O Silêncio da Chuva
© Mariana Vianna

Por Maria do Rosário Caetano

Martinho da Vila faz de seus sambas dolentes e amorosos a trilha perfeita para “O Silêncio da Chuva”, décimo-sétimo longa-metragem de Daniel Filho, e “Um Casal Inseparável”, o segundo de Sérgio Goldenberg.

No primeiro filme – estreia dessa quinta-feira, 26 de setembro – o hit “Ex Amor” soma instrumentos e vozes em roda de samba matadora. O delegado Espinoza (Lázaro Ramos) toca cavaquinho e admira os atributos vocais e físicos de sua amada Elisa (Késia Estácio).

No segundo filme, um casal formado pela professora de volei Manuela (Nathalia Dill) e pelo pediatra Leo (Marcos Veras) tem “Distrimia” como a música de suas vidas. Aquela ouvida naquele instante em que foram fisgados pela paixão. “Um Casal Inseparável” está disponível em alguns cinemas e no Telecine Play.

“O Silêncio da Chuva” é uma recriação livre do primeiro romance do psicanalista, professor universitário e ficcionista Luiz Alfredo Garcia-Roza (1936-2020). Um escritor respeitadíssimo, que resolveu abandonar a vida acadêmica (na respeitada UFRJ) e sessões com seus analisandos para estrear no romance policial. Gênero literário, aliás, tido como menor. Só que o thriller de Garcia-Roza, já na largada, contrariou a regra e conquistou leitores mais exigentes e láureas respeitadas (Prêmio Nestlé de Literatura e o Jabuti, ambos em 1997).

Muitos sonharam em levar a primeira aventura do delegado Espinosa às telas ao longo de quase três décadas. Porém, outro livro do escritor passou à frente e transformou-se em substantivo longa-metragem de José Joffily (“Achados e Perdidos”, 2005), com Antônio Fagundes e Zezé Polessa à frente de elenco muito bem escolhido.

Valeu a espera pelo “O Silêncio da Chuva”. Daniel Filho realizou um ótimo filme policial, temperado com ingredientes de ação. A trama roziana sofreu significativas, para não dizer profundas, modificações. O aprazível Bairro Peixoto dos anos 1990 deu lugar a uma metrópole inteira, um Rio de Janeiro partido, com suas mansões ricas e seus deserdados sociais. O protagonista, branco, ganhou outra cor na pele de Lázaro Ramos, em desempenho notável. As personagens femininas receberam destaque e força especial na narrativa. Lusa Silvestre, roteirista do fascinante “Estômago”, deu asas à imaginação e colocou a trama em sintonia fina com nossos dias.

Que ninguém saia do cinema antes que os créditos sejam integralmente projetados. A surpresa derradeira será imensa. Pode-se dizer, sem risco de spoiler, que o filme tem dois finais. Um mais “clássico” e outro mais “transgressor”. Ambos muito bem construídos. Aguardem pois.

É fácil entender a obra literária de Rubem Fonseca (1925-2020), que foi delegado de polícia e, como poucos, soube utilizar matéria-prima banhada em violência e sangue. Mas um psicanalista e professor universitário?! Onde encontrou tão fértil engenhosidade?

Garcia-Roza deve ter sido um fiel e insaciável devorador de romances policiais. Só assim podemos entender sua expertise ao engendrar a trama e os personagens banhados por essa “chuva silenciosa”. É sob água caída dos céus que se iniciará mais uma missão do delegado Espinosa e de sua ajudante, a despachada investigadora Daia (Thalita Carauta).

A dupla analisa os primeiros indícios do crime que os ocupará por dias, semanas ou meses – a morte do executivo Ricardo (Guilherme Fontes), encontrado baleado sentado ao volante de seu carro, no bairro da Urca.

A primeira suspeita dos policiais os levará até Beatriz (Cláudia Abreu), bela e bem-nascida viúva do executivo. Tudo, porém, tornar-se-á mais complicado quando outro assassinato calar, de forma brutal, uma possível testemunha. Pessoas envolvidas no caso começarão a desaparecer das vistas dos investigadores. Nessa altura, outro policial, Tomé (Pedro Nercessian), estará agregado à equipe que busca solução para o misterioso e sangrento imbroglio.

Mayana Neiva interpreta Rose, secretária do executivo morto. Otávio Muller, um corretor de seguros com tara por mulheres jovens. Bruno Gissoni é um garoto de programa, malhado e louro. Peter Brandão é Maximiliano, que apesar do nome de rei germânico, não passa de ladrão pé de chinelo, metido a esperto. Anselmo Vasconcellos interpreta o empresário Lucena, pai de Beatriz (portanto sogro do morto), que – saberemos mais tarde – está envolvido em falcatruas.

Daniel Filho, de 83 anos, usa sua imensa experiência no audiovisual (dezenas de telenovelas, séries e filmes) para construir trama de recorte clássico e muito eficiente. O filme, de sintéticos 96 minutos, conta com eletrizante sequência de ação. Maximiliano foge de Espinosa, Dara e seus investigadores por intricados e estreitos corredores (superando obstáculos e dando pulos cinematográficos) na favela onde mora. Haja fôlego.

