“Antártida”, superprodução dos Estúdios Globo, teve recepção glacial em Gramado, apesar do elenco estelar e show tecnológico

Foto: Equipe de “Antártida” © Edison Vara/Ag.Pressphoto

Por Maria do Rosário Caetano, de Gramado (RS)

“Antártida”, o filme inaugural da quinquagésima-quarta edição do Festival de Cinema de Gramado, se passa na Estação Brasileira de Comandante Ferraz, no continente gelado, mas foi integralmente filmado num estúdio da cidade do Rio de Janeiro.

No palco, acompanhado de 18 integrantes de sua equipe — atores como Leandra Leal, Marina Ruy Barbosa, Lázaro Ramos e Adélio Lima, a roteirista Claudia Jouvin, a produtora Isabela Bellenzani e o fotógrafo Mauro Pinheiro Jr. —, o diretor Bruno Safadi, de 46 anos, relembrou que sua Antártida, com suas muitas camadas de gelo, foi materializada num Rio de Janeiro com temperatura tropical (30 graus acima de zero).

Por vídeo, a atriz Andrea Beltrão, que interpreta a Subcomandante Elizabeth, protagonista desse suspense psicológico em campo nevado, destacou seu prazer em atuar numa superprodução fruto de experimento tecnológico bancado pelos Estúdios Globo. Ela, afinal, pôde atuar em sua cidade natal, o Rio de Janeiro, em cenário impregnado pelo frio de “30 graus abaixo de zero, com sensação térmica de 50 graus (negativos)”.

A atriz de 62 anos, que receberá o Troféu Oscarito por sua trajetória no cinema, no teatro e na TV, não estará presencialmente na Serra Gaúcha, pois foi submetida a uma cirurgia no pé. Ela, com seu humor característico, fez questão de mostrar ao público, a perna imobilizada e enfaixada.

Os aplausos à equipe de “Antártida” foram calorosos. Mas, ao final dos 94 minutos de projeção, palmas gélidas, como a paisagem que ambienta o filme, se fizeram notar.

O público que lotou o Palácio dos Festivais, de quase mil lugares, não se entusiasmou com a história da jovem cientista Inês (Marina Ruy Barbosa), que chega à estação brasileira, na Antártida, para atuar junto a outros cientistas e aos oficiais da Marinha que a comandam.

O chefe da Base brasileira é o Comandante Barros (Antônio Calloni). Depois de uma festa, a jovem Inês será vítima de estupro. Caberá à Subcomandante Elizabeth (Andréa Beltrão, com a dedicação e competência costumeiras) descobrir quem cometeu a gravíssima transgressão. Até porque a jovem Inês estava embriagada e desacordada.

Tramas paralelas acontecerão ao longo da narração. O Capitão Vicente (Lázaro Ramos) chegará à Estação para resolver pendências amorosas com a mulher, a médica Marina (Leandra Leal). O Comandante Barros enfrentará graves problemas de saúde. O Tentente Viriato (Adélio Lima), machão como ele só, não vê com bons olhos a presença de mulheres posicionadas, hierarquicamente, acima dele. Os homens são todos tóxicos, mandões, terríveis. Com uma única e discreta exceção, Gaspar (Renan Monteiro), personagem secundário.

É nesse ninho de víboras que a Subcomandante Elizabeth (de metralhadora não mão, quando preciso) preserva, em suas memórias maternais, grande dor. Ela terá, por dever profissional, que descobrir quem, entre seus comandados, estuprou a jovem cientista. Um incêndio complicará a vida dos militares e dos pesquisadores, que ali vivem e trabalham. Todos eles são suspeitos de serem os autores da agressão sexual (câmara de vigilância mostrará que os culpados agiram em dupla).

