Mostra SP apresenta “Uma Vida, Um Manifesto”, de Jean-Gabriel Périot, diretor do clássico “Regresso a Reims”
Por Maria do Rosário Caetano
Quem soube apreciar as imensas qualidades de “Regresso a Reims”, de Jean-Gabriel Périot, revelado aos cinéfilos paulistanos pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, tem agora a chance de conferir a mais recente realização do diretor francês – o documentário “Uma Vida, um Manifesto”.
A última sessão do filme acontecerá nessa segunda-feira, 26 de outubro, às 13h, na Reserva Cultural. “Retour à Reims (Fragments)” causou sensação, cinco anos atrás, ao narrar parte da história proletária francesa, vista pelo olhar do escritor Didier Eribon. Périot adaptou fragmentos da autobiografia do também sociólogo e filósofo francês, empenhado em investigar as marcas da classe operária em sua infância. Incluindo a vergonha de suas origens sociais, a homofobia e sua incomum ascensão intelectual. Sem esquecer a transição do voto do proletariado francês, que abandonou os candidatos da esquerda e optou pela extrema direita. O filme, laureado com o Prêmio César de melhor documentário, em 2022, sustentou sua narrativa na questão de classe e gênero.
“Uma Vida, Um Manifesto”, o vigoroso (e sexto) longa-metragem do realizador francês, há de fascinar aqueles que apreciam o cinema e a militância política. Afinal, Périot desenha poderoso retrato da jornalista, crítica de cinema (da revista Positif), aspirante a cineasta e agitadora política Michèle Firk (1937-1968). Ela viria a tornar-se, na primeira juventude, uma mulher apaixonada pelo cinema, pelo jornalismo e pela revolução. Uma militante fervorosa da luta anticolonial, adepta do amor livre e disposta a correr todos os riscos.
Firk apoiará, no início da década de 1960, os militantes da guerra movida pelos argelinos contra o jugo francês. Ajudará na obtenção de armas para aqueles que, no território francês, cuidavam da retaguarda da libertação do país afro-árabe. Depois, a jovem tomará o rumo de Cuba, para registrar, como jornalista, os primeiros anos da Revolução dos irmãos Castro, de Che Guevara e Camilo Cienfuegos.
Seus planos originais a manteriam, por poucas semanas, no país caribenho, mas ela acabou permanecendo na Ilha por mais de um ano. Foi colher café junto às brigadas camponesas revolucionárias. Ou, seguindo conselho de Guevara (que ela entrevistou ao longo de quase três horas), calejar as mãos no corte de cana com o uso de um facão. Se não bastasse, mergulhou com todas as suas forças na guerrilha guatemalteca.
Ninguém pense, porém, que o filme de Périot consumirá seus enxutos 86 minutos apenas com a luta revolucionária terceiro-mundista de sua protagonista. “Uma Vida, Um Manifesto” prestará imensa atenção ao trabalho de Michèle Firk como crítica de cinema. De formação marxista, ela verá com agudo senso crítico (até) os filmes da Nouvelle Vague. Lembrará que o cinemão francês, definido por seus opositores como “les films du papa”, se confrontará com o projeto emergente (a nova onda) dos “filmes dos filhos do papai”. Seu entusiasmo será totalmente dedicado ao cineasta Alain Resnais (1922-2014). Este sim, representa, para Firk, a força viva do melhor cinema feito na França de seu tempo. Dedicará reflexões de grande beleza e acuidade a “Noite e Neblina” (1956) e “Hiroshima, meu Amor” (1959).
A jovem crítica analisará, também, filmes estrangeiros, dedicando significativo espaço para “A Condessa Descalça” (Joseph L. Mankiewicz, 1954), protagonizado por Ava Gardner e Humphrey Bogart, coadjuvados por Rossano Brazi e Edmond O’Brien. Michèle destacou no filme uma protagonista que se recusa a ser tratada como mercadoria.
Muitos outros títulos serão avaliados pela inquieta jornalista-crítica-e-
Como Michèle Firk estudou no IDHEC (Instituto de Altos Estudos Cinematográficos, de Paris), assistiremos a curiosíssima (e muito bem preservada) reportagem, na qual o diretor da instituição enaltece as qualidades da famosa escola francesa. E confessa, sem nenhum constrangimento, que há sim “espaço para mulheres” no mercado de trabalho, desde que nas funções de “montadoras e continuístas”.
Expulsa do IDHEC, por razões políticas, a jovem aluna irá estudar Cinema na Espanha. E fará suas reflexões sobre o mal que a Censura franquista causava ao cinema de expressão castelhana, destacando filmes comerciais marcados pela ligeireza e pelo escapismo. Claro que, entre eles, aparecerão (mesmo que raras) obras críticas como “Bem-Vindo, Mr. Marshall!” (Luis Garcia Berlanga, 1963).
Para dar agilidade ao seu sexto documentário, Périot convocou a ajuda de duas vozes femininas – a da cineasta Alice Diop (do poderoso “Saint Omer”) e da atriz Nadia Tereszkiewicz (“Jovens Amantes”, “O Crime é meu”). Cabe à cineasta afro-francesa imprimir linha reflexiva ao documentário. Ela relembrá o que aconteceu ao longo dos reduzidos 31 anos de vida de Michèle Firk. Já Nadia Tereszkiewicz lerá textos escritos pela inquieta crítica de cinema do final dos anos 1950 até sua morte.
Michèle Firk nasceu no seio de uma família judia, dois anos antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial. Era uma criança, quando a França foi ocupada pelos alemães hitleristas. E o país da Liberdade-Igualdade-
Os estúdios (e mesmo as produções independentes) reservavam às mulheres que queriam ser cineastas as restritas funções de “continuístas e montadoras”. E o fim de seus dias, dos mais trágicos, se daria dentro de um aparelho político em Nueva Guatemala de la Asunción, capital do país centro-americano. Aquele que ela escolhera para praticar o mais perigoso de seus ofícios. O de guerrilheira.
Uma Vida, Um Manifesto | Une Vie Manifeste
França, 2026, 86 minutos
Direção, roteiro e montagem: Jean-Gabriel Périot
Vozes: Alice Diop (cineasta) e Nadia Tereszkiewicz (atriz)
Edição de som: Xavier Thibault
Pesquisa: Emmanuelle Koenig
Última sessão nessa segunda-feira, dia 26, na Sala 1, da Reserva Cultural (Avenida Paulista, 900)
Horário: 13h
FILMOGRAFIA
Jean-Gabriel Périot (Cineasta, roteirista e montador francês, nascido em Bellac, em 1974)
2026 – “Uma Vida, Um Manifesto” (doc)
2023 – “Encarando a Escuridão” (“Se Souvenir d’une Ville”, doc)
2021 – “Regresso a Reims (Fragmentos)” – Prêmio César de melhor documentário
2019 – “Nossas Derrotas” (“Nos Défaites”, doc)
2016 – “Lumières d’Été (longa ficcional)
2015 – “Uma Juventude Alemã” (longa de estreia)
