Gramado mostra cinebiografia de Chorão em noite estrelada, inicia competição de curtas e exibe série “Emergência 53”
Foto: Equipe de “Chorão: Só os Loucos Sabem” de Hugo Prata e Felipe Novaes © Edison Vara/Ag.Pressphoto
Por Maria do Rosário Caetano, de Gramado (RS)
A quarta noite do Festival de Cinema de Gramado transformou um dia útil, a segunda-feira, e um lugar, o Palácio dos Festivais, em verdadeiro firmamento de astros. Como a Gramatur e o público, que lota as laterais do tapete vermelho, gostam.
Foram exibidos o longa-metragem paulistano-santista “Chorão: Só os Loucos Sabem”, de Hugo Prata e Felipe Novaes, os curtas “Shibal”, de João Rubio Rubinato (São Paulo), “As Gêmeas”, da carioca Vanessa Aguiar, e “Graxa e o Zepelim”, do pernambucano Camilo Soares.
Para arrematar, subiram ao palco alguns dos integrantes do elenco da grifada série “Emergência 53”, de Andrucha Waddington e Cláudio Torres, este integrante do clã Montenegro Torres. A série, aliás, conta com participação especial da nonagenária e vigorosa Fernanda Montenegro. E é protagonizada por Yara de Novaes, Emilio de Mello, Emílio Dantas, Heloísa Jorge e Valentina Herszage.
A noite foi longa, mas adrenalinada. “Chorão” dura quase duas horas (exatos 114 minutos), mas o filme é tão intenso e vertiginoso, que parece durar bem menos. Dos três curtas, dois (o paulista e o pernambucano) são anarquistas e acelerados. A série médica da Conspiração é igualmente vertiginosa, pois seus protagonistas são responsáveis pelo salvamento de pessoas que têm suas vidas postas em riscos extremos (incêndios, acidentes ou tiroteios).
Só o curta carioca (“As Gêmeas”) destoou da ‘vibe’ frenética da quarta noite. Contido, secreto, de tema dos mais difíceis — assédio de criança de sete anos dentro do ambiente doméstico — o filme acabou tornando-se a exceção (temática e artística) da programação.
Quem mais chamou atenção na mais estelar das noites dessa quinquagésima-quarta edição do festival (até agora) foram os atores José Loreto e Nanda Marques, protagonistas de “Chorão”. Claro que por serem famosos e oriundos de elencos de novelas e séries de TV.
Para aumentar ainda mais a temperatura (faz calor em Gramado), Nanda subiu ao palco vestida para matar. Trajou um longo, preto, com 90% de transparência e — o que parecia uma performance sintonizada com a história de amor de Chorão e sua companheira por 22 anos, Graziela — e foi beijada sucessivas vezes por Loreto.
Além dos beijos trocados, Nanda e Loreto ficaram de mãos dadas em vários momentos. Estariam encenando uma sequência da história cinematográfica da qual eram protagonistas? Ou nascera, durante as filmagens, uma verdadeira história de amor?
A Revista de CINEMA, que não pratica o jornalismo de fofocas, colocou a questão para Loreto e Nanda.
A resposta esclareceu a questão. A dupla não prolongou, no palco do Palácio dos Festivais, uma encenação. Apaixonaram-se, para valer, durante as filmagens e estão vivendo uma grande história de amor.
Loreto contou que outra atriz estava (quase) escalada para o papel. Até que o teste de Nanda Marques convenceu os dois diretores, Felipe Hugo, que ela seria a intérprete ideal para viver Graziela Gonçalves, esposa de Chorão e autora do livro “Se Não Eu, Quem Vai Fazer Você Feliz? – Minha História de Amor com Chorão”, origem do filme.
“No começo dos ensaios, sob o rigoroso preparo de Fátima Toledo, fomos nos aproximando”, revelou o Chorão de celuloide. “Mas, primeiro, como amigos e parceiros de trabalho, até que fomos nos conhecendo melhor”.
A atriz confessa que fez, nas conversas com Loreto, revelações que não fizera nem à sua terapeuta, nem à exigente Fátima Toledo, nem à sua própria mãe.
Nanda tem 32 anos, Loreto, 42. Conversa vai, conversa vem, o relacionamento amoroso foi brotando nos bastidores de “Só os Loucos Sabem”. Os dois solificaram o romance.
“Só que os diretores (Hugo e Felipe) não estimularam nosso relacionamento”, contou Loreto. “Fizeram justamente o contrário, nos desestimularam. Achavam que não era bom misturar a história do filme com nossa história pessoal”. A ponto de, “nas filmagens, nos colocarem em andares diferentes no hotel que nos hospedava”.
