“Feito Pipa” e “O Projeto” mobilizam o público de Gramado e motivam concorridos e vibrantes debates

Foto: Lázaro Ramos, Teca Pereira, Yuri Gomes e Allan Deberton © Edison Vara/Ag.Pressphoto

Por Maria do Rosário Caetano, de Gramado (RS)

O Festival de Cinema de Gramado abriu sua competição de longas-metragens com dois filmes reflexivos e preocupados com a história (e a memória) de personagens afro-brasileiros — a ficção cearense, “Feito Pipa”, de Allan Deberton, e o documentário “O Projeto”, que une a brasileira Sabrina Fidalgo ao suíço Yvan Rodic.

“Feito Pipa”, que tem circulado internacionalmente com o nome “Gugu’s World” (O Mundo de Gugu), é protagonizado pelo menino Yuri Gomes, de 12 anos, oriundo do Grupo de Teatro Olodum. Com ele contracenam nomes de grande importância como Teca Pereira, Lázaro Ramos e Carlos Francisco.

“O Projeto”, que traz proximidade temática com o vertiginoso “Trilha Sonora para um Golpe de Estado”, representante da Bélgica no Oscar 2025, tem Sabrina Fidalgo como personagem, além de diretora. Em seu primeiro longa-metragem, ela soma forças com um inquieto fotógrafo suíço, branco, mas igualmente engajado no enfrentamento de questões essenciais advindas do projeto colonial europeu, fincado na supremacia branca.

Allan Deberton subiu ao palco do Palácio dos Festivais com seus atores, produtores e equipe técnica. Três infantes (Iuri Gomes, Beatriz Carwile e Luan Vasconcelos) se somaram ao elenco adulto, liderado por Teca Pereira e Lázaro Ramos.

No palco, Lázaro contou que estava em Gramado, em 2019, quando assistiu ao filme “Pacarrete”. Gostou tanto, que procurou Deberton para dizer que queria trabalhar com ele. Estava à disposição. Aguardava “realmente” um convite.

Quando André Araújo, roteirista de “Feito Pipa” (e do próximo longa debertoniano que desenhará cinebiografia de Marcélia Cartaxo), chegou com o roteiro da saga de Gugu, o cineasta cearense viu que Lázaro seria o intérprete perfeito do pai do menino. E que Teca Pereira seria a amorosa e onipresente Dilma, avó do garoto. O nome de Vovó Dilma constitui — garantiu Deberton — “homenagem intencional à presidenta que sofreu impeachment”.

Teca e Lázaro tomaram o rumo de Quixadá, no Ceará, tão logo convocados pelo cineasta cearense. O filme se tornou realidade e começou sua vitoriosa trajetória no Festival de Berlim. Ganhou dois prêmios — o Urso de Cristal outorgado pelo Júri Jovem/Infantil da mostra Generation Kplus, e o Grande Prêmio do Júri Internacional (na mesma categoria).

O Palácio dos Festivais de Gramado estava lotado por plateia curiosa e ávida para ver “Feito Pipa”. Afinal, todos queriam conhecer o novo trabalho de Allan Deberton, que conquistou, em Gramado 2019 (com o delicioso “Pacarrete”), oito troféus Kikito, incluindo o de melhor filme. O segundo longa ficcional (“O Melhor Amigo”) do realizador nascido em Russas, interior cearense, não foi exibido no telão gramadense.

Passados, pois, sete anos, o público assistiu ao novo filme e aplaudiu com gosto a saga do menino Gugu. Mas — pondere-se — sem as dimensões das inesquecíveis palmas que finalizaram a histórica sessão de “Pacarrete”, o mais mobilizador dos filmes de Deberton.

No debate da manhã seguinte, no Hotel Serra Azul, “Feito Pipa” recebeu elogios e contou com a presença luminosa de Beatriz Carwille, um prodígio que arrancou palmas consagradoras. Com apenas 12 anos, a menina engendrou duas intervenções matadoras. Na primeira, discorreu sobre seu papel e o de seus colegas mirins em “Feito Pipa”. Parecia uma socióloga da USP ou da UFBA, já que ela é baiana como Iuri Gomes.

Frente ao silêncio convicto do colega Gugu (desinibido e luminoso na tela), ela se animou a fazer uma segunda intervenção. Isto, no momento em que o debate já chegara ao seu desfecho (procurem o registro na internet).

Beatriz fez questão de analisar o papel do líder do grupo de meninos (colegas de classe) que debocham de Gugu por seus trejeitos queer. Refletiu (sim, refletiu!) sobre as motivações racistas e sexistas do garoto assediador, tentando jogar luz sobre elas. Público e jornalistas desdobraram-se em novos aplausos.

“Feito Pipa” caminha pelas searas do universo queer, mas o faz com saudável sutileza. No debate do filme, Allan Deberton lembrou que ele e seu roteirista André Araújo colocaram na tela suas vivências de “crianças bichas”, que nasceram e cresceram no sertão do Nordeste.

