Gramado entrega seus primeiros prêmios ao longa gaúcho “Filhas da Lua” e ao curta paulistano “Shibal”
Foto: Premiados dos curtas-metragens brasileiros e longas gaúchos © Cleiton Thiele/Ag.Pressphoto
Por Maria do Rosário Caetano, de Gramado (RS)
Não havia na competição brasileira de curtas-metragens dessa quinquagésima-quarta edição do Festival de Cinema de Gramado nenhum filme capaz de causar arrebatamento.
Não se viu nada que se aproximasse do que ocorrera com “Ilha das Flores”, de Jorge Furtado, aplaudido de pé por dez minutos (quase quatro décadas atrás).
Algo como se veria, também, em outros festivais com “Amassa que Elas Gostam”, de Fernando Coster, e “Recife Frio”, de Kleber Mendonça Filho, no Festival de Brasília. E, nos últimos nove meses, com “A Arte de Morrer ou Marta Díptero Braquícero”, de Rodolpho de Barros, no Festival Aruanda, e “Os Arcos Dourados de Olinda”, de Douglas Henrique, na última edição do É Tudo Verdade.
Por não haver, em Gramado 2026, nenhum curta-metragem capaz de levantar o público e arrebatar a crítica, o júri oficial (composto com os atores Gabriela Loran, Ícaro Silva e Marcus Veras, e os cineastas Eva Pereira e Leonardo Martinelli) apostou no distributivismo. Promoveu verdadeira reforma agrária de troféus. Dos doze concorrentes, dez foram premiados. Mas só um deles — “Pão Doce”, de Wesley Gabriel — somou duas láureas (melhor ator para Francisco Gaspar e melhor direção).
O principal vencedor, o paulistano “Shibal”, de João Rúbio Rubinato, conquistou o prêmio máximo. E só. Não teve nenhuma outra categoria técnica ou artística reconhecida.
Em ritmo acelerado, “Shibal”— cuja tradução do coreano significa “foda-se” — submete um designer (Tavinho Teixeira) a uma verdadeira via-crucis. Sua missão consiste em entregar placa decorativa a restaurante coreano-paulistano. Porém, muitos aproveitadores (ladrões e estafadores) cruzarão seus tortuosos caminhos. O pacato cidadão será esmagado (ou melhor, triturado) pela loucura da caótica metrópole bandeirante.
Três curtas — o paulistano “Mulher Papaya”, o mato-grossense “Divino, sua Alma, sua Lente”, e o carioca “Revelação” — alcançaram dois troféus, mas com a contribuição de júris complementares. O primeiro foi o escolhido da Crítica, o segundo do Júri Popular e o terceiro do Canal Brasil.
Os curtas “Maior que a Casa Toda”, vindo de Rondônia, e “As Gêmeas”, do Rio de Janeiro, passaram em branco junto aos júris oficial e paralelos. Dessa vez, o rondoniense Fabiano Barros regressará à Amazônia sem Kikitos (poucos anos atrás, ele emplacou três troféus dourados com “Ela Não Mora Mais Aqui“). Seu projeto de “cinema edificante” não agradou aos jurados. O mesmo se pode dizer do filme de estreia de uma “estranha no ninho”, a delegada de polícia (e agora cineasta) Vanessa Aguiar. O debate de seu filme (“As Gêmeas”) assemelhou-se a uma conversa jurídico-policial.
A cerimônia de premiação dos Curtas Brasileiros e dos Longas Gaúchos foi longuíssima. Cada curta-metragista subia ao palco com significativa entourage e todos (todos!) queriam falar, agradecer aos pais e enumerar nomes de dezenas de outros parentes. E citar uma infinidade de integrantes da equipe técnica. Para desespero do público, dos jornalistas e dos profissionais de cinema (todos cientes de que a cozinha dos restaurantes de Gramado fecham às 22h30). Dormir com fome, no charmoso município da Serra Gaúcha, continua sendo risco certeiro. Pelo menos para os que assistem a todos os filmes, acompanham todos os debates e prestigiam todas as cerimônias, sejam de prêmios-homenagens e/ou troféus Kikito.
O comando de Gramado faz o que pode para conter discursos desmedidos e redundantes. Disponibiliza vistoso relógio eletrônico aos prolixos. Tal relógio oferta a cada equipe dois minutos. Mas, em tempos internéticos (a cerimônia é transmitida pelo YouTube), todo mundo quer desfrutar de seus “15 minutos de fama”.

