Ruy Guerra encerra Trilogia dos Fuzis com “A Fúria”, convulsiva reflexão sobre o Brasil contemporâneo
Por Maria do Rosário Caetano
“A Fúria”, convulsiva e delirante reflexão sobre o Brasil contemporâneo, chega aos cinemas brasileiros nessa quinta-feira, 30 de abril. Quem for assisti-lo conhecerá o aguardado fecho da Trilogia dos Fuzis, iniciada em Milagres, no sertão da Bahia, em 1964.
O primeiro filme, o hoje clássico “Os Fuzis”, foi laureado com um Urso de Prata no Festival de Berlim. E tornou-se um dos pilares do Cinema Novo, ao lado de “Vidas Secas”, “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, “A Hora e Vez de Augusto Matraga” e “Terra em Transe”.
Nos anos 1970, Ruy Guerra sequenciou, em parceria com Nelson Xavier, intérprete do soldado Mário, a continuação de “Os Fuzis”. O novo filme, “A Queda”, de nome tão sintético quanto o anterior, foi lançado em 1977, e seria, também, laureado com um Urso de Prata em Berlim.
Foram necessários quase 50 anos para que “A Fúria”, codirigido por Luciana Mazzotti, chegasse aos nossos cinemas. Quando Guerra e seu poderoso elenco (dois deles — Paulo César Pereio e Lima Duarte — com passagem por um ou dois dos títulos anteriores) iniciaram as filmagens, o Brasil vivia sob o comando de Jair Bolsonaro. Que aparece no filme, encarnado pelo ator Joelson Medeiros e sob sintética (e vaga) definição de “Presidente” (sem nome e sobrenome). Mas a figura física, esgares, falas e paixão por motos e motociatas acabarão por servir de elementos indutores-associativos.
“A Fúria consumiu muitos anos de trabalho de Ruy Guerra. A ideia de realizar o fecho da Trilogia dos Fuzis era bem mais antiga. Calhou de materializar-se na era Bolsonaro. Ruy pediu a dois jovens roteiristas – Pedro Freire, do estimadíssimo “Malu”, e Leandro Saraiva, formado em Cinema pela USP, com atuação em Núcleos de Criação Audiovisual e professor da UFSCar — que trabalhassem em momentos definidores da criação da trama. Cada um, à sua maneira, fertilizou o roteiro.
Na hora do frigir dos ovos, Ruy Guerra e Luciana Mazzotti sintetizaram e assinaram o script final. O filme passou por misteriosos meses de filmagens e a sequência da “morte do Presidente motoqueiro” foi parar nas páginas da Folha de S. Paulo (16/07/2022). A matéria também era misteriosa. Mais insinuava, que informava. E dava a entender que o então ministro da Justiça, Anderson Torres, exigiria investigação de tal sequência cinematográfica.
Muitos e longos meses foram gastos na finalização de “A Fúria”. Até que, em dezembro de 2024, ele teve sua primeira exibição pública (na competição do quinquagésimo-sétimo Festival de Brasília do Cinema Brasileiro). Que, em 1970, premiara o neobarroco “Os Deuses e os Mortos” com seu principal Troféu Candango e, em 1977, atribuíria seu Candango cor de bronze a Nelson Xavier (melhor ator).
A sessão de “A Fúria” no Cine Brasília foi apotéotica. O cineasta, então com 93 anos e tomado por sua alma incendiária, lamentou os “tempos sombrios” vividos pelo Brasil e pelo mundo. “Nossa sociedade está doente. Vai murchando em seus valores civilizacionais”. (A Revista de CINEMA registrou a sessão na reportagem “Festival de Brasília aplaude Ruy Guerra de pé e recebe ‘A Fúria’ com palmas catárticas” (07/12/2024).
O novo filme do longevo Ruy Guerra (ele fará 95 anos, cheio de paixão, fúria e projetos, em agosto próximo) começa com cartelas que sintetizam a trama de “Os Fuzis”, depois de “A Queda”:
“Mário era jovem orgulhoso de ser soldado. No início dos anos 60 é mandado para uma missão no Nordeste. Vive o primeiro fracasso do seu idealismo”.
