinal, é do sereno músico e pensador dos rumos da canção (o mais brilhante, junto com José Miguel Wisnik) que saem as melhores “falas” do documentário. E é de seu “canto falado” que brotam os versos da mais fascinante das dezenas de canções apresentadas ao longo dos 77 minutos desse híbrido de documentário, animação e musical.

O nome da canção? “Felicidade”, invenção de letra quilométrica e melodia aliciante do próprio Tatit. O ponto alto do filme.

Ná Ozetti, Akira Ueno, Gal Oppido, Hélio Zinski, Geraldo Leite, Pedro Mourão, Paulo Tatit e Zé Carlos Ribeiro também têm participação significativa na narrativa. E Ciça Tuccori, que morreu em 2003, é lembrada com imagens e muito carinho. Os “agregados” Wisnik, Thea Standerski, Ricardo Breim, Augusto Froelich, Fábio Tagliaferri e Swami Jr são evocados em letreiro final.

O Rumo tomou seu rumo na música brasileira ainda na década de 70, no campus da USP. Fazia apresentações assistidas, em espaços os mais diversos da universidade, “por pessoas de pijama, que passavam por ali, com a escova de dentes na mão”. Às vezes, “havia mais gente no palco que na plateia”.

Para destacar o humor típico dos “rumeiros” – mais contido que o do Premê, e mais contido ainda que o do Língua de Trapo –, Flávio e Mariana recorreram à animação. Parte dos depoimentos saem pelos movimentos labiais dos músicos desenhados por Fernando Heynen e animados pelo designer Mao Ambrosio.

O trabalho da Olhar Eletrônico, projeto que mobilizou Fernando Meirelles, Marcelo Machado e trupe, é essencial ao filme. Afinal, foram os programas de TV e os clips da Olhar que registraram muitos dos passos do “elenco” da Lira Paulistana. Papel importante, também, desempenha a TV Cultura, que registrou entrevistas e shows dos principais nomes da Vanguarda Paulista. E há, ainda, citações de trechos de filmes como “Cidade Oculta”, de Chico Botelho, “Disaster Movie”, de Wilson Barros, e “Aconteceu em Havana”, de Walter Langde.

A qualidade de muitas das imagens de arquivo utilizadas pelo documentário, já que captadas em vídeo, deixam a desejar. Mas o material colhido no presente e sua parte recriada em animação dão colorido e vivacidade especiais ao “Rumo”.

O peculiar humor dos “rumeiros” resulta em pérolas que vão seduzindo nossos ouvidos ao longo da enxuta narrativa. Luiz Tatit diz que “os Mamonas Assassinas são o Língua de Trapo que deu certo”. Ao refletir sobre dura realidade – a música do Rumo não tocava nas rádios, nem nas grandes emissoras de TV –, um dos integrantes da trupe lembra o generoso espaço de que dispunham nos jornais impressos e o reconhecimento da crítica. Para concluir: pena que “jornal não toca música, não é?!”

O Rumo sobreviveu por mais de duas décadas, gravou quatro discos, fez muitos shows (incluindo vibrante e concorridíssima temporada na Sala Funarte, no Rio), mas seus integrantes nunca conseguiram auferir rendimentos para pagar as contas do dia-a-dia. Todos eram obrigados a manter uma segunda profissão. Em muitos dos depoimentos, integrantes do Rumo lamentam as dificuldades enfrentadas. “De 1974 a 1981, não conseguimos registrar um disco que fosse”. As gravadoras eram impenetráveis, as rádios mais ainda, pois o jabá corria solto.

Depois de ouvir “Felicidade” e “Marcianita”, surge mais uma “boutade” do inesgotável repertório de Luiz Tatit. Um dia, a trupe viu (até) pessoas dançando em seus shows. Mas, as músicas do Rumo “nem tinham aquela função somática!”.

Para melhor fruir o documentário de Flávio e Mariana, há – como dizia amiga baiana – “que se ter despreendimento”. Abrir olhos e ouvidos para experiência singular, para canções e performances que ainda hoje re-descobrimos com muita surpresa.

Assista ao trailer do documentário aqui.

 

Rumo
Brasil, 77 minutos, 2019
Documentário musical animado
Direção: Flávio Frederico e Mariana Pamplona
Fotografia: Carlos André Zalasik
Montagem: Oswaldo Santana
Edição de som: Eduardo Santos Mendes
Música original: Jonas Tatit
Produção: Kinoscópio e Canal Brasil

 

FILMOGRAFIA
Flávio Frederico (Rio de Janeiro, 1969) e Mariana Pamplona (São Paulo)

2021 – “Assalto na Paulista”, ficção em finalização
2021 – “Soul Brasil”, doc em finalização
2019 – “Rumo”, doc de Flávio Frederico e Mariana Pamplona
2014 – “Em um Mundo Interior”, doc de Flávio Frederico e Mariana Pamplona
2013 – “Em Busca de Iara”, doc de Flávio Frederico
2010 – “Boca”, ficção de Flávio Frederico
2007 – “Caparaó”, doc de Flávio Frederico
2001 – “Urbânia”, fic-doc de Flávio Frederico

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