Gramado mostra “Pele de Rinoceronte”, homenageia Caruso e consagra “Grão” na festa do Curta Gaúcho

Foto: Marcos Caruso, ator homenageado com Troféu Cidade de Gramado © Cleiton Thiele/Ag.Pressphoto

Por Maria do Rosário Caetano, de Gramado (RS)

O Festival de Cinema de Gramado iniciou sua terceira noite com a entrega do Prêmio Cidade Gramado ao ator e dramaturgo Marcos Caruso. Em seguida, o público assistiu à exibição do segundo concorrente ao Troféu Kikito de melhor longa ficcional, o carioca “Pele de Rinoceronte”, de Marcello Ludwig Maia.

A maratona encerrou-se com a Festa do Curta Gauchão. Ou seja, com a entrega do Prêmio Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, criado há mais de três décadas para laurear equipes artísticas e técnicas dos melhores curtas-metragens realizados no estado. Com o Palácio dos Festivais lotado e transmissão ao vivo pela TV Educativa.

O grande vencedor do Gauchão foi o ousado e atmosférico “Grão”, de Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa, dupla formada pelo curso de Cinema da Universidade Federal de Pelotas, que vem causando sensação nos mais diversos festivais e se fazendo reconhecer como força renovadora do “CineTchê” sulista.

Além de ser premiado como melhor filme (pelo júri oficial e pela Crítica), “Grão” somou troféus de melhor ator, para Leandro Gomes, e trilha sonora, para Otávio Vassão. Uma trilha de arrepiar os cabelos, pois construída com sonoridades provocadoras e palavras de baixo calão. Alta voltagem erótico-pornográfica.

Os funks que povoam o mundo do protagonista de “Grão”, um catador de sobras da soja, são de arrepiar os cabelos. Já tornou-se notório o gestual (e o consequente constrangimento) de intérpretes de Libras incumbidos de “traduzi-los” para PCDs (pessoas com deficiência).

Vencedores do Prêmio Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul © Edison Vara/Ag.Pressphoto

A trama do filme de Gianluca e Leonardo é, à primeira vista, singela: um rapaz, no vigor de sua força laboral e sexual, vive dos restos da commodity do agronegócio. Cata grãos extraviados em seu percurso até o complexo portuário. Como o país está imerso em crise, ele vê sua fonte de sustento tornar-se cada vez mais rarefeita. Mesmo assim ele insiste. E segue em suas andanças, ao volante de um carro modelo 2008, incrementado com potentes equipamentos sonoros.

Leandro (o ator Leandro Gomes) consegue, a muito custo, encontrar os derradeiros grãos, que ensacados, ajudarão sua precária sobrevivência.

No carango, em altíssimo volume, ele ouve “versos” que fazem do verbo “foder” a sua força geradora. Palavras e mais palavras se somarão para descrever, de forma crua, o que Leandro e sua libido desejam praticar com uma garota, cuja sedução se esboça pelo telefone celular.

Filhos do cinema social de Ken Loach, já que não tiram os olhos do proletariado precarizado, Gianluca e Leonardo fecham com este filme trilogia iniciada com “Madrugada” (2022), também protagonizado por um catador de grãos (no sistema ferroviário) e sequenciado com “Cassino” (2024). E agora arrematada com “Grão”.

A Crítica, representada pela ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul), justificou, pela voz de Carol Zatt, sua escolha: “Por tratar da masculinidade sob ótica crítica, com humor e densidade; por tornar território em crise um personagem central do filme; por deixar transbordar solidão, melancolia e desejo com domínio de recursos visuais e sonoros; nossa Associação reconhece mais um passo na trajetória investigativa do grupo de realizadores neste universo e premia o curta-metragem ‘Grão’”.

Não há final feliz nos filmes de Gianluca e Leonardo. Seus curtas-metragens abordam temas candentes (em especial, o mundo do trabalho aviltado) com tratamento sonoro e visual atrevido e inventivo. Como bem observaram os críticos da ACCIRS, o ambiente (o complexo portuário de Rio Grande) é também um personagem do filme. Com seus guindastes, contêineres, navios, águas e areias. Por esse território, Leandro perambulará. E venderá um saco de soja catada grão a grão a um curioso comprador, interpretado pelo cineasta, pesquisador e professor da UFCE (Federal do Ceará), Marcelo Ikeda.

O comprador oferecerá 60 reais pela saca de soja. Leandro dirá que o custo subiu para 80. Acabarão fechando o negócio. Aguardemos, pois, a estreia de Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa no longa-metragem. Que venha logo.

PELE DE RINOCERONTE — O segundo longa-metragem da competição de obras ficcionais do Festival de Gramado traz a assinatura de um diretor tardio, já com alguns cabelos grisalhos. Antes de dirigir “Pele de Rinoceronte”, Marcello Ludwig Maia, de 58 anos, foi crítico de cinema e produtor de 34 filmes.