“Anos depois, no Rio de Janeiro, Mário trabalha na construção civil para seu sogro, Salatiel. Nessa nova experiência, ele inicia uma luta pelos direitos de um trabalhador. É levado a combater o golpe de 64. Mário é preso e dado como desaparecido”.
Vale, para tornar mais fácil a fruição do filme (principalmente para aqueles que não tiverem tempo de rever “Os Fuzis” e “A Queda” até essa quinta-feira), rememorar detalhes importantes das duas tramas.
O primeiro filme mostra um grupo de soldados chegando a um povoado, assolado pela pobreza e pela fome, no sertão nordestino. Caberá aos portadores dos “fuzis” vigiar o armazém de forma que os famintos não recorram ao saque. Enquanto esperam, os flagelados rezam sob a liderança de um beato e seu Boi Santo. Um dos soldados se chama Mário. Ele foi interpretado por Nelson Xavier.
O mesmo ator protagonizaria (e codirigiria) o filme seguinte, “A Queda”. Mário, agora, é um operário da construção civil, casado com Laura (Isabel Ribeiro), filha de Salatiel (Lima Duarte). No canteiro de obras, um operário despenca do andaime. É levado ao hospital, mas morre. A empresa, que disputa importante concorrência pública, quer ocultar o fato. Tenta subornar Mário e sua esposa. Que não aceitam o suborno. Para desgosto do pai (e sogro) Salatiel, cooptado pelos patrões em troca de vantagens. Mário pagará caro por seu posicionamento político.
Nelson Xavier seria o protagonista de “A Fúria”. Mas, em 2017, morreu vítima de câncer. Desolado, Ruy Guerra dedicou-se a outros projetos. Mas sem esquecer o fecho da Trilogia dos Fuzis. Incentivado por estudiosos de sua obra, amigos e discípulos (Guerra é um dedicado professor de cinema), ele retomou o projeto.
“A Fúria” nos mostrará Mário (agora encarnado em Ricardo Blat), dado como morto durante a ditadura, retornando (como nos filmes de terror) das profundezas da terra e disposto a vingar-se de antigos aliados. Daqueles que o traíram.
Em sua alucinante jornada, ele contará com a ajuda de figuras improváveis. Um indígena chamado “Palavra” (Urutau Guajajara), uma cantora trans, Mona Lisa (Lux Nègre), e a própria filha Laura (Simone Spoladore), criada pelo avô Salatiel (Lima Duarte). Ela carrega o nome da mãe. Papéis importantes, na trama, desempenharão o poderoso deputado Feijó (Daniel Filho, que trabalhou com Ruy em “Os Cafajestes”), o General (Roberto Frota), a deputada Petra Machava (Grace Passô), um pastor (Julio Adrião) e um juiz do STF (Anselmo Vasconcellos). Sem esquecer um capanga disposto a tudo, de nome Casanova (Hique Campagnaro). Antônio Piganga (um pai de santo), Antônio Pedro Borges (o camarada Jonas) e Paulo César Pereio (Pedro, único ator presente nos três segmentos da Trilogia dos Fuzis) têm participações especiais.
Os últimos filmes de Ruy Guerra (“Quase Memória”, “Em Pedaços” e “A Fúria”) foram realizados dentro de estúdios. Depois da aventura cubana (“Estorvo”, baseado em romance de Chico Buarque) e do lamaçal de “O Veneno da Madrugada”, a partir de obra de Gabriel García Marquez), Ruy resolveu usar novas tecnologias e sua criatividade para filmar entre quatro paredes. Usou a técnica do Video Mapping (projeção de imagem em larga escala). O resultado é de estonteante beleza, desenhado em cores fortes.
