O paradoxo do audiovisual brasileiro: muito investimento, pouca competitividade global

Por Steve Solot

O audiovisual brasileiro vive um momento histórico. Em 2025, o setor alcançou níveis recordes de investimento, impulsionado por políticas públicas, fundos regionais e pela crescente demanda por conteúdo nacional por parte das plataformas de streaming. O país consolidou-se como um dos principais polos criativos da América Latina, com talento reconhecido e capacidade técnica cada vez mais sofisticada.

Mas há um problema — e ele é estrutural.

Apesar desse avanço interno, o Brasil continua técnicamente fora do radar das grandes produções internacionais. E isso revela um paradoxo incômodo: investimos mais do que nunca, mas o país segue pouco competitivo no cenário global.

O ponto cego da política audiovisual

A raiz do problema é conhecida no setor: a ausência de um mecanismo federal robusto de incentivo à atração de projetos audiovisuais.

Enquanto diversas nações disputam agressivamente projetos internacionais com incentivos claros, previsíveis e de fácil execução, o Brasil ainda opera sem esse instrumento essencial. O resultado é previsível: grandes produções simplesmente escolhem outros destinos.

E não é por falta de atributos. O Brasil oferece locações únicas, diversidade cultural incomparável e mão de obra qualificada. O que falta não é capacidade — é competitividade regulatória e financeira.

México: um passo à frente ou na direção errada?

Recentemente, o México anunciou um novo incentivo audiovisual de até 30%, estruturado como crédito fiscal transferível — o EFICA (Estímulo Fiscal à Produção Cinematográfica e Audiovisual). À primeira vista, trata-se de um avanço. Mas, na prática, o modelo levanta dúvidas relevantes.

Ao contrário do cash rebate (reembolso), o EFICA não oferece retorno direto. Ele depende da participação de contribuintes federais para sua monetização, o que introduz camadas adicionais de complexidade, intermediação e incerteza. Para produtores internacionais, isso significa mais risco, mais tempo e menos previsibilidade. Em um mercado altamente competitivo, esses fatores fazem diferença — e muita.

A lição da Colômbia

Se há um exemplo claro na América Latina, ele vem da Colômbia.

O país adotou inicialmente um sistema sólido de cash rebate, que rapidamente atraiu produções internacionais e posicionou a Colômbia no mapa global do audiovisual. Só depois de consolidar essa base é que introduziu, em 2020, um incentivo complementar via crédito fiscal, com um recorde de COP 350 bilhões (aprox. USD 90 milhões) alocados para o CINA (Certificado de Inversão Audiovisual) em 2026, oferecendo 35% de desconto fiscal para produções estrangeiras,

O resultado? Em 2025, todo o orçamento anual do programa foi alocado, com bilhões em investimentos e dezenas de milhares de empregos gerados. A mensagem é clara: o crédito fiscal pode funcionar — mas como complemento mais sofisticado, não como substituto.

E o Brasil?

Ao observar essas experiências, o Brasil parece hesitar exatamente onde deveria avançar. O país continua sem um mecanismo nacional de cash rebate, enquanto outras jurisdições — mesmo na região — evoluem suas estratégias.

As consequências já são visíveis:

  • Produções internacionais seguem indo para outros países;
  • O potencial de geração de divisas externas permanece subexplorado;
  • Infraestrutura e profissionais operam abaixo da capacidade;
  • O país perde oportunidades de integração com cadeias globais.

Isso tudo acontece em um momento em que o audiovisual brasileiro conquista reconhecimento internacional, com obras como “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto” ganhando visibilidade global. Ou seja: o país tem produto, talento e narrativa — mas não tem o ambiente competitivo necessário.

Um caminho possível — e urgente

Não se trata de reinventar a roda. O caminho já foi testado e validado internacionalmente:

  • Implementar um cash rebate federal, com regras claras e orçamento previsível;
  • Integrar esforços entre União, estados e municípios;
  • Evoluir para o uso de créditos fiscais como instrumento complementar;
  • Fortalecer as film commissions e simplificar processos operacionais;
  • Promover o Brasil de forma estratégica no mercado internacional.

Conclusão

O Brasil tem tudo para ser um protagonista global no audiovisual — exceto uma política alinhada com as regras do jogo internacional. O paradoxo de 2025 deixa isso evidente: investir mais não basta. É preciso investir melhor. Sem um cash rebate eficaz, o país continuará sendo um grande mercado doméstico — mas um destino secundário para produções globais. A escolha, neste momento, é estratégica. E o tempo, como sempre no audiovisual, é decisivo.

 

Steve Solot é Presidente do Latin American Training Center (LATC), Senior Advisor da Albright Stonebridge Group – ASG/DGA, membro do Conselho Empresarial de Assuntos Culturais da ACRJ, e Co-Líder do Comite de Entretenimento e Turismo da Câmara de Comércio Americana do Rio de Janeiro

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