Pesquisa revela desafio para levar público de volta ao cinema brasileiro
A divulgação dos filmes brasileiros nem sempre chega ao público a tempo de fazer parte dos planos para uma ida ao cinema. Segundo a pesquisa inédita “Cinema brasileiro: o caminho de volta às salas”, da Casa Mundo Latam, consultoria latino-americana especializada em inteligência de mercado, comportamento e tendências de consumo, em parceria com o RioMarket, área de mercado e negócios do Festival do Rio, 36% dos entrevistados só ficam sabendo dos lançamentos nacionais quando já estão em cartaz, perto de sair das salas ou apenas no streaming. Os resultados foram apresentados no dia 5 de outubro, no Armazém da Utopia, no Rio de Janeiro. A pesquisa está disponível em: https://casamundolatam.com/estudo_cinema_nacional.
Realizado em setembro de 2026, o estudo combina 18 entrevistas em profundidade e 240 entrevistas online, com participantes de todas as regiões do Brasil. A etapa quantitativa possui amostra sem ponderação e investiga hábitos, motivações e percepções sobre a experiência nas salas e o cinema nacional.
Os resultados revelam um cenário de reconhecimento que ainda encontra dificuldades para se traduzir em presença nas escolhas do público. Embora 77% dos entrevistados identifiquem uma fase especialmente positiva do cinema brasileiro, apenas 26% citam ao menos uma produção nacional entre os últimos filmes vistos em uma sala de cinema. “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto” aparecem como os principais títulos associados à percepção favorável sobre o momento atual.
Na memória recente das salas, as produções internacionais ocupam a maior parte do repertório dos entrevistados. Quando a pergunta se volta exclusivamente aos filmes brasileiros assistidos em qualquer plataforma, incluindo cinema, streaming e televisão, as lembranças também se concentram em alguns títulos.
“Ainda Estou Aqui” aparece com 12,5% das citações, seguido por “O Auto da Compadecida 2” e “O Agente Secreto”, ambos com 12,1%. Outros filmes lembrados são “Homem com H”, com 9,2%, e “Minha Melhor Amiga”, com 8,8%. Nessa pergunta, 25% da amostra não se recorda de um filme nacional que tenha assistido.
O cenário sugere que o destaque conquistado por algumas produções ainda precisa se desdobrar em um contato mais amplo com a diversidade do cinema brasileiro. Conhecer e reconhecer grandes títulos é parte desse caminho, mas ampliar o repertório envolve fazer outras histórias chegarem ao público e despertarem interesse.
A antecedência da comunicação é um dos pontos de atenção do levantamento. Entre os entrevistados, 31% ficam sabendo dos filmes brasileiros algumas semanas ou poucos dias antes da estreia, enquanto 23% conhecem os lançamentos com vários meses de antecedência.
A análise proposta pelo estudo considera que a comunicação participa da construção do interesse. Apresentar uma história, aproximar o público de seus personagens e criar expectativa são oportunidades para que o filme seja lembrado quando o espectador decide o que fazer em seu tempo livre.
Os formatos que mais chamam a atenção na divulgação de grandes lançamentos ajudam a compreender como essa aproximação pode acontecer. Trailers e cenas dos filmes lideram, mencionados por 54,2% dos entrevistados, seguidos pela propaganda na televisão, com 43,8%. Entrevistas e participações do elenco em programas, podcasts e outros espaços aparecem com 27,9%.
Esses resultados apontam possibilidades de comunicação que combinam o contato com a narrativa e a presença de quem participa da produção. A divulgação pode ajudar o espectador a conhecer a proposta do filme e entender o que desperta seu interesse naquela história.
A relação com as salas também passa pela vontade de sair da rotina. Entre os motivos para assistir a um filme no cinema, em vez de em casa, “sair de casa ou fazer um programa” é o mais citado, com 42,1%. A maior imersão proporcionada pela tela e pelo som aparece com 35,8%, seguida pela possibilidade de ver lançamentos antes de chegarem às plataformas, com 34,2%.
Na etapa qualitativa, o streaming aparece como parte consolidada dos hábitos audiovisuais dos participantes. Séries mais curtas e minisséries são valorizadas pela facilidade de acompanhar e concluir histórias em rotinas fragmentadas. Nesse contexto, a ida ao cinema envolve a escolha de reservar um momento específico para o filme e para o passeio.
