Silvio Tendler prepara filme sobre Brizola com quem manteve “relação controvertida”
Cena de "Nas Asas da Pan Am"

Por Maria do Rosário Caetano

O septuagenário Silvio Tendler vem trabalhando com mais afinco que nos anos de juventude e saúde plena. Preso a uma cadeira de rodas, cercado de remédios e com dois filmes prontos para lançamento – os imperdíveis “Santiago de las Américas” e “Nas Asas da Pan Am” –, o diretor carioca prepara longa documental sobre Leonel Brizola (1922-2004). Pronto, o filme integrará o calendário de festejos do centenário de nascimento do político gaúcho, que governou o Rio Grande do Sul e o Rio de Janeiro.

Tendler confessa que nunca morreu de amores por Brizola. Mesmo assim, deve fechar tetralogia política iniciada com JK e sequenciada com Jango e Tancredo Neves, três ex-presidentes (o último, eleito pelo Colégio Eleitoral, morreu antes de tomar posse, sendo substituído pelo vice, José Sarney).

Leonel Brizola comandou a Campanha da Legalidade (para garantir a posse do vice João Goulart, quando Jânio Quadros renunciou) e pretendia suceder o conterrâneo (e cunhado) na presidência da República. Criou até slogan dos mais chamativos – “Cunhado não é parente, Brizola pra presidente”. Em vão.

O triunfo do golpe militar de 1964 levou o político petebista ao exílio. Quando regressou, anistiado, somou ao cargo de governador do Rio Grande do Sul (1959-1963) o de governador do Rio de Janeiro (por duas vezes, de 1983 a 1987 e de 1991 a 1994).

O experiente Brizola tentou a presidência diversas vezes durante a Nova República, mas não conseguiu eleger-se. Se vivo fosse, o gaúcho da pequena cidade de Carazinho, batizado Leonel Itagiba de Moura Brizola, faria 100 anos no dia 22 janeiro de 2022 (morreu, aos 82 anos, no Rio, 16 anos atrás).

“Minha relação com Brizola sempre foi controvertida”, confessa Silvio Tendler. “Em 1961, durante a crise da renúncia do Jânio, meu pai, proprietário de um aparelho de rádio potente, um Transoceanic, acompanhava, cercado pela família, diuturnamente a resistência no Sul”.

O então gorducho garoto, nascido no seio de família judia progressista, tinha de dez para onze anos. “Enquanto minha mãe fazia fila, nas Casas da Banha, para estocar arroz e feijão (já que pairava no ar o temor de uma guerra civil), nós acompanhávamos o noticiário”.

“O único supermercado que existia no Rio daquele tempo” – rememora – “era o Disco, que pertencia ao poeta juscelinista Augusto Frederico Schimidt (só no Brasil poetas fundam supermercados)”. A família Tendler escutava a Rádio Farroupilha, de Porto Alegre, “de onde Leonel Brizola falava pela Rede da Legalidade”. Entre “marchas e dobrados, ouvíamos discursos e proclamações que asseguraram a posse de João Goulart”.

Essas lembranças são a força motivadora do novo filme do documentarista. “Aos 70 anos, as memórias que prevalecem são as da infância e esta é a razão pela qual farei um longa-metragem sobre Brizola”. “Nos anos 70 (os números 13 e 70 permeiam minha vida), não fui brizolista, mas convivi muito de perto com ele. Considerando-o, sempre, um caudilho”. Silvio vai registrar suas memórias daquela década, na qual passou pelo Chile de Allende e estudou na França.

“Meu temperamento” – confessa Tendler – “não combinava muito com o de Brizola, mas reconheço que nos momentos-chave da nossa História, ele crescia e assumia um protagonismo necessário”.

O cineasta promete contar “essa história, tão presente na minha memória”, em um documentário substantivo e multifacetado. E mais: “resgatar esse Brizola necessário, principalmente hoje, nesse momento em que uma quadrilha de milicianos (e do Al Capone vindo de Chicago) chegou para destruir nossa economia”. E chegou – na sua avaliação – “com o firme propósito de desmantelar e sucatear o país”.

Tendler não se dá por vencido. Trabalha, sem descanso, chefiando virtualmente um pequeno exército de Brancaleone. E encontra ânimo para assegurar que o “atual governo brasileiro está interessado em vender nossas riquezas e massacrar o nosso povo nas roletas do cassino financeiro”. Daí que “dedicar um documentário a Brizola, hoje, é resgatar um Brasil necessário. Esse é, portanto, o filme que farei”.

O cineasta prefere não aprofundar-se, por enquanto, na definição das linhas conceituais e estéticas do longa-metragem que percorrerá os caminhos trilhados por Brizola. Afinal, encontra-se, nesse momento, em fase de coleta de depoimentos e de imagens espalhadas por arquivos brasileiros e internacionais.

A trajetória de Brizola foi tema de um documentário de longa-metragem (“Brizola – Tempos de Luta”, 2007), do escritor Tabajara Ruas, e de uma ficção (“Legalidade”, de Zeca Brito, 2019), protagonizada por Leonardo Machado (1976-2018). Há, mesmo assim, muito a se contar sobre o controvertido político gaúcho.