Dezenas de cineastas inventaram e continuam inventando seus filmes dentro de quatro paredes. Caso do dinamarquês Lars von Trier, que situou “Dogville” e “Manderlay” em espaços cujos limites eram marcados por riscos de giz. No Brasil, ano passado, assistimos aos filmes de Guel Arraes (“O Auto da Compadecida 2”) e Murilo Salles (“O Turista Aprendiz”), ambos realizados em “estúdios” e gerados por infindáveis recursos trazidos pelas novas tecnologias e (até) pela IA (Inteligência Artificial).
Além da economia financeira, vicejam nessas produções geradas em “mágicos estúdios” inquietações que podem ser viabilizadas segundo os desejos de seus realizadores. Arraes recorreu ao “painel de led” para recriar o sertão suassúnico entre quatro paredes. E Murilo Salles recriou a Amazônia visitada por Mário de Andrade com “fundo verde”. O próprio realizador, um dos maiores fotógrafos do cinema brasileiro, simplificou seu trabalho: “usei uma câmera, fundos verdes, recortei tudo no Première, um programa de edição, que se consegue quase grátis (se for estudante), tive uma equipe muito parceira, ótimos atores e Mário de Andrade”.
Em “A Fúria”, os espectadores verão poderosos (embora breves) trechos de “Os Fuzis” e “A Queda”. Os primeiros em preto-e-branco, captados por um dos maiores diretores de fotografia do mundo, o argentino-brasileiro-francês Ricardo Aronovich. O segundo, com imagens impressas em cores, assinadas por Edgar Moura.
No momento mais eloquente de “Os Fuzis”, vemos o soldado interpretado por Paulo César Pereio ensinando os que o cercam a manusear uma Mauser 1895. Lírio Ferreira e Paulo Caldas referenciariam o registro destes “ensinamentos bélicos” em “Baile Perfumado” (1996). Murilo Salles, em “Como Nascem os Anjos” (também de 96), faria o mesmo.
“A Fúria” é um filme para gostos exigentes (e dispostos ao risco). Os que revisitarem seus antecessores mergulharão com mais segurança nessa louca (e nova) encenação do indomável realizador moçambicano-lusitano-
A Fúria
Brasil, 2026, 98 minutos
Direção: Ruy Guerra e Luciana Mazzotti
Elenco: Ricardo Blat, Lima Duarte, Daniel Filho, Grace Passô, Simone Spoladore, Urutau Guajajara, Lux Nègre, Roberto Frota, Joelson Medeiros, Júlio Adrião, Denise Milfont, Antônio Pitanga, Anselmo Vasconcellos, Higor Campagnaro, Antônio Pedro Borges, Paulo César Pereio
Roteiro: Leandro Saraiva e Pedro Freire, com finalização de Ruy Guerra e Luciana Mazzotti
Fotografia: Luis Abramo Campos
Montagem: Mair Tavares, Daniel Garcia e Renato Vallone
Trilha sonora: Plínio Profeta
Direção de arte: Beatriz Peregrino
Figurino: Luiz Lobão
Produção: Rune Tavares e Rodrigo Sarti Werthein
Distribuição: André Sturm (pela Pandora Filmes)
FILMOGRAFIA
Ruy Alexandre Guerra Coelho Pereira (Maputo, Moçambique, 22 de agosto de 1931)
Diretor, roteirista, montador, ator, dramaturgo, poeta, compositor e professor de Cinema
2026 – “A Fúria” (codireção de Luciana Mazzotti)
2025 – “Aos Pedaços”
2015 – “Quase Memória”
2004 – “O Veneno da Madrugada”
2004 – “Portugal S. A.”
2000 – “Monsanto”
2000 – “Estorvo”
1989 – “Kuarup”
1988 – “A Fábula da Bela Palomera”
1986 – “Ópera do Malandro”
1983 – “Erêndira”
1980 – “Mueda, Memória e Massacre”
1977 – “A Queda” (codireção de Nelson Xavier)
1970 – “Os Deuses e os Mortos”
1969 – “Ternos Caçadores”
1964 – “Os Fuzis”
1962 – “Os Cafajestes”