Por isso, é de “um lugar queer” que eles quiseram mostrar o mundo de Gugu em sua relação amorosa com a avó Dilma. Uma mulher cheia de vida, que se veste com exuberância, dança forró e namora. Mas que terá seus dias marcados pelo início de complexo processo de esquecimento trazido pelo Alzheimer.

O filme abordará, também, as relações de Gugu com o pai, Batista, que se incomoda com os trejeitos femininos do filho. O menino, um jogador mirim de futebol, gosta de se vestir com roupas coloridas e enfeitar o rosto com estrelinhas brilhantes. O pai não aceita. Chega a presentear o filho com uma revista embrulhada em plástico escuro.

Gugu vai do campo de futebol para a escola, onde desfruta da fraternidade de dois colegas (Beatriz Carwille e Luan Vasconcelos), mas é vítima do assédio de um grupo de moleques que o hostiliza.

No debate, Deberton e seu roteirista contaram que, apesar das muitas transformações do roteiro, nunca abriram mão da camada política do filme. Esta camada, subjacente, se faz representar, em especial, por Eliane, a mãe de Gugu, que morreu de forma trágica.

Líder combativa dos desterrados da cidade, aquela que seria encoberta pelas águas de uma represa, ela foi assassinada a tiros e deixou Batista viúvo, Gugu órfao e um grande vazio na vida de sua mãe, Dona Dilma. A imagem (e a memória) de Eliane seguirá presente na casa onde Gugu mora com a avó. Suas fotos estão colocadas em destaque na estante. E quando a memória de vovó Dilma começar a desaparecer, ela se esquecerá (até) do neto, mas não da filha.

Deberton contou, também, que a inundação da cidade de Jaguaribara, tema do documentário “Memórias da Chuva” e das ficções “Represa” e “Mais Pesado que o Céu”, serviu de motivação para o roteiro de “Feito Pipa”.

“Meu pai nasceu em Jaguaribara e sofreu com a inundação da cidade”, rememorou. Por isso, “em sentimento”, ela “impregna nosso filme”. André Araújo, o roteirista, já evocara lembranças da potiguar São Rafael, que também foi engolida por uma represa, causando impactos subjetivos na vida de seus habitantes desterrados.

“Feito Pipa” foi filmado em Quixadá, município cearense de 85 mil habitantes, que vem atraindo diversas produções audiovisuais por sua boa infraestrutura. “Podemos dizer que temos lá um polo de cinema”, ponderou Deberton. Para depois lembrar que “os filmes constroem seus cenários com muitos recursos sugeridos pela direção de arte e por nossa imaginação”.

A represa que engole até a igreja da cidade onde viveu a mãe de Gugu foi filmada no Açude de Pedras Brancas, em Banabuiú, próximo a Quixadá. Mas recursos cenográficos (como postes) — contou Deberton — “foram recriados pela equipe de arte para chegarmos aos efeitos desejados”.

Quem viu “Pacarrete” há de lembrar-se da efusiva e arrebatadora trilha musical do filme. Deberton realizou um verdadeiro ‘hit parade’ pessoal e seduziu o espectador. Dessa vez, ele não recorreu a tantos hits. A Revista de CINEMA perguntou a ele, por que, dessa vez, não construiu momentos similares ao mais envolvente de “Feito Pipa”, aquele em que Altemar Dutra canta “Sentimental”? Houve limitação orçamentária, já que direitos autorais custam caro?

Deberton, que fez de “Gugu’s World” uma produção cearense-paulista (em parceria com a Biônica, de Bianca Villar), admitiu que os custos de aquisição de direitos autorais pesam no orçamento dos filmes, mas que, dessa vez, pautou-se por outro procedimento.

“Eu quis embalar a trama com músicas contemporâneas, aquelas que são ouvidas pelos personagens em seu dia-a-dia”. Por isso, “não fazia sentido elaborar um segundo hit parede com músicas que me marcaram”.

Por que a história queer de Gugu ganhou o misterioso nome de “Feito Pipa”?

Deberton e André Araújo garantiram que este foi o título escolhido para o filme desde que ele foi concebido. Com a recepção internacional (em Berlim, na Alemanha; em Guadalajara, no México; e em Xangai, na China), o filme recorreu ao “Mundo de Gugu”, pois a metáfora da pipa não pareceu significativa e forte para olhares estrangeiros.

“Mas na China” — lembrou Deberton — “nos perguntaram por que não mantivemos a Pipa no título”. Os chineses, afinal, são mestres no fabrico de fascinantes “papagaios” voadores, brinquedo lúdico de milhares, milhões, de crianças.

“Feito Pipa” chegará aos cinemas no dia 5 de novembro, com distribuição da poderosa Paris Filmes. Márcio Fraccaroli, que comanda a empresa, assistiu ao longa-metragem com o público e o aplaudiu emocionado. Aliás, observemos, a Paris tem distribuído dezenas de filmes brasileiros. Sinal de que acredita na composição de carteira de lançamentos capaz de somar filmes internacionais e nacionais. Vê tal procedimento como salutar.