Em 1995, ele fundou a República Pureza responsável pela produção, nas últimas três décadas, de longas de Cláudio Assis (“Amarelo Manga”, “Febre do Rato”, “Big Jato” e “Piedade”), Sandra Kogut (“Um Passaporte Húngaro” e “Três Verões”), Camilo Cavalcante (“A História da Eternidade”), Walter Carvalho (“Um Filme de Cinema”), René Sampaio (“Faroeste Caboclo”), Neville D’Almeida (“A Frente Fria que a Chuva Traz”), Murilo Benício (“O Beijo no Asfalto” e “Pérola”), Fellipe Gamarano Barbosa e Clara Linhart (“Domingo”), Flávia Castro (“As Vitrines”), Karen Suzane (“Quatro Meninas”), além de duas incursões pelo universo de Clarice Lispector (“A Paixão Segundo G.H.”, de Luiz Fernando Carvalho, e “O Livro dos Prazeres”, de Marcela Lordy).

Outro cineasta produzido por Ludwig Maia ganha, aqui, destaque especial, pois tem a ver com a fonte geradora do título “Pele de Rinoceronte” — o carioca Julio Bressane.

O inquieto diretor de 50 filmes, entre eles, o belíssimo “Filme de Amor”, teve Marcello Ludwig Maia como produtor dos recentes “A Erva do Rato” e “Educação Sentimental”.

Durante o debate de seu drama criminal (de matiz feminista e estranho nome), Ludwig Maia contou que caminhava pelo Recife com o diretor de “A Erva do Rato”, então em fase de lançamento no Nordeste. Quando cruzaram a Ponte Buarque de Macedo, Bressane escandiu versos de “As Cismas dos Destinos”, de Augusto dos Anjos:

“Lembro-me bem. A ponte era comprida,/ E a minha sombra enorme enchia a ponte,/ Como uma pele de rinoceronte/ Estendida por toda a minha vida!”.

Ludwig Maia, como o diretor de “O Anjo Nasceu”, é grande admirador do melancólico e soturno poeta paraibano (1884-1914). Por isso, usou dele — além do título — frase matadora, transformada em epígrafe de “Pele de Rinoceronte”:

“Se um dia o amor vier me procurar diga a esse monstro que eu fugi de casa”.

Equipe de “Pele de Rinoceronte”, de Marcello Ludwig Maia © Cleiton Thiele/Ag.Pressphoto

A trama do filme evoca a história do assassinato da “pantera” Angela Diniz pelo “playboy” Doca Street, ocorrida em 1976. Mas sob ângulo que nada tem a ver com o filme de Jece Valadão (“Os Amores da Pantera”), nem com o de Hugo Prata (“Angela”), nem com a série de Andrucha Waddington (“Angela Diniz: Assassinada e Condenada”).

Ludwig Maia, autor do argumento do longa selecionado pelo Festival de Gramado, contou que “cresceu em casa povoada por muitas mulheres, das quais duas eram advogadas e conheciam infinitos os meandros de crimes ocorridos no país, especialmente no estado do Rio de Janeiro”. A tragédia de Angela Diniz foi o mais referenciado, pois uma de suas tias era casada com jurista renomado e ligado ao julgamento de Doca Street.

Dois personagens se destacam na narrativa de “Pele de Rinoceronte” (roteiro de Josefina Trotta): a jornalista policial Helena (Débora Falabella) e a advogada Maria Thereza, interpretada por Naruna Costa. A primeira vive relacionamento tóxico com o editor do jornal onde trabalha (Augusto Madeira) e está insatisfeita com os rumos de sua carreira. Quer dedicar-se à cobertura in loco (no balneário das Pedras), onde uma mulher foi vítima de feminicídio. Por iniciativa pessoal e às próprias custas, ela irá para o local do crime.

Num plano imaginário, o filme mostra o embate entre uma bela mulher e seu companheiro ciumento e possessivo (os atores Camila Lucciola e Alex Nader). E o femicídio se materializa, transformando-se em fonte de perturbação do imaginário da repórter e da advogada.

Maria Thereza é casada com outro renomado criminalista (Irandhir Santos). Juntos, eles, que são pais de duas crianças pequenas, preparam (ensaiam) a sustentação oral que Maria Thereza fará no tribunal.

Surge, então, a sequência mais longa do filme. Aquela em que Maria Thereza desmonta, didaticamente, as (falsas) bases da “legítima defesa da honra”, argumento que serviu de álibi para o primeiro julgamento de Doca Street. O “playboy” assassino foi “inocentado, pois “matara por amor”. O filme mostrará que quem ama não mata. O ato extremo é cometido, isto sim, por quem odeia. Naruma foi aplaudida em projeção aberta quando escandiu sua demorada sustentação oral.