Andréa Beltrão, em cena de “Antártida” © Fabio Rocha

Claudia Jouvin, diretora de dois longas-metragens (“Um Homem Só”, de 2016, e “L.O.C.A.”, 2023), dedicou seis anos de sua vida ao roteiro de “Antártida”. No palco do Palácio dos Festivais, ela contou que transformar seu roteiro em filme era um imenso desafio. Afinal, filmar um longa de ficção no continente gelado constituiria operação de altíssimos custos e imensos riscos. Algo quase impossível. A solução chegou quando Amaury Soares, alto executivo da Globo, de posse de tecnologia Unreal, cacifou o projeto.

“Antártida” saiu do papel e tornou-se o convidado da noite inaugural de Gramado 2026. O nome “Unreal” batiza tecnologia tornada possível, num mundo dominado pelos imensos recursos da Inteligência Artificial, para novas aventuras cinematográficas e televisivas. Afinal, ela torna realizável (em imenso estúdio equipado com tela de grandes dimensões), o que parece um verdadeiro milagre — convencer o espectador de que a história a que está assistindo se desenvolve em cenário real. Ou seja, numa base gelada na Antártida. Quando na verdade, as equipes artística e técnica interagem sob o domínio de background de altíssima tecnologia, garantido por câmeras autotracking de alta precisão. Ilusão que cria uma “verdade” virtual.

Claudia Jouvin, idealizadora e roteirista do filme, contou com a colaboração do cineasta Dennisson Ramalho (“Morto Não Fala”) e usou, como ponto de partida, incêndio real, ocorrido na Estação Comandante Ferraz, em 2012. Deste trágico incidente resultaram duas mortes.

O debate do filme com a imprensa (e presença de enorme público) foi dos mais concorridos. Havia centenas de pessoas no auditório do tradicional Hotel Serra Azul. No palco, sentaram-se dez integrantes da equipe, liderados por Bruno Sáfadi e Cláudia Jouvin. O clima do encontro transcorreu sereno e informativo.

Em gritante contraste com o que se viu nas rodas de jornalistas e cinéfilos espalhados por bares e restaurantes, depois da exibição noturna de “Antártida” no Palácio dos Festivais. Nesses ambientes, correu adjetivação pesada para definir o novo trabalhado de Bruno Safadi: “show de técnica e roteiro frágil”, “superprodução doutrinária”, “filme de tese”, “narrativa superficial e personagens inconsistentes”, “pirotecnia com causa”.

A Revista de CINEMA dirigiu três perguntas aos integrantes da equipe de “Antártida”. A primeira solicitou à produtora Isabela Bellenzani que fornecesse o custo do filme e falasse da montagem de sua complexa engenharia financeira.

Bellenzani, com um largo sorriso no rosto e muita simpatia, saiu pela tangente. Disse que o tempo era curto e que o ideal seria dar prioridade a outras questões. Não citou nenhum número. Mas, durante todo o debate (ou coletiva de imprensa) “Antártica” foi definido como “uma superprodução dos Estúdios Globo”.

Para a roteirista Claudia Jouvin, perguntamos: você se inspirou em fato real — um incêndio ocorrido em 2012 na Estação Comandante Ferraz, mantida pela Marinha brasileira. Houve caso de estupro na base militar, ou você inventou tudo que está na sua trama?

Claudia: “Eu desconhecia a Estação do Brasil na Antártida até 2012. Ao me inteirar do incidente, o incêndio, passei a pesquisar, com imenso interesse, o assunto. Primeiro quero deixar claro que lá, na Base, são desenvolvidos projetos fantásticos de pesquisa, principalmente no campo das mudanças climáticas. Vinte e quatro países, um deles o Brasil, atuam na região gelada. Pelo que sabemos, o incêndio começou quando os militares e pesquisadores que lá atuavam, 14 anos atrás, participavam de um pagode e bebiam cerveja. Durante a festa, um gerador que já vinha apresentando problemas, provocou o incidente. Aí me veio à mente a seguinte questão: como os brasileiros agem em lugar inóspito, dominado pela neve e temperaturas baixíssimas? Deixo claro que amo o Brasil, não queria ter nascido em nenhum outro país. Mas nossas especificidades me estimularam a escrever esse roteiro. A partir da festa, do problema do gerador e do incêndio, eu comecei a criar as histórias que narramos no filme, a mostrar os conflitos hierárquicos e emocionais, os grandes e os pequenos. Enfim, a fazer da Base Militar Antártida um microcosmo do Brasil. Vi aquele espaço como uma arena, uma panela de pressão perfeita, para que mostrássemos como os brasileiros lidam com situações difíceis em lugares hostis.

