A verdadeira jornada do herói

Por Hermes Leal

Quando os personagens Arya Stark e Jon Snow iniciam sua jornada, em “Game of Thrones”, seus destinos já estão traçados, delineados, em razão de um contrato implícito que farão com outros personagens para cumprirem suas jornadas. Suas aventuras estarão encaixadas dentro de um esquema narrativo da jornada do herói, organizada pelo linguista A. J. Greimas, baseado nos estudos de V. Propp, que estabelece essa jornada do herói em torno de um contrato que se desdobrará em uma longa fase de manipulação e sanção dos personagens.

Diferente da jornada simbólica do herói de J. Campbell, que leva em conta uma análise externa da estrutura da ação, a jornada de Greimas tem sua estrutura de ação organizada e gerida a partir das paixões dos personagens, da jornada interna do personagem, uma jornada que leva em conta as mudanças e as transformações dos personagens dentro da lógica da própria narrativa.

A jornada do herói ocorre dentro da recente teoria da narrativa em três atos, em que o herói parte em busca de uma aventura para liquidar um dano, não em nome próprio, mas em nome de um contrato que o obriga a agir.

A jornada heroica de Jon Snow ocorre com um contrato com a Patrulha da Noite, para combater os Caminhantes Brancos, onde lutará para salvar a humanidade que o destina, ao mesmo tempo em que toda esta ação está sento amparada por uma jornada interna de Jon, que é liquidar a sua condição de “bastardo”, de uma pessoa sem família e sem honra.

A grande jornada da pequena adolescente Arya Stark é adquirir poder para matar várias pessoas de sua lista, que vai de reis a gigantes. Uma jornada perdida. Mas Arya Stark faz um contrato com Jaqen, um “destinador” que lhe ensina o saber matar, que irá lhe doar o poder de destruir todos os seus inimigos. Ao mesmo tempo, em que a jornada de ação de Arya é matar seus inimigos, sua jornada interna é a de liquidar o ódio que sente e que a jogou na narrativa de vingança.

O que existe em comum com essas jornadas externas dos personagens é a existência de um “destinador”. Esse personagem estratégico dará destino aos heróis e aos demais personagens.

Existe uma teoria lógica para organizar a nova jornada do herói, seguindo a linha aristotélica de transformação do personagem em três atos, em um esquema que funciona basicamente com três funções de personagens: “sujeito”, “objeto” e “destinador”, sendo que as funções de ajudante, oponente e destinatário podem ser ocupadas pelo sujeito, o objeto ou o destinador. Portanto, nossa jornada do herói é marcada por um conflito entre estas três funções.

Destinador →  Objeto    →   Destinatário

                                  ↑

Ajudante        → Sujeito   ←     Oponente

Nesta jornada, por exemplo, tendo Jon Snow como sujeito, o seu objeto contratual é a Patrulha da Noite, e o seu destinador é a humanidade que o elege como protetor. A jornada do herói de Jon Snow é comandada por uma ordem do destinador, e que irá conflitar com sua jornada interna. O que está em jogo neste núcleo é uma relação de “junção” entre o sujeito e o objeto, e um destinador.

Primeiro Ato          Segundo Ato              Terceiro Ato
CONTRATO          MANIPULAÇÃO        SANÇÃO

Essa junção entre o plano do agir e o plano do sentir, entre sujeitos, objetos e destinador, irá moldar a jornada de transformação da história e dos personagens em três atos e se inicia com um “contrato” entre personagens, um contrato de confiança que originará a jornada em busca de cumprir esse contrato.

Em seguida ao contrato, o herói segue sua jornada em um segundo estágio, a “manipulação”, onde o personagem terá de fazer arranjos para obter “saber” e “poder”, para, então, na sanção, no terceiro ato, finalmente realizar-se, do ponto de vista do sentir e do agir, a partir da revelação da verdade oculta no contrato.

