Ursinho Misha encanta “O Filho de Sofia”

Por Maria do Rosário Caetano

Quem não se lembra do ursinho Misha, mascote das Olimpíadas de Moscou, dando adeus aos convidados e deixando cair uma lágrima? A imagem era virtual, a Olimpíada fora boicotada por uma das maiores potências esportivas do mundo, os EUA, e mesmo assim, o mundo se emocionou com o ursinho soviético.

Pois ele, o cativante Misha, está de volta num filme grego – “O Filho de Sofia”, de Elina Psykou –, que o serviço de streaming da Reserva Imovision Play acaba de lançar (só virtualmente). Premiado no Festival de Tribeca, de Robert de Niro e amigos novaiorquinos, “O Filho de Sofia” é uma narrativa perturbadora. Parece um conto de fadas, daqueles que encantam (e também assombram) crianças. Mas é um filme adulto, pois soma histórias infantis aos mais terríveis de nossos pesadelos.

Sua diretora, Elina Psykou, de 44 anos, é contemporânea de Athina Rachel Tsangari e Alexandros Avranas e faz parte do movimento chamado “A Estranha Onda Grega”. Aparentados os três, claro, com o diretor Yorgos Lanthimos, de 48 anos, que antes de ser adotado pela Grã-Bretanha e consagrado pelo sucesso do oscarizado “A Favorita”, assinava filmes nada convencionais. Caso de “”Dente Canino”, “O Lagosta” e “O Sacrifício do Cervo Sagrado”.

O cinema grego contemporâneo só parece perder, no item transgressão, para o cinema ucraniano. Esse parece imbatível. Como a helênica Elina Psykou realizou um filme que tem muito do universo temático e existencial da outrora poderosa (hoje destroçada) URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), ela pôde mobilizar protagonistas russos (uma mãe e seu filho de dez anos), um estranho (e louríssimo) rapaz nascido na Ucrânia, que dedica-se a singular ofício, e a uma platinada georgina. Todos, de alguma forma, ligados aos destinos de um “general” grego.

“O Filho de Sofia” é falado majoritariamente em russo. A história se passa em 2004, quando Athenas sedia as Olimpíadas. O garoto Mikhail, apelidado Misha (Victor Khomut) perde o pai e é obrigado a deixar a Rússia para viver com a sua linda mãe, Sofia (Valery Tscheplanowa), radicada na Grécia há dois anos e bilingue.

O garoto chega ao novo país com sua mochila nas costas. Nela destaca-se cópia em pelúcia do mascote das Olimpíadas de Moscou. Ele cresceu ouvindo histórias do ursinho que encantou o mundo e, ambos, cultivam o mesmo nome (apelido). Ao chegar ao novo lar, um amplo (espartano-militarizado) apartamento em Atenas, o garoto se sente um intruso. Quem é o dono daquela casa? Quem é aquele grisalho “general” de gestos metódicos, mais idoso que seu avô? Que relação sua mãe, linda como Rapunzel, tem com aquele estranho? Por que ela não solta os longos cabelos?

Como uma cebola que vai sendo descascada aos poucos, vamos montando um quebra-cabeça. O menino, que fará 11 anos em festa – formal e esquisita – ao lado do “general”, da mãe e de sua amiga, a espalhafatosa georgiana (outra oriunda ex-URSS), viverá, antes desse dia, experiências terríveis. Pesadelos que assombram o mundo infanto-juvenil (e também adulto). Na companhia, claro, do louríssimo ucraniano. Ou em seu quarto-labirinto.

O filme de Elina Psykou se constroi de sombras e (algumas) luzes, como drama familiar e conto de fadas. O “militar”, que evoca a Grécia dos generais, aqueles que tanto atormentaram a pátria originária da democracia, é também um contador de histórias. Ele mantivera, por muitos anos, programa na TV dos generais, na qual encenava e narrava contos do lendário ocidental, somados a lições histórico-morais-edificantes.

O velho metódico, que enfeita suas paredes com armas e árvores genealógicas, utiliza seu peculiar método didático para ensinar Misha a falar grego. Tarefa difícil. Afinal, o “general” é um “professor” que desconhece por completo o russo. Forasteiros em seu amplo apartamento ateniense são Misha e (até) Sofia.

A Reserva Imovision Play tem outro filme de Elina Psykou – “O Eterno Retorno de Antonis Paraskevas” – em sua mostra grega. Mostra que já nos presenteou com uma pequena joia – o realista “O Trabalho Dela”, de Nikos Labôt, filiado a outra tradição, a que vem do cinema proletário de Ken Loach, Mike Leigh e o primeiro Stephen Frears.

A chamada “Estranha Onda Grega”, que só agora ganha louvável vitrine no serviço de streaming da Reserva, continuará, nessa temporada, a nos provocar com os filmes “Attenberg” (2010), de Athina Rachel Tsangari, “Alpes” (2011), de Yorgos Lanthimos, e “Não me Ame” (2017), de Alexandros Avranas. Quem gosta de filmes que fogem de narrativas convencionais, tem tudo para empreender revigorante mergulho nos pesadelos de Misha. Não derramará nenhuma lágrima por ele, o Misha de carne e osso (Elina foge do sentimentalismo como o diabo da cruz). Mas conhecerá um instigante exemplar de cinematografia – a grega, em simbiose com o mundo eslavo –, tão rara em nosso circuito exibidor e nas telinhas de nossas TVs.

 

O Filho de Sofia
Grécia, Bulgária e França, 111 minutos, 2017
Drama sobre o mundo infantil com evocações fantásticas
Direção: Elina Psykou
Elenco: atores russos como Victor Khomut e Valery Tscheplanowa, gregos (Thanasis Papageorgiou), ucraninos e georgianos
Fotografia: Dionusius Ethymiopoulos
Onde: Streaming da Reserva Imovision, dentro da mostra “A Estranha Onda Grega”

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