Equipe de “O Projeto”, de Sabrina Fidalgo e Yvan Rodic © Cleiton Thiele/Ag.Pressphoto

O debate do documentário “O Projeto” mostrou que o público e a crítica receberam com imenso interesse o filme.

Os diretores Sabrina e Yvan Rodic, acompanhados da diretora de fotografia Júlia Zakia e dos produtores André Novis e Ana Saito, deram sólidas respostas às perguntas dos jornalistas e do público.

Sabrina Fidalgo lembrou que o projeto original seria comandado apenas pelo suíço (de expressão francesa), filho de pai imigrante, vindo do Leste Europeu, e mãe helvética. “Minha atuação se restringiria ao roteiro”. Mas, a dupla, ao escrever o filme, percebeu que “ele ganharia potência se cruzássemos nossas duas experiências de vida”. O que foi feito.

A dupla, sempre acompanhada da fotógrafa Júlia Zakia, botou o pé na estrada. Correu mundos. Foi à Alemanha, a Portugal, França, Suíça, EUA e Argentina. Dois dos países almejados ficaram de fora por razões orçamentárias — a Índia e o México. Mesmo assim, a dupla conseguiu, com a produtora Gullane Filmes na retaguarda, visitar uma dezena de cidades internacionais (Munique, Hamburgo, Zurique, Vevey, Saint Gallen, Paris, Cannes, Lisboa, Nova York, Buenos Aires). E somá-las a três importantes capitais brasileiras (São Paulo, Rio e Brasília). Sem esquecer a fluminense Nova Friburgo, de 190 mil habitantes, conhecida como “a Suíça brasileira”. Todos diziam ao suíço Yvan Rodic que ele tinha que visitar a cidade, orgulhosa de suas características suíças. Ele fez o dever de casa.

Dezenas de pessoas dão seus testemunhos ao “Projeto”. Mas o filme, por suas inquietações artísticas, está longe de ser um ‘talking heads’. Afinal, promove momentos formidáveis (como o encontro da afro-brasileira Sabrina Fidalgo com a germânica Renate Bürbet-Kotzam, sua ex-professora na Escola de Munique). Ou surpreendentes. Nesse caso, destaque total para o polemista brasileiro Anderson França.

Sabrina apresentou Anderson ao público do debate gramadense como “uma pessoa incrível, ligada historicamente à Universidade da Quebrada, jornalista autodidata, um provocador nato”. Por sua coragem de dizer tudo que pensa, “ele acabou ameaçado de morte e exilado”. Primeiro em Lisboa, onde também teve problemas, e, finalmente, em Paris, onde vive.

Foi na capital francesa que o suíço Yvan Rodic (acompanhado de Sabrina) agendou o encontro cinematográfico com Anderson. Chegou com duas horas de atraso. O entrevistado não perdeu a chance de cutucar o cineasta. Afinal, um europeu, oriundo do país que desfruta de inabalável fama por sua pontualidade. A ponto de nós, brasileiros, utilizarmos a expressão “pontual como um relógio suíço”.

O protesto-sarro do brasileiro exilado foi preservado em “O Projeto” com toda sua carga crítica e irônico-debochada. E, aos espectadores, uma dica: permaneçam na sala (quando o filme estrear), pois, findos os créditos, Anderson França voltará a provocar os cineastas (e o público), com tirada de conteúdo bélico, fincada nas ações que marcaram a vida do ativista estadunidense Malcolm X.

A imagem mais poderosa do longa documental nos mostra Sabrina Fidalgo, vestida e penteada com o esmero de divas afro, usando prendedor de roupas como instrumento de correção de narizes. Ou seja, um objeto que ajudaria a arrebitar um nariz afro, mais volumoso, tornando-o mais próximo dos narizes caucasianos.

A metáfora é clara. Milhares de crianças e adolescentes, mundo afora, foram induzidas a seguir padrões impostos pelo projeto colonial europeu, fincado na supremacia branca.

Sabrina Fidalgo, filha de um ator de teatro e de uma modelo, criada em ambiente artístico no Rio de Janeiro, lembrou que os pais, ativistas políticos, nunca a incentivaram a adotar procedimentos como o do “afinamento do nariz”. Mas, pré-adolescente, ela sofria influência de colegas de escola, de amigos, das revistas, da TV e do cinema. Recorreu ao sufocante instrumento.

Das dezenas de pessoas ouvidas pelo filme (Djamila Ribeiro, Erika Hilton, Preto Zezé, Rokhaya Diallo, Joice Berth, Maxwell Alexandre, a atriz Mata Gabin, Mayara Felicio, Ali Delgado, entre outros), quem causou a mais funda impressão entre o público gramadense foi a escritora afro-lusitana Grada Kilomba. Professora da Universidade Livre de Berlim, ela se expressa com poderosa, calma e aliciante argumentação. Enriquece, com brilho único, o complexo retrato traçado por Sabrina Fidalgo e Yvan Rodic.

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