Alemão 2

Por Maria do Rosário Caetano

“Alemão”, história de grupo de policiais escondido nos fundos de pizzaria em morro dominado pelo crime organizado, levou quase um milhão de espectadores aos cinemas. Isto aconteceu em 2014. Passados oito anos, “Alemão 2”, a sequência do filme dirigido por José Eduardo Belmonte e produzido por Rodrigo Teixeira, arrisca-se em busca do público de outrora.

Os tempos são outros. Em 2014, ninguém imaginava que a epidemia do coronavírus viria a desorganizar de tal forma o circuito exibidor, nem que o streaming transformar-se-ia na opção preferencial do público. Mas a Manequim, braço destinado a filmes de maior apelo comercial da distribuidora Vitrine, colocará “Alemão 2” em circuito de 300 salas, a partir dessa quinta-feira, 31 de março. Portanto, um lançamento de significativo peso. A sorte está lançada.

Só uma atriz do elenco original liga os dois filmes: Mariana Nunes. No primeiro filme, ela era mulher de traficante, que deixava o marido para criar o filho de ambos longe do crime. Ia, pelas trapaças da sorte, parar no meio dos policiais entrincheirados na pizzaria. Eles não foram resgatados pelas forças especiais da Polícia. Foram, isto sim, exterminados pela mão armada do tráfico. Cauã Reymond, que interpretava Playboy, traficante cheio dos ouros e com vistosa camisa do Flamengo, fugiu do Morro do Alemão quando as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) chegaram. Sobreviveu? Talvez “Alemão 3” responda a esta pergunta. De “Alemão 2”, ele está ausente.

Quem protagoniza a sequência de um dos maiores sucessos brasileiros (senão o maior) da RT Features, produtora de Rodrigo Teixeira, são – pelo lado da Lei – Vladimir Brichta, Gabriel Leone, Leandra Leal, Aline Borges, Dan Ferreira, Rafa Sieg, Alex Nader, Alexandre Lino e Ricardo Gelli. Do lado do crime estão “Soldado” (o carismático Digão Ribeiro) e o cearense Démick Lopes. Zezé Motta e Mariana Nunes representam os moradores comuns. Ou seja, mulheres que vivem atormentadas pelas balas da polícia e dos traficantes. Trabalham para a comunidade, a primeira como agente de saúde, a segunda como cozinheira, preparadora de quentinhas, que cuida do filho pequeno. O menino sonha conhecer o pai (o traficante Playboy).

O roteiro do “Alemão” original cativou o público pela tensão vivida pelos policiais acuados dentro da pizzaria e pelo charme bandido do traficante Playboy. Os furos do roteiro eram atenuados pelas cenas de ação bem realizadas por Belmonte, verdadeiro “remador de Ben Hur”, que trabalha sem descanso (seja na TV, seja no cinema).

O próprio Belmonte admite que o “Alemão” original “foi feito com produção independente, sem editais e com muita rapidez”. Já “Alemão 2” pôde ser amadurecido com calma, passou pelas mãos de muitos roteiristas. Inclusive as do mineiro Gabriel Martins, do coletivo Filmes de Plástico, nascido em Contagem.

A trama final traz as assinaturas de Marton Olympio e Thiago Brito. Em conversa com a imprensa paulistana, Belmonte contou que havia uma premissa da qual não se abria mão – realizar um novo filme de ação, como o “Alemão” de 2014, mas com tempo para amadurecer o roteiro.

Todos os que trabalharam nas versões iniciais e intermediárias estão creditados como colaboradores. Quando Marton, da equipe de roteiristas da Rede Globo, agregou-se ao projeto, Belmonte contava com o grande conhecimento que ele tem da temática policial. Junto com Thiago, os dois buscaram complexificar os personagens. Para tanto – garante o cineasta – “os atores foram fundamentais, opinaram, ajudaram nos diálogos, deram contribuição enriquecedora ”.

Belmonte lembra que um dos melhores momentos do filme – ambientado na casa da personagem interpretada por Zezé Motta – veio de sugestão de Marton, ele mesmo nascido e criado em comunidade. Tem a ver com o racismo estrutural brasileiro. Outro bom momento – o da “menarca” – acentua a pegada feminina do filme e põe em confronto a policial interpretada por Leandra Leal e o descontrolado agente interpretado por Gabriel Leone.

O ator Digão Ribeiro, de corpo volumoso, interpreta o traficante “Soldado”. Na conversa com os jornalistas, ele falou de sua satisfação em poder interpretar um personagem afro-brasileiro, com perfil matizado e complexo, com família e sentimentos que, inclusive, revertem a aspiral da vingança.

O policial Machado (Vladimir Brichta) tem acerto de contas a fazer com “Soldado”. Mas o filme não caminhará pela folhetinesca luta do Bem contra o Mal. Haverá nuances. A Polícia será vista com suas muitas contradições, seus despreparos, suas conivências (pelo menos de parte dela) e seus problemas de saúde (inclusive mental).

A trama envolve um pequeno grupo de policiais civis que tem a missão de capturar o traficante “Soldado”. Ele domina o morro desde a falência das Unidades de Polícia Pacificadora. A delegada (personagem de Aline Borges) deseja desmontar o tráfico no Morro do Alemão, nove anos depois da ação militar que acreditara ter solucionado a criminalidade nas favelas cariocas. Pede que os policiais ajam com inteligência e sem derramamento de sangue. Só que a operação, que parecia exitosa, se complica em sua segunda parte. Outro traficante assume o comando do Morro do Alemão e guerra continua. E tome tiro.

Na coletiva paulistana de “Alemão 2”, a Revista de CINEMA perguntou a Belmonte onde os policiais, liderados por Vladimir Brichta, arrumavam tanta munição para trocar centenas de tiros nas agitadas cenas de ação que eletrizam o filme. Ele foi sincero: “este é um código do filme de gênero”.

Ou seja, na hora da pauleira, as metralhadoras e os fuzis cospem fogo ininterruptamente. Não precisam ser recarregados. Quem está acostumado com o cinema realista, tem muita dificuldade em acreditar no que vê (e ouve).

Um fato chamou atenção na coletiva de imprensa de “Alemão 2”, no Cine Marquise paulistano. Só havia atores-homens na mesa. Nenhuma atriz. Embora, na tela, elas tenham vez e voz. Belmonte fez questão de deixar clara a razão de tantos varões ali sentados: “Mariana Nunes está fazendo uma série para a Amazon, Aline Borges está no elenco da novela “Pantanal”, Leandra Leal dirige uma série e Zezé Motta estava gravando um comercial”. Havia tristeza por não tê-las no encontro com os jornalistas. “Mas, felizmente, as quatro estão fazendo o que gostam: trabalhando”.

 

Alemão 2
Brasil, 110 minutos, 2022
Direção: José Eduardo Belmonte
Elenco: Leandra Leal, Mariana Nunes, Zezé Motta, Aline Borges, Vladimir Brichta, Gabriel Leone, Digão Ribeiro, Dan Ferreira, Démick Lopes, Ricardo Gelli, Alex Nader, Rafa Sieg, Alexandre Lino e Lucas Sapucahy
Fotografia: Fabrício Tadeu
Produção: Rodrigo Teixeira (R.T. Features) em parceria com Buena Vista International e Canal Brasil
Distribuição: Manequim Filmes

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