A intérprete de Maria Thereza torna-se forte candidata ao prêmio de melhor atriz (possivelmente dividido com Teca Pereira, a Vovó Dilma de “Feito Pipa”). Seu desempenho causou sensação (apesar do didatismo que embasa seu longo discurso). Todo mundo sabe, hoje cada vez mais, que tribunais são grandes teatros, nos quais promotores e advogados interpretam papéis muito estudados, além de ardilosos.

O debate de “Pele de Rinoceronte” contou com a participação, além de seu argumentista-diretor-produtor, de suas principais atrizes (Débora Falabella, Naruna Costa, Elli Ferreira, Dharma Lopes e Camila Lucciola), atores (Augusto Madeira, Daniel Rangel e Alex Nader), diretora de fotografia (Helô Passos) e montadora (Marília Moraes). A discussão foi serena. Diretor e equipe desdobraram-se em simpatia e foram objetivos em suas respostas. A polêmica ainda não deu as caras nos debates gramadenses.

“Pele de Rinoceronte”, aliás, não é um filme talhado para provocar grandes controvérsias. Afinal, constrói-se como narrativa avessa à violência gráfica.

“Nossa intenção” — assegurou o diretor, respaldado por atrizes e atores — “foi buscar a sutileza”. Que, registre-se, acaba resultando excessiva e tirando a força do longa-metragem.

A jornalista policial interpretada por Débora Falabella (que já mobilizou 150 mil espectadores com a peça “Prima Facie”, de temática semelhante ao longa que protagoniza) aproxima-se mais de uma delicada cronista policial, que de uma repórter de jornais sensacionalistas, daqueles que espirram sangue. Na esteira de repórteres paradigmáticos como o fictício Amado Ribeiro, de Nelson Rodrigues, e os reais (e famosos) Pena Branca, Luarlindo Ernesto e Percival de Souza.

Ludwig Maia contou que sua repórter Helena teve como modelo a jornalista Albeniza Garcia (1929-2014), com quem ele trabalhou no jornal O Dia (ela, na cobertura policial, ele, em temas culturais).

“Albeniza era pequenininha, de voz suave, muito impressionante e respeitadíssima. Qualquer delegado parava o que estivesse fazendo para atendê-la. Ela era muitíssimo bem informada, uma grande repórter investigativa”, argumentou.

Marcello Ludwig Maia confessou, no debate de “Pele de Rinoceronte”, que foi fisgado pelo prazer de dirigir longas-metragens. Ao longo de sua carreira, ele havia dirigido curtas e séries de TV. Mas só agora, quase sexagenário, realizou seu primeiro longa. Gostou tanto que já esboçou (em conversas com os filhos) o obituário que pretende ver publicado na imprensa, quando chegar sua hora derradeira: “Morreu o produtor e CINEASTA BISSEXTO Marcello Ludwig Maia…” (Risos).

O qualificativo “bissexto” serve como tranquilizante aos que pretendem tê-lo como produtor: “Nunca passou pela minha cabeça abandonar a produção. Em novembro estarei produzindo novo longa-metragem e tenho seis novos projetos encaminhados”.

Igualmente movimentados seguem os destinos artísticos de Naruna Costa, 43 anos, paulista do Taboão da Serra. Ela seguira trilhando seus três caminhos preferidos: o teatral (integra o Coletivo Clariô, baseado em Taboão), o musical (“sou compositora e cantora no Clarianas, coletivo de mulheres) e no audiovisual. Ela, que dirige videoclipes para Emicida, prepara documentário sobre o poeta e ativista Sérgio Vaz e atuará em três séries — “Instinto”, “Habbeas Corpus” e “Colônia”.

Abaixo, segue a lista completa dos vencedores do Curta Gauchão:

. “Grão”, de Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa – melhor filme, ator (Leandro Gomes), trilha sonora (Otávio Vassão), Prêmio da Crítica
. “O Véu”, de Gabriel Motta – melhor direção
. “Elisete Tem que Casar!”, de Gaby Buffon – melhor atriz (Gaby Buffon)
. “Estátuas Também Morrem?”, de Thaís Fernandes – melhor roteiro
. “Drunken Car”, de Brunella Martina – melhor fotografia (Lívia Pasquale), melhor figurino (Beatriz Pieratti)
. “Claudete”, de Gabriela Kopp — melhor montagem (Gabriela Kopp)
. “Raidinalha”, de Marco Arruda – melhor direção de arte (Marco Arruda), melhor edição-desenho de som (Fernando Efron)
. “Terra Bruta”, de Guilherme Suman – melhor produção executiva (Allan Riggs e Guilherme Suman)
. “O Acumulador de Memórias”, de Camísia – menção honrosa
. Prêmio Sirmar Antunes para o diretor de fotografia Jorge Henrique Boca

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