“Ataque dos Cães” e “Amor, Sublime Amor” conquistam Globo de Ouro em noite melancólica
“Amor, Sublime Amor”, de Steven Spielberg

Por Maria do Rosário Caetano

Sem celebridades, tapete vermelho e transmissão pela TV, a HFPA (Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood) cumpriu tabela, de forma burocrática, e anunciou os nomes dos filmes e profissionais vencedores de sua septuagésima-nona edição do Globo de Ouro. O grande vencedor foi “Ataque dos Cães”, de Jane Campion, melhor drama, melhor direção e melhor ator coadjuvante (Kodi Smit-McPhee).

Triunfou, também, o remake do musical “Amor, Sublime Amor”, realizado por Steven Spielberg, a partir do clássico sessentista de Robert Wise. Além de eleito o melhor filme na categoria comédia ou musical, o filme teve reconhecidas duas de suas atrizes, de origem latina ou afro (Rachel Zegler e Ariana DeBose). Em diálogo com a latinidade está, também, o vencedor na categoria animação, Encanto”, de Byron Howard e Jared Bush, que visita a cultura colombiana.

Para mostrar que está atenta – mesmo que tardiamente – aos novos tempos, a HFPA deu atenção a algumas minorias. O melhor ator de drama foi o astro black Will Smith (por “King Richard, Criando Campeãs”). Mas a credibilidade da instituição, que em 2023 realizará sua octogésima Noite do Globo de Ouro, está realmente arranhada. Detalhes da cobertura arrasadora da imprensa norte-americana (Los Angeles Times à frente) foram sendo revelados e correram mundo. Tudo ganhou relevo quando jornalista norueguesa demonstrou infrutíferas tentativas de filiar-se à instituição dos Correspondentes Estrangeiros. O clube, porém, permanecia impermeável. Queria usufruir, em petit comité, de seus privilégios.

O maior dos erros da instituição foi o racismo estrutural: nenhum associado negro. Para tornar tudo mais grave, um presidente da HFPA, Philip Berk – conforme registrou o jornal O Globo, em 09/01/2022 – compartilhou, por e-mail, artigo que se referia ao Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) como “movimento de ódio racista”. Foi afastado do cargo, mas o estrago estava feito. Hoje, em sua busca de redenção, a Associação (que tinha 80 integrantes) abriu-se a 21 novos associados, “sendo seis negros”.

O melhor filme em língua estrangeira, no Globo de Ouro número 79, foi o japonês “Drive my Car”, de Ryusuke Hamaguchi, disparado o franco favorito. O notável longa-metragem vem colecionando prêmios. Além de melhor roteiro em Cannes, foi eleito como o melhor filme pelas Associações de Críticos de Nova York, Los Angeles e Boston, integrou a lista dos melhores do ano da Cahiers du Cinéma, etc. Seu diretor é dono de façanha inédita (ou raramente vista): participou, entre fevereiro e junho últimos, de dois dos maiores festivais do mundo – Berlim, com “Roda do Destino”, Grande Prêmio do Júri, e de Cannes (com “Drive my Car”). Recebeu troféus nos dois eventos. Não será surpresa se ele marcar presença entre os dez finalistas ao Oscar de melhor filme (a principal categoria da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood).

O Globo de Ouro de melhor roteiro coube ao ator e diretor Kenneth Branagh, por “Belfast”, memórias de infância ambientadas na capital da Irlanda do Norte, tumultuada por guerra religiosa entre católicos e protestantes. Construído em preto-e-branco, como “Roma”, de Alfonso Cuarón, o filme deve receber algumas indicações ao Oscar (finalistas serão conhecidos no dia 8 de fevereiro).

“Licorice Pizza”, de Paul-Thomas Anderson, capa da revista Cahiers du Cinéma, e festejado no meio cinéfilo, tinha várias indicações ao Globo de Ouro. Mas passou batido.

Curioso notar a fixação do fechado clube que, até 2021, compôs o “núcleo duro” da HFPA pelo cinema musical. A instituição não dedica nenhuma atenção ao documentário, nem à direção fotografia ou montagem. Não atribui prêmios a essas três categorias. Em compensação – além de dar ao musical imenso destaque – ainda premia “melhor canção” e “melhor trilha sonora”. Decerto, muitos de seus associados são idosos e viveram o auge do gênero que produziu obras-primas como “Cantando na Chuva”. Devem estar decepcionados com o fracasso comercial de “Amor, Sublime Amor”, que é planetário. No Brasil, o filme, uma super-produção da Disney, que custou US$100 milhões, mobilizou menos de 50 mil espectadores.

 

CINEMA

“Ataque dos Cães” – melhor filme (drama), melhor direção (Jane Campion), melhor ator coadjuvante (Kodi Smit-McPhee)
“Amor, Sublime Amor”, de Steven Spielberg – melhor filme (comédia ou musical), melhor atriz de comédia ou musical (Rachel Zegler), melhor coadjuvante ídem (Ariana DeBose)
“Drive my Car”, de Ryusuke Hamaguchi (Japão) – melhor filme em língua estrangeira
“Encanto”, de Byron Howard e Jared Bush – melhor filme de animação
“King Richard: Criando Campeãs”, de Reinaldo Marcus Green – melhor ator de drama (Will Smith)
“Apresentando os Ricardos”, de Aaron Sorkin – melhor atriz em drama (Nicole Kidman)
“Tick, Tick … Boom!”, de Lin-Manuel Miranda – melhor ator de comédia ou musical (Andrew Garfield)
“Belfast”, de Kenneth Branagh – melhor roteiro
“Duna”, de Denis Villeneuve – melhor trilha sonora (Hans Zimmer)
“007 – Sem Tempo para Morrer” – melhor canção – “No Time to Die” (Billi Eilish)

TELEVISÃO

“Succession” – melhor série de drama, ator em drama (Jeremy Strong) e atriz coajuvante (Sarah Snook)
“Kacks” – melhor série de comédia ou musical, melhor atriz (Jean Smart)
“Ted Lasso” – melhor ator (comédia ou musical) – Jason Sudeikis
“Pose” – melhor atriz em série de TV (drama): MJ Rodriguez
“The Underground Railroad”: melhor minissérie ou filme para TV
“Mare of Easttown” – melhor atriz (drama) – Kate Winslet
“Dopesick” – melhor ator (minissérie ou filme para a TV) – Michael Keaton
“Round 6″ – melhor ator coadjuvante – Oh Yeong-su

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(2) Comente

  1. O presidente Philip Berk, não está errado! Este “movimento” é tão desnecessário quanto a qualquer movimento de de supremacia branca!

  2. O presidente Philip Berk, não está errado! Este “movimento” é tão desnecessário quanto a qualquer movimento de supremacia branca!

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