Sérgio Rezende filma segredo de Mariana nos jardins de Inhotim

Por Maria do Rosário Caetano

O cineasta Sérgio Rezende, de 70 anos, abandonou, pelo menos temporariamente, os temas épicos ou biográficos, trocando-os pelos amores e desamores de um jovem casal.

O diretor carioca, que cinebiografou Tenório Cavalcante, Mauá, Lamarca, Antônio Conselheiro, Zuzu Angel e Tancredo Neves, resolveu fazer de seu décimo-quinto longa-metragem, “O Jardim Secreto de Mariana” – em cartaz nos cinemas – o pastoral registro de uma história de amor e maternidade.

Mariana (Andreia Horta, a elétrica “Elis”) e João (Gustavo Vaz) são um casal apaixonado, que vive em ambiente paradisíaco (locações nos jardins que circundam a galeria aberta do Instituto Inhotim, em Minas Gerais) e num bucólico sítio perfumado pelas flores.

Vale registrar que Rezende não fechou os olhos para o mundo exterior. Poderosa (e dolorosa) imagem – vagões de trem carregados de minério de ferro – se faz recorrente nas sequências urbanas do filme, registradas em Brumadinho (em cujo município visceja o museu-natureza de Bernardo Paz). Mostrar os trilhos que carregam, sem descanso, a poderosa commoditie mineral, serve para nos lembrar que nem tudo é paz no mundo de Mariana e João. Sequer a vida amorosa deles.

O eclético diretor, que realizou também filmes sobre temas momentosos – o PCC (Primeiro Comando da Capital) em “Salve Geral” e a corrupção em “Em Nome da Lei” – trocou a violência do crime organizado por tom (quase) intimista. Um só filme em sua carreira – iniciada há 40 anos com o documentário “Até a Última Gota” (sobre o comércio de sangue, 1980) – assumiu tal registro: “Quase Nada”, longa em episódios, protagonizado por pessoas comuns, imersas em dramas cotidianos.

Apaixonado por jardinagem, que pratica em seu sítio em Nova Friburgo, Sérgio Rezende dedicou longa documental ao tema (“O Cinema é meu Jardim”, 2004). Agora, quis contar uma história ficcional (e familiar) protagonizada por amantes de flores, plantas e aromas silvestres.

O casal mineiro vive em um sítio, presente do sogro de Mariana (Paulo Gorgulho derramando simpatia e sabedoria popular). Eles produzem flores e alimentos orgânicos. Natureba até mais não poder, Mariana é bióloga e tenta controlar pragas e outros males sem utilizar produtos químicos. João é economista, gosta de aplicar seu dinheiro e de manipular complexas planilhas.

O sonho de Mariana é ser mãe. Tal desejo, porém, não pode concretizar-se pois João é estéril. Buscam ajuda médica. Ela submete-se a tratamentos complicadíssimos. Mesmo assim não consegue engravidar.

O idílio começa a passar por duras provações. Não se sabe por que Mariana e João ignoram (descartam) a fertilização in vitro de doador desconhecido (já que ela parece fixada em viver o doloroso processo de gestação e parto). Ou – por que não? – em adotar um recém-nascido.

Decerto o cineasta, que roteirizou o filme com sua filha Maria Rezende, entendeu que o xiitismo natureba de Mariana a afastaria de uma inseminação artificial. Mas adotar um bebê constituíria em solução muito mais saudável. João sentiria o sabor da paternidade e Mariana seria mãe.

Só que a solução que a jovem esposa encontrará – e não revelaremos aqui para não estragar o prazer do espectador – é a mais complicada possível (não no campo biológico, mas sim no dos afetos). O paraíso vai dar lugar ao inferno conjugal. Quando o filme começa, o economista-ciclista João vai até Inhotim assistir a uma palestra da ex-mulher, com a qual rompera cinco anos antes.

Ela segue ligada à natureza e é mãe de uma menininha (de cinco anos). João quer reconquistá-la. Mariana resiste, diz que já sofreu demais, que tem medo dele, de seus rompantes descontrolados.

Durante boa parte da narrativa, que alterna o espaço bucólico de Inhotim e a vida mineral de Brumadinho (sim, aquela cidade que foi dilacerada por um dos acidentes da Vale, ex-Vale do Rio Doce) seremos apresentados a uma trama que, muitas vezes, derrapa para o folhetinesco (até para o inverossímel).

Mesmo assim, o filme se deixa ver com interesse pelo desempenho correto dos dois protagonistas, pelo reencontro com Paulo “Pantanal” Gorgulho e, principalmente, pela beleza vegetal dos jardins do Museu (de Arte Contemporânea) de Inhotim. Registre-se que Sérgio Rezende só foi autorizado a filmar no espaço externo, pois as obras plásticas exigiriam pagamento de direitos autorais a seus criadores.

Dirigido pelo ator Antônio Grassi, o “paraíso artístico-natural” de Inhotim ganha, com “O Jardim Secreto de Mariana”, um instigante cartão de visitas.

Assista ao trailer do filme aqui.

 

O Jardim Secreto de Mariana
Brasil, 79 minutos, 2021
Filmado no Instituto Inhotim, Brumadinho e Nova Friburgo
Direção: Sérgio Rezende
Produção: Arpoador, Morena e Globo Filmes
Fotografia: Felipe Reinheimer
Trilha sonora: Berna Ceppas
Elenco: Andréia Horta, Gustavo Vaz, Paulo Gergulho, Denise Weinberg, Sacha Bali e Maria Volpe. Roteiro de Sérgio Rezende e Maria Rezende
Distribuição: H2O Filmes

 

FILMOGRAFIA
Sérgio Rezende (Rio de Janeiro/RJ, 09/04/1951)

2021 – O Jardim Secreto de Mariana
2017 – O Paciente – O Caso Tancredo
2015 – Em Nome da Lei
2009 – Salve Geral
2006 – Zuzu Angel
2004 – O Cinema é meu Jardim (doc)
2003 – Onde Anda Você? (comédia)
2000 – Quase Nada
1999 – Mauá – O Imperador e o Rei
1997 – Guerra de Canudos
1994 – Lamarca
1989 – Doida Demais
1986 – O Homem da Capa Preta
1982 – O Sonho Não Acabou
1980 – Até a Última Gota (doc)

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