Em vão. Os dois se aproximaram para valer e viveram na tela e nos bastidores uma grande história de amor (sem as dificuldades e contratempos mostrados pela história real de Chorão e Graziela).
Feito esse esclarecimento amoroso, a Revista de CINEMA partiu para questões pertinentes à construção narrativa do filme. Sua ambientação em Santos, no litoral paulista, já que a cidade surge como uma “personagem”. A questão das drogas (Chorão morreu aos 42 anos, de overdose de cocaína), que receberá tratamento discreto, talvez em busca de classificação etária favorável (12 ou 14 anos). A escolha do elenco de apoio, no qual se destacam Georgette Fadel, Leopoldo Pacheco e Kiko Marques. E sequência, na parte final do filme, que peca por certo didatismo (aquela em que Chorão pede a Graziela que conte a história dele para os jovens).
A Jorge Loreto, pedimos que esclarecesse o verbo que usara, em fala inicial no debate, ao referir-se à preparadora de elenco Fátima Toledo.
Felipe Novaes, que cresceu em Santos e conhece bem a cidade, disse que metade do filme foi rodada no município litorâneo. “Fazíamos questão de que fosse assim, pois embora tenha nascido em São Paulo, Chorão viveu sua vida adulta e artística em Santos e estabeleceu laços profundos com a cidade. Identificação total. E a identificação da cidade com ele permanece viva”. E mais: “encontramos apoio total da Santos Film Comission, que nos ajudou muito, assim como a rede hoteleira”.
Felipe e Hugo revelaram atitudes de José Loreto (sempre o Loretão!), que tumultuaram o processo de filmagem.
“Contrariando nossa orientação” — detalharam —, “ele colocava nas redes sociais onde iríamos filmar, citava o nome do prédio. Quando chegávamos para cumprir nossa diária havia centenas de pessoas loucas para vê-lo e assistir às filmagens, um tumulto que todo produtor quer evitar. Houve ocasião em que até um drone apareceu para registrar o que estávamos fazendo”.
Antes que os diretores prosseguissem nas respostas solicitadas, o agitado Loreto avisou que “não é gaveta para guardar segredos”. E falou tudo o que quis sobre as filmagens e sua relação com Fátima Toledo. Esclareceu que não usara o verbo “peitar” (afrontar) a profissional.
“Eu usei o verbo ‘faltar’, pois faltei a um dos encontros preparatórios com ela”, esclareceu. “Eu me entreguei de corpo e alma ao personagem, bebi muito uísque, comi muito, engordei. Aquele barrigão que vocês viram na tela é meu. Este é meu melhor trabalho, digo com sinceridade. É meu melhor personagem. Me preparei para valer, deixei o Rio e fui morar em São Paulo. Mas… Um dia acordei tarde, 11 da manhã. Quando cheguei, com três horas de atraso, à sede da (produtora) O2, a Fátima Toledo me deu a maior bronca. Ela é um bichinho empombado, me disse que minha atitude era um falta de respeito com os colegas e comigo mesmo. Os diretores concordaram plenamente com ela, uma grande profissional, uma grande preparadora de elenco. Me ajudou muito”. Mas, “eu fiz a minha parte. Dei meu suor e minhas lágrimas, fiz trabalho corporal, musical, de dramaturgia. Cantei e até hoje (risos!) não me conformo que minha voz, meu canto, não tenha sido utilizado no filme. Certa vez, conversei com o filho do Chorão e disse que queria interpretá-lo, mesmo não sabendo cantar. Sabe o que ele me disse? Então você está pronto, pois meu pai também não sabia”.
Hugo Prata fez um “corte rápido” para discordar de Loreto. “O Chorão sabia cantar, sim, e não havia sentido em colocarmos 13 músicas dele na trilha do filme, cantadas pelo ator. O que pedimos a Loreto foi que aprendesse a cantar como se fosse o Chorão. E isso ele aprendeu maravilhosamente. Assim como Andréia Horta aprendera para interpretar Elis (Regina)”.
Prata prosseguiu nas respostas à Revista de CINEMA:
Escolha dos atores: “Vejo em média 50 peças de teatro por ano. Gosto muito de teatro e aproveito para ver o desempenho dos atores. Georgette Fadel é uma atriz maravilhosa, que enriqueceu nosso filme, assim com Leopoldo Pacheco, Kiko Marques e outros. E lembro que trabalhamos também com nomes novos. E fizemos questão de ter músicos com experiência de palco para interpretar os integrantes da banda Charles Brown Jr. Todos que estão no filme, como músicos, são músicos”.