Quando Silvio Tendler realizou seu documentário mais famoso (“Jango”, visto por 800 mil espectadores), ele contou com o apoio (na retaguarda) de Denize Goulart, filha do presidente deposto pelo golpe militar de 1964. O mesmo apoio deve se dar agora com o filme sobre Brizola. E Denize, que é historiadora, deve participar com testemunho de viva voz. O mesmo que ela revelou em debate virtual no Cineclube da ABI (Associação Brasileira de Imprensa), em janeiro último.

Ao debater o filme “Jango” com o próprio Tendler e com o historiador e professor da UFF (Universidade Federal Fluminense) Daniel Aarão Reis, Denize – além de defender a memória do pai, acusado de “covarde” por não ter resistido ao golpe de 1964 – contou que Brizola reviu seu ponto de vista.

Segundo o relato da filha de Jango, “duas semanas antes de morrer”, o tio a chamou ao seu apartamento. “Fomos meu irmão João Vicente e eu. E Brizola nos pediu desculpas pela tentativa de convencer João Goulart a resistir ao golpe militar. E se desculpou com lágrimas nos olhos pelo sofrimento que passamos no exílio. Reconheceu que, naquele momento, não havia a mínima possibilidade de resistir”.

Silvio Tendler (à dir.) com Santiago Álvarez

Tão logo a pandemia arrefeça e o público possa voltar, com segurança, aos cinemas, Tendler lançará “Santiago de las Américas ou O Olho do Terceiro Mundo” e “Nas Asas da Pan Am”. O primeiro é um vigoroso retrato do documentarista cubano Santiago Álvarez (1919-1998), composto com imagens arrebatadoras e ritmo aliciante. O filme participou da programação oficial do Festival É Tudo Verdade 2020. Já o segundo, “Nas Asas da Pan Am”, cuja première se deu na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, constrói-se como deliciosa autobiografia do cineasta.

Para relembrar histórias de sua infância de menino judeu-carioca, que transformou-se em um dos mais prolíficos documentaristas do país, a autobiografia “Nas Asas da Pan Am” recorre ao humor. Longe da figura do menino-galã, Silvio penou para chamar atenção das meninas. Encontrou no cineclubismo e, depois, na realização de mais de 80 curtas, médias e longas-metragens documentais, sua razão de viver.

Com imagens tão arrebatadoras e aliciantes quanto as de “Santiago de las Américas”, o mais recente documentário de Tendler registra suas andanças pelo mundo e sua convivência com cineastas da grandeza de Chris Marker (1921-2012), e personalidades marcantes, incluindo o General Diap, do Vietnã. O filme só não é tão bom quanto o dedicado ao cineasta cubano, porque, no final, a autobiografia ganha longa sequência construída na base da “brodagem”.

Uma festa de aniversário (a dos 70 anos de Tendler) introduz acelerado inventário de imagens e nomes de numerosos amigos (pessoais ou profissionais), importantes na vida do autobiografado, mas nem tanto na dos espectadores. Se “Nas Asas da Pan Am” for enxugado de sua longa parte final, terá tudo para entrar na lista dos mais importantes filmes desse incansável caçador de imagens, apaixonado pela História brasileira e do Terceiro Mundo. Figurará, merecidamente, ao lado de “Jango”, “Glauber, Labirinto do Brasil”, “Encontro com Milton Santos”, “Utopia e Bárbarie” e “Santiago de las Américas”.

PRINCIPAIS FILMES

. 1980 – “Os Anos JK – Uma Trajetória Política”
. 1981 – “O Mundo Mágico dos Trapalhões”
. 1984 – “Jango”
. 1999 – “Castro Alves – Retrato Falado”
. 2003 – “Glauber, o Labirinto do Brasil”
. 2006 – “Encontro com Milton Santos ou O Mundo Global Visto de Cá”
. 2009 – “Utopia e Barbárie”
. 2018 – “Dedo na Ferida”
. 2011 – “Tancredo, A Travessia”
. 2020 – “Santiago de las Américas ou O Olho do Terceiro Mundo”
. 2020 – “Nas Asas da Pan Am”
. 2021 – “Brizola” (em produção)

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(2) Comente

  1. Pingback: GLOBO DE OURO + SILVIO TENDLER + PREMIOS GOYA (SABADO) + GUEDIGUIAN + CINEMA SOVIETICO (GUERRAS) + LIVRO SOBRE ROBERTO FARIAS – Almanakito da Rosário

  2. Bela matéria. Sem brodagem a vida se torna pequena.
    Como Denis Arcand mostrou em seu impagável “Invasões Barbáras” (que me foi recomendado pela mesma Maria do Rosário que agora crítica minha brodagem), o que resta na final da vida são os amigos.
    Brodemos a vida com alegria!
    Silvio Tendler
    PS. Obrigado “hermana” Maria do Rosário.

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