Para o diretor Bruno Safadi, que aos 46 anos foi escolhido para comandar uma superprodução dos Estúdios Globo, perguntamos:

Você começou com curtas (“Uma Estrela para Ioiô) e longas (“Meu Nome é Dindi”) de baixíssimo orçamento, com evidentes e seminais ligações com o Cinema Marginal, dirigiu documentário sobre a Belair de Bressane e Sganzerla, produziu longas do diretor de “Filme de Amor”. Como se sente dirigindo uma superprodução dos Estúdios Globo? Esse é seu novo caminho?

Safadi: “Trabalho há dez anos na Globo. Dirigi cinco séries e a mais recente, ‘Jogada de Risco’, vem fazendo imenso sucesso na Globoplay. Realizei, com Leandra Leal, minha parceira em tantos projetos (e nesse ‘Antártida’), uma série da qual gostamos muito — ‘A Vida pela Frente’. Fiz três telenovelas, experiência muito enriquecedora. E dirigi dois longas-metragens: além de ‘Antártida’, que assistimos ontem, o telefilme ‘Vítimas de um Dia’, que será exibido nessa segunda-feira (17 de agosto) na Tela Quente e irá direto para o streaming. As pessoas agora me dizem: mas você fazia filmes autorais, pequenos. Por que mudou? Não mudei, continuo fazendo diversos tipos de filmes. Daqui a duas semanas filmarei ‘Uma Tarde na Serra do Cipó’, em 16 milímetros, quase sem orçamento e em parceria com Canal Brasil. Considero os dez longas-metragens que dirigi autorais. Fiz meu primeiro curta aos 19 anos e nunca parei. Trabalhei com Bressane, Sganzerla, Nelson Pereira dos Santos… Continuo produzindo os filmes do Bressane. Acabamos de mostrar, no Festival de Munique, na Alemanha, o novo longa dele, ‘Pitico’ (com Paulo Betti). Nesse segundo semestre, este filme estará em festivais brasileiros. Para mim, ‘Antártida’ é um filme experimental, pois testamos tecnologia nova, que desconhecíamos. Não vejo contradição entre meus filmes mais autorais e ‘Antártida’. Quando fui trabalhar nos Estúdios Globo, Bressane me deu pleno apoio. Ele me disse: ‘vá, lá está o projeto de cinema industrial brasileiro, você vai se exercitar, vai se desenvolver, vai experimentar, vai filmar com frequência’. É o que estou fazendo.

FLASHES GRAMADIANOS

ADÉLIO LIMA E O MACHÃO TÓXICO I — O ator pernambucano Adélio Lima, nascido em Caruaru há 54 anos, emocionou o público presente na conferência de imprensa de “Antártida”. Conhecido desde que interpretou o velho Luiz Gonzaga na cinebiografia dirigida por Breno Silveira (“Gonzagão, de Pai pra Filho”), ele atuou em “Carro-Rei” (Renata Pinheiro) e novelas da Globo. Acabou percebido como a voz nordestina da equipe de Safadi, já que Gero Camilo (cearense, melhor ator em Gramado 2025, com “Papagaios”) teve presença discreta no encontro. Até porque não podia dar spoiler, ou seja, revelar o segredo de seu personagem, o militar Dimas. Mas Adelio, sim, podia falar o que quisesse. E ele falou. Seu personagem, o Tenente Viriato, é um machão tóxico, representante de (alguns) nordestinos que acham que homem não chora e que mulher deve ficar no seu lugar. Militar, ele segue a disciplina castrense, lamenta a ascensão feminina nas Forças Armadas e participa do pacto da masculinidade. Mas, anunciou ele…