Cocaína e classificação etária: “Não exploramos graficamente o uso de cocaína por Chorão, porque entendemos que isso simplificaria a história de vida dele. Criaria a impressão de que ele morreu por isso, quando sabíamos que a questão era bem mais complexa. Ele nasceu numa família disfuncional, passou por muitas dificuldades financeiras, assistiu à morte de dois amigos, um num acidente de carro e outro de moto. Ele estava no carro e, depois, na moto. Escapou, mas ficou marcado por aquelas perdas. Não estávamos em busca de classificação etária favorável, mas sim de uma visão complexa da trajetória dele”.
Sequência que peca por didatismo: “Não inventamos aquela sequência. Ela aconteceu. Chorão pediu a Graziela que contasse a história dele para as novas gerações. Do nosso jeito, construímos essa sequência lembrando o “Hamlet”, de Shakespeare. Hamlet pediu ao amigo Fortimbrás que narrasse a história dele (Hamlet). Para nós, aquela sequência está na essência, na razão de ser, do nosso filme. Que nasceu do relato feito em livro pela Graziela”.
O filme “Chorão: Só os Loucos Sabem” será lançado em março de 2027, pela Downtown, de Bruno Wainer. Tudo indica que poderá estabelecer bom diálogo com o público — roteiro de formatação clássica, elenco da grande eficiência (José Loreto é forte candidato ao Kikito; Georgette Fadel tem chances como coadjuvante) e ritmo contagiante (muitos se espantaram com sua duração de quase duas horas — “parece bem menos!”). Outro detalhe: o final, construído com flashbacks, neutraliza o desfecho infeliz.
Já na Noite dos Troféus Kikito, as chances de “Chorão” ser eleito o melhor filme são rarefeitas. Festivais, mesmo o de Gramado, mais abertos ao chamado “cinemão”, costumam apostar em filmes mais ousados e disruptivos.

FLASHES GRAMADENSES
SÉRIE MÉDICA — Narrativas que se dão em terreno médico costumam atingir grandes audiências. No Brasil, a Conspiração realizou a bem-sucedida “Sob Pressão“, protagonizada pelos “médicos” Julio Andrade e Marjorie Estiano. Agora chegou a vez de “Emergência 53”, que estreia na Globoplay nessa quinta-feira. O Festival de Gramado exibiu o primeiro (e movimentadíssimo) capítulo da série, intitulado “A Novata”. Subiram ao palco do Palácio do Festivais, junto com representantes da Globoplay, quatro estrelas da série — Emílio Dantas, Heloísa Jorge, Valentina Herszage, “a novata”, e Ana Flávia Cavalcanti. Na telona do cinema, apareceram personagens de grande importância nessa trama em que médicos, enfermeiros e motoristas tentam salvar vidas. Todos interpretados por craques como Yara de Novaes (a premiadíssima “Malu” de Pedro Freire), Emílio de Mello, Jafar Bambirra, Ana Hijari, Júlia Lemmertz, Antônio Grassi e Fernanda Montenegro. Dois detalhes chamam atenção no grupo de personagens-socorristas da trama: eles atuam em condições as mais adversas. E são “renegados pelo sistema”, por alguma falha profissional. Por isso, não medem esforços para fazer o melhor possível e evitar novas mortes. E punições.
“SHIBAL”, SÃO PAULO, COREIA — O filme de João Rubio Rubinato causou sensação na abertura da competição de curtas brasileiros. Produzido por Enzo Celulari (filho de Claudia Raia e Edson Celulari), o curta de 20 minutos de duração, mobilizou atores conhecidos (como Bianca Comparato e Marcelo Médici), cults (como o paraibano Tavinho Teixeira) e coreanos (como Boni Tao, “podem me chamar de Bonitão”). E impressionou por seu ritmo frenético e kafkiano. Tudo começa com o gravurista Tom (Tavinho Teixeira), cuja missão consiste em entregar placa que vai decorar a fachada de um restaurante coreano, plantado na metrópole paulistana. Só que, até cumprir tal missão, ele será esmagado (ou melhor, triturado) pela loucura da metrópole. Rubinato, diretor e roteirista do filme, citou as referências que fertilizaram seu imaginário (nesse projeto): “Kafka filtrado por Orson Welles”, já que o protagonista terá que esquivar-se das armadilhas da metrópole frenética. Para temperar: os filmes de Ugo Giorgetti, o Adoniran Barbosa do cinema paulistano. “Sou admirador convicto de ‘Sábado’, um filme que traz o caos de São Paulo em sua narrativa”. Citou, também, ‘Festa’, feito numa única locação, e ‘O Príncipe’”. A escolha de Tavinho Moura para protagonizar essa história adrenalinada foi consequência da participação de ambos na Mostra de Tiradentes 2025. “Tavinho estava em competição com ‘Batguano 2’ e eu como diretor de fotografia de ‘Deuses da Peste’. Nos conhecemos e quisemos, de cara, trabalhar juntos. Enzo produziu o filme e escalei Tavinho para interpretar Tom. Bianca e Marcelo Médici vieram dos contatos do produtor. O cineasta contou que, após a exibição gramadense, espectadores foram falar com ele e perguntaram se o desfecho de “Shibal” era citação-homenagem a “Era uma Vez na América” (Sergio Leone, 1984). Ele respondeu negativamente, pois não conhecia o filme. E contou que o impactante desfecho nem estava no roteiro original. Emergiu durante o processo de filmagem.