A experiência da sala reúne, assim, atributos que ajudam a justificar o deslocamento e o investimento: assistir em uma tela maior, aproveitar os recursos de som e acompanhar um lançamento. O interesse pela obra se combina ao valor atribuído ao programa.
Essa relação varia entre os entrevistados. Enquanto 55,8% afirmam ir ao cinema pelo menos uma vez por mês, 30,4% vão menos de duas vezes ao ano ou não lembram a última visita. O levantamento reúne frequentadores habituais e pessoas para as quais a ida à sala permanece esporádica.
O custo continua sendo uma barreira à maior frequência. O preço do ingresso é citado por 42,1% dos entrevistados, seguido pelo valor de comida e bebida, com 30%. A falta de tempo aparece com 25,4%, os horários das sessões com 22,5% e a distância ou dificuldade de deslocamento com 19,6%.
O preço também aparecia entre as barreiras identificadas na pesquisa qualitativa da Casa Mundo Latam divulgada em 2023 no Gente Globo. O levantamento de 2026 retoma questões que já apareciam nos relatos de 2023 e dimensiona o peso dessas barreiras na frequência às salas. Os resultados reforçam que, além de despertar interesse pelo filme, a ida ao cinema precisa caber no orçamento, na agenda e nas possibilidades de acesso dos espectadores. O tema permanece presente nos relatos e nas percepções do público. O levantamento atual amplia essa discussão ao dimensionar o peso do ingresso e de outros fatores, como alimentação, tempo e deslocamento, na frequência às salas.
Os resultados mostram que a aproximação com as salas depende também de condições práticas. Mesmo quando há interesse em um filme, o programa precisa caber no orçamento, na agenda e nas possibilidades de acesso. A decisão reúne, portanto, diferentes fatores, que vão do conhecimento sobre a produção à viabilidade de assistir à sessão.
Ao lado das barreiras de preço, o estudo identifica a valorização de atributos que tornam a experiência nas salas mais atraente. Tecnologias especiais, como IMAX, 3D, 4DX e som imersivo, são mencionadas por 30% dos entrevistados entre os motivos para assistir a um filme no cinema. O conforto das salas, incluindo poltronas, espaço e climatização, aparece com 27,1%.
Essas preferências permitem uma aproximação com a discussão sobre premiunização apresentada em outra pesquisa da Casa Mundo Latam, “Status Quo do Me Mimei”. O estudo investiga como a busca por conforto e alívio do desgaste cotidiano participa das decisões de consumo. Entre os brasileiros entrevistados, 55% afirmam buscar mais conforto quando pagam por uma experiência melhor e 51% querem evitar problemas. A exclusividade é citada por 18%.
Embora tratem de questões distintas, os dois levantamentos oferecem elementos para discutir o que as pessoas valorizam ao investir em uma experiência. No cinema, conforto e tecnologia aparecem como atrativos, enquanto o ingresso permanece uma limitação para parte dos espectadores. Essa combinação coloca em debate a relação entre diferenciais, percepção de valor e acesso ao lazer.
Ao avaliar mensagens que aumentariam a vontade de assistir a um filme brasileiro no cinema, os entrevistados atribuem importância semelhante a três propostas. Mostrar que a ida à sala ajuda a fortalecer a produção nacional é a opção escolhida por 36,7%. Reforçar a identificação com histórias próximas e relevantes aparece com 36,2%, enquanto destacar a força, a emoção e o impacto da tela grande reúne 35%.
A proximidade entre os resultados sugere que a comunicação pode combinar valorização cultural, identificação e experiência. Para o público, apoiar o cinema brasileiro, reconhecer-se em suas histórias e aproveitar o que a sala oferece são motivações que podem caminhar juntas.
A pesquisa aponta, assim, para a importância de aproximar a visibilidade conquistada pela produção nacional das decisões cotidianas dos espectadores. Tornar os filmes conhecidos com antecedência, ampliar o repertório e construir interesse pelas histórias são caminhos para que o reconhecimento também encontre espaço na programação de lazer.