O humor também tem sua hora e vez. A inspetora Dara é bocuda e não perde a chance de tirar sarro do delegado Espinoza, inseguro em suas conquistas amorosas. Por seu desempenho, a atriz foi premiada no Festival Brics (Brasil-Rússia-India-China-África do Sul), em Moscou 2020. O personagem de Otávio Muller, o gordo e desajeitado Aurélio, esnobado pelas mulheres, também garante boas doses de humor, potencializadas por seu talento. Mayana Neiva tem seu papel mais difícil e se sai muito bem. Kesia Estácio, atriz e cantora, aparece pouco, mas quando aparece, é para abafar.

A trama nos induz a encontrar culpados segundo os chavões do gênero. Se não é a viúva, é o pai dela, empresário corrupto. Se não é fulano, é sicrano…. Como o roteiro é realmente muito engenhoso, a surpresa se fará inevitável. E bem-vinda.

Entre as chinfras do roteiro, uma merece registro, por tratar-se de catártico “direito à piada”, comum entre integrantes da Polícia Civil contra os “irmãos mais valorizados”, a PF (Polícia Federal).

Quem quiser continuar no embalo de Martinho da Vila, poderá arriscar-se com uma comédia romântica – “Um Casal Inseparável” – escrita pela dupla George Moura e Sérgio Goldenberg e dirigida por este último. Os dois já fizeram trabalhos bem melhores na TV (“Amores Roubados”, “Onde Nascem os Fortes” e “Onde Está meu Coração”). O primeiro longa de Goldenberg (“Bendito Fruto”, 2005) também era bem mais instigante.

Há, porém, no filme, um simpático desejo de abrasileirar a comédia romântica, mesmo que personagens e situações se aproximem de batidos clichês. Na trilha sonora, além de “Disritmia”, há muito forró. Se Nathalia Dill é a típica beldade de novela, alta, magérima e loura, Marcos Veras está longe de ser um galã. Totia Meireles e Stepan Nercessian, pais casadoiros da moça, fazem de tudo para divertir o espectador. E o casal formado com a “melhor amiga compreensiva” (Ester Dias) e o “melhor amigo meio tonto” (Claudio Amado), serve de escada à busca de solução para os desentendimentos que separam a atleta e o médico dedicado e desajeitado. Em favor do filme, registre-se: é discreto e nunca apela para grosserias escatológicas.

 

O Silêncio da Chuva
Brasil, 96 minutos, 2021
Direção: Daniel Filho
Roteiro: Lusa Silvestre
Fotografia: Felipe Reinhemmer
Produção: Lereby
Coprodução: Globo Filmes
Elenco: Lázaro Ramos, Thalita Carauta, Mayana Neiva, Cláudia Abreu, Peter Brandão, Otávio Muller, Pedro Nercessian, Bruno Gissoni, Raquel Fabbri, Theresa Amayo, Késia Estácio, Guilherme Fontes, Cristina Lago e Anselmo Vasconcellos
Distribuição: Elo Company (nos cinemas)

Um Casal Inseparável
Brasil, 95 minutos, 2021
Direção: Sérgio Goldenberg
Roteiro: George Moura e Sérgio Goldenberg
Fotografia: Henrique Vale
Produção: Roberto Berliner (TVZero)
Coprodução: Globo Filmes e Telecine
Elenco: Nathalia Dill, Marcos Veras, Totia Meireles, Stepan Nercessian, Ester Dias, Claudio Amado, Danni Suzuki, Junno Andrade, Carlos Bonow e Cridemar Aquino
Distribuição: H2O Films (no Telecine Play)

 

FILMOGRAFIA
Daniel Filho (Rio de Janeiro, 30 de setembro de 1937)

. “O Silêncio da Chuva” (2021)
. “Boca de Ouro” (2020)
. “Sorria, Você Está Sendo Filmado” (2014)
. “Confissões de Adolescente, o Filme” ( 2014)
. “Chico Xavier” (2010)
. “Tempos de Paz” (2009)
. “Se Eu Fosse Você 2” (2008)
. “Primo Basílio” (2007)
. “Se Eu Fosse Você” (2006)
. “Muito Gelo e Dois Dedos d’Água” (2006)
. “A Dona da História” (2004)
. “A Partilha” (2001)
. “O Cangaceiro Trapalhão” (1983)
. “O Casal” (1975)
. “Pobre Príncipe Encantado” (1969)
. “O Impossível Acontece” (1969) – episódio “Eu, Ela e o Outro”
. “A Cama ao Alcance de Todos” (1969) – episódio “A Segunda Cama”

Sérgio Goldenberg (Rio de Janeiro, 18 de setembro de 1966)

. “Um Casal Inseparável” (2021)
. “Bendito Fruto” (2005)

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