GRAXA, ZEPELIM E O FRENESI DE JIQUIÁ — Camilo Soares, diretor do longa “Muribeca” e fotógrafo de “King Kong em Assunción” (Camilo Cavalcante, 2022, vencedor de Gramado), fez de “Graxa e o Zepelin” um curta que soma documentário, ficção científica e musical. Ao longa de 21 minutos, ele nos mostra o vibrante Graxa, roqueiro black recifense, profundo conhecedor de seu território natal, o bairro periférico de Jiquiá. Interpretado por Ângelo de Souza (e na adolescência por Itioko), Graxa vive sob o impacto das sete visitas que Recife (no solo do Jiquiá) recebeu, nos anos 1930, do Zepelim germânico, enfeitado pela suástica nazista. O roqueiro se preocupa com o esquecimento de seu bairro, onde vive gente pobre, sempre à espera por políticas públicas transformadoras. Políticas que não chegam nunca. A não ser uma imensa ponte, concebida para favorecer o trânsito dos ricos motorizados. Camilo Soares, que escreveu o roteiro de “Graxa e o Zepelim” com seu ator Ângelo de Souza, define o filme como “uma metonímia da modernidade seletiva”, resistente marca de nossa história político-social. Detalhe curioso: no Jiquiá sobrevive a única torre de atracação de dirigíveis Zepelim preservada no mundo e que, na próxima década, tornar-se-á centenária.
AS GÊMEAS E O HORROR DOMÉSTICO – Vanessa Aguiar, diretora de “As Gêmeas” (curta de 12 minutos) soma o fazer cinematográfico a seu ofício mais tradicional, o de comissária policial. O tema de seu filme tem a ver com violência sexual contra crianças ocorrida no espaço doméstico. Tudo começa quando uma menina de sete anos, de costas para o espectador, conversa com duas mulheres (diretora e professora) sobre o que lhe acontecera. Afinal, chegara machucada à escola. Ela será estimulada a desenhar o que teria acontecido. Os desenhos acabarão por revelar a trágica situação. No letreiro final do filme, somos informados de que a “atriz” que interpreta a garotinha, foi devidamente acompanhada pela mãe e não viu os desenhos, nem presenciou nada que pudesse prejudicá-la. No debate do curta, porém, uma senhora, que assistira ao filme, questionou a diretora. Por que utilizar pergunta, atribuída à criança, que teria indagado “mas não é isso que um pai faz ao brincar com as filhas?” Afinal — argumentou a espectadora — a tal “brincadeira” paterna seria algo abominável, monstruoso.
UM GRÃO AUSENTE – Nas rodas de conversas, muitos se perguntam, intrigados, por que o curta gaúcho “Grão”, de Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa, vencedor de quatro troféus Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul (incluindo melhor filme), foi excluído da competição brasileira. Afinal, por suas ousadias estéticas e relevância temática, ele vem chamando atenção por onde passa (foi assim em Tiradentes, Vitória etc.). A primeira hipótese se prendeu à sua duração (24 minutos). Que não se sustenta, pois Gramado, ao contrário de festivais que só aceitam curtas de até 15 minutos, não impõe tal limite. Vide “Shibal” e “Graxa”, ambos acima dos 20 minutos. Surgiu, pois, outra hipótese: a incômoda ousadia dos funks compostos com versos eróticos (em diálogo estreito com a pornografia) ouvidos pelo protagonista Leandro em seu carro modelo 2028. Terá sido esse o motivo real? Registre-se aqui que Gramado segue em sintonia fina com emissoras de TV, que transmitem sua cerimônia de encerramento (o Canal Brasil, no próximo sábado) e suas mostras de curtas gaúchos (TV Educativa RS e TV Assembleia). Em horário nobre. Não nas madrugadas. Infelizmente, a relação de outros festivais brasileiros com emissoras de televisão são muito limitadas. Ou inexistentes.