Será o destinador de Jon Snow, em sua jornada para salvar a humanidade, que justifica a morte de Daenerys. A traição da rainha dos dragões não foi com Jon, mas com o seu destinador, a humanidade que o elegeu como protetor na fase contratual. Na hora da verdade, da sanção, o destinador de Jon Snow fala mais forte, tem mais força, e ele mata Daenerys.

Essa jornada no plano da ação de Jon Snow, sob a força de um destinador, conflitou com sua jornada interna, que era a de liquidar sua amargura e rebeldia por ser um excluído de sua sociedade e família por ser um “bastardo”, casando-se e reinando ao lado da rainha dos dragões. Porém, a força do destinador falou mais forte. Por isso, é um herói. Optou pela causa maior e não por sua causa particular.

A jornada de herói de “Coringa”, como escrito em outro artigo, passa por essa jornada interna de transformação, em que está em jogo sempre o poder do destinador, interferindo no sentir e no agir de Arthur, seja sua mãe ou o apresentador de TV que pode lhe destinar a fama que ele tanto deseja.

O que difere um herói de outro personagem está na sua condição de liquidação de um dano que o faz sofrer, mas que essa liquidação ocorrerá em razão de um destinador maior, como salvar a humanidade, ao invés de liquidar seu sofrimento individual. Esse é o esquema dos super-heróis como Batman, Superman e Homem-Aranha, por exemplo. No conflito entre a jornada interna e a externa, a força do destinador sempre vence.

Mas há jornadas heroicas, com personagens simples, perdedores, que também passam por dilemas internos, as jornadas são mais sensíveis, e não ocorrem no nível da ação, como a jornada de Justine, em “Melancolia”, de Lars Von Trier, em que a personagem é totalmente dominada pelo destinador “morte”, o planeta Melancolia, manipulando a sua jornada de ação, que era se casar.

Essa mesma jornada está no esquema de cada personagem de “Parasita”, como já escrevi em outro artigo, e nas personagens Cleo e Sofia, de “Roma”, com roteiro de Alfonso Cuáron, em que a semiótica permite vermos a jornada invisível da personagem Cleo, ocorrendo apenas no nível da sensação e não de suas ações.

A jornada interna de Cleo ocorre em forma de sensações: de admiração, quando estava fazendo o contrato com o namorado Fermín, ou em forma de percepção, quando estava sendo julgada, na “sanção”, a verdade sobre o seu sentir nos atos anteriores, quando sofre da paixão do arrependimento e remorso por ter desejado a morte do próprio filho ainda no ventre.

A jornada do herói é também uma busca pela potencialização da alma, do não sofrimento. Esse “esquema contratual” é apenas um esqueleto para que possamos colocar, nessa jornada interna dos personagens, também a jornada da alma, explorando os “simulacros existenciais” dos personagens.

A jornada de Arya se iniciou virtualizada, com ela querendo ser uma assassina para se vingar, e se “atualizou” ao aprender a matar, adquiriu um “saber” e só se tornou realizada, quando seu querer se transformou em “poder”, para potencializar sua alma ao matar seus inimigos e liquidar a sua dor, o seu ódio.

Primeiro Ato           Segundo Ato              Terceiro Ato
Contrato                 Manipulação               Sanção
Virtualizado         Atualizado              Realizado
(Querer)                (Saber)                     (Poder)      

Na jornada interna de Cleo, em “Roma”, faltou competência, na fase de manipulação de sua jornada, para não sentir a existência de um filho que ainda não havia nascido, e competência também para não “sentir” remorso na sua sanção, já que sua jornada foi formada por “sensações”. Enfim, na verdadeira jornada do herói, as ações são inseparáveis de suas paixões.

Os conceitos e a teoria aqui abordada estão bem detalhados e aplicados em séries como “Game of Thrones” e nos filmes “Roma”, “Parasita” e “Coringa”, no site screewriteronline.com/br e no livro “As Paixões nos Personagens”.

 

Hermes Leal é escritor, jornalista e cineasta, Mestre em Cinema e Doutor em Letras e Linguística, no campo da Semiótica Francesa, e autor do método para escrever roteiros screenwriteronline.com/br.

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