ADÉLIO LIMA E O MACHÃO TÓXICO II – “Eu sou o macho mais fêmea que existe em Caruaru”. Fez essa confissão com os olhos marejados. E explicou por quê: “Meu pai, macho alfa, abandonou minha mãe e os filhos. Fui criado por avó, mãe e tias. Me casei com uma mulher maravilhosa que me deu três filhas. Então, meu universo é feminino. E sou muito sensível por dentro. Então, não foi fácil interpretar o Viriato. Fiquei hospedado num flat na Barra da Tijuca com minha mulher e filha caçula. Contava para elas o que estava interpretando no filme – um macho tóxico. Tenho pressão alta. E não é que inventei de adoecer?! E justo num momento que tínhamos cenas muito importantes para gravar. Creio que o gatilho do mal que me acometeu foram as emoções que tive que buscar para interpretar esse personagem”. O ator foi aplaudido com o vigor que não foi foi ouvido no Palácio dos Festivais, após o fecho da sessão de “Antártida”.

ANDREA BELTRÃO, AUSENTE-PRESENTE — Na conferência de imprensa de “Antártida”, Bruno Safadi teceu tributo à sua (ausente) protagonista, a atriz Andrea Beltrão. Externou seu prazer em dirigi-la. “Quem não quer trabalhar com Andrea Beltrão? Eu queria e tive esse prazer. Ela é maravilhosa”. E contou: “Quando ela soube que estava sendo convidada para um filme de ação e que uma de nossas inspirações era o filme ‘Alien, o Oitavo Passageiro’ (1979), ela me disse que aceitava, pois sempre sonhara interpretar uma mulher de ação como a Sigourney Weaver. Me avisou que ia usar a calcinha da Sigourney (risos). Ilustrou a capa do roteiro dela com a imagem da atriz norte-americana, usou uma camiseta do Nirvana”. Por causa do pé avariado e devidamente enfaixado, Andrea não pôde apresentar, com sua amiga, comadre e sócia (no Teatro Poeira-Poeirinha) o Prêmio Grande Otelo da Academia Brasileira de Cinema, nem pôde prestigiar a sessão de “Antártida”. Nem poderá, pessoalmente, receber o Troféu Oscarito, esculpido com a imagem de um dos maiores cômicos da história do cinema, o parceiro de Grande Otelo em antológicas chanchadas da Atlântida. O troféu será levado para ela, que fez por merecê-lo graças à sua brilhante carreira que já passa de quatro décadas.

SILVIO GUINDANE, NOVA FUNÇÃO – O ator e cineasta Silvio Guindane, de 42 anos, volta a Gramado depois de somar Kikitos com seu longa-metragem “Mussum, o Filmis” (2023), protagonizado por Ailton Graça. Ator revelado por Murilo Salles, 30 anos atrás, como o pré-adolescente Japa, de “Como Nascem os Anjos”, ele foi e segue sendo intérprete de múltiplos personagens em filmes, séries e telenovelas. Agora, está enfronhado na direção. Fez outros filmes depois de “Mussum” e, nesse exato momento, finaliza a cinebiografia de Zeca Pagodinho (“Deixa a Vida me Levar”). O longa-metragem, produzido por Marcos Altberg, é protagonizado pelo sambista Mosquito e constitui-se como promessa de grande bilheteria. Afinal o carioquíssimo e suburbano cantor-compositor é um ícone do jeito brasileiro que se deixa levar a vida com muita descontração, cerveja e bom-humor. Na noite inaugural do Festival de Gramado, Guindane subiu ao palco para exercer novo ofício: o de mestre de cerimônia das nove noites cinematográficas ambientadas no Palácio dos Festivais. Foi recebido com carinho por seus parceiros, os gaúchos Marla Martins e Roger Lerina.

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