A penúltima noite do Festival de Gramado começou com a entrega do Troféu Oscarito à atriz Andrea Beltrão. Imobilizada por cirurgia no pé esquerdo, ela não pôde estar em Gramado. Mas seu companheiro, o cineasta Maurício Farias, gravou substantivo agradecimento improvisado, com humor e simpatia, pela laureada. E enriquecido com imagens do próprio Oscarito e de alguns dos atores que trabalharam com ele, como Violeta Ferraz, José Lewgoy, Ankito e Consuelo Leandro. A estrela da comédia e do drama até realizou exercício de estilo: comparou a ida de pessoa comum à feira para comprar maçãs. E a ida, por exemplo, dela, que é atriz. O público se divertiu com o resultado!
Depois, a plateia que lotava o Palácio dos Festivais assistiu ao longa-metragem “La Perra” (“A Cadela” ou “A Cachorra”), da chilena Dominga Sotomayor, produzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira. Com Selton Mello no elenco e um hit-chiclete (“Aguenta Coração”, de José Augusto) na trilha diegética. Os chilenos conhecem o hit de José Augusto por causa da novela “Barriga de Aluguel”, que alcançou imenso sucesso popular no Chile.
“La Perra” disputa com “El Deshielo” (O Degelo), de Manuela Martelli, a vaga de representante do Chile no Oscar internacional. A Academia Chilena de Cinema decidirá em breve qual título será indicado para buscar o terceiro Oscar do país (já laureado com o longa “Uma Mulher Fantástica” e com o curta “História de um Urso”).
Depois da sessão do belo e complexo “La Perra” — magnificamente fotografado pelo italiano Simone D’Arcangelo, assistente de Vittorio Storaro e diretor de fotografia de “Los Colonos”—, o público assistiu à entrega dos Troféus Iecine (Instituto de Cinema do Rio Grande do Sul) aos melhores longas-metragens gaúchos.
Dos cinco concorrentes, três foram laureados. O vencedor, “Filhas da Lua”, de Tatiana Sager, somou três troféus. Trata-se de documentário que acompanha a vida de quatro travestis, egressas do sistema prisional, em busca de luz e brilho para, metaforicamente, afastar-se dos anos de escuridão.
Seu principal concorrente, “A História Mais Triste do Mundo”, de Hique Montanari, recebeu o dobro de láureas, seis (melhor direção, ator para Arthur Seidel, roteiro (Hique Montanari), fotografia (Juarez Pavelak), trilha musical (João Vitor Costa Dias) e desenho de som (Gabriela Bervian).
O terror “Remanente – Voltagem”, de Kapel Furman, foi premiado com o Kikito-Iecine de melhor atriz (Áurea Baptista) e direção de arte (Tiago Retamal).
Dois documentários, “Morro da Cruz” e “Meu Famoso Pai Desconhecido”, não foram premiados. No palco do Palácio dos Festivais, os laureados gaúchos mostraram-se, em seus agradecimentos, mais contidos que os curta-metragistas (exceção para o montador Gabriel Sager Rodrigues, falante como ele só).
A turma do curtas vindos de todos os Brasis, obrigada ao exercício da síntese em suas narrativas de reduzida duração, falou como legítimos homens-da-cobra, aqueles que, em praças públicas, tentam vender remédios milagrosos.
Por fim, informação que não quer (nem pode) calar: os cineastas Gianlucca Cozza e Leonardo da Rosa, do poderoso e necessário “Grão”, não efetuaram a inscrição desse filme, fecho de uma “trilogia do precariado”, na competição nacional.
Por que fizeram isso? Afinal, tinham chances de receber grande reconhecimento (como ocorrera na competição gaúcha).
Por razão técnica: “Grão” dura 24 minutos e o regulamento de Gramado só aceita curtas de até 20 minutos. Quem, porém, observou atentamente o catálogo do evento percebeu que três filmes ultrapassaram a marca dos 20 minutos (“Shibal”, “Divino” e “Graxa e o Zepelin”).
Na noite desse sábado, 22 de agosto, com transmissão ao vivo pelo Canal Brasil, Gramado apresentará os vencedores de suas categorias nobres — os melhores longas de ficção e os melhores documentários. Com a promessa de que realizará festa com enxutos 120 minutos de duração. Será?
Confira os premiados:
CURTAS BRASILEIROS
. “Shibal”, de João Rúbio Rubinato (SP) – melhor filme
. “Pão Doce”, de Wesley Gabriel Silva Santos (SP) – melhor direção, melhor ator (Francisco Gaspar)
. “ Mulher Papaya”, de Camila Tarifa (SP): melhor roteiro (Camila Tarifa), Prêmio da Crítica (Abraccine)
. “Divino, sua Alma, sua Lente”, de Gilson Costa e Thamires Coelho, codireção de Divino Tserewahú (MT) – melhor montagem (Gilson Costa e Thamires Coelho ) e Prêmio do Júri Popular
. “Revelação”, de Gabriela I. Gaia (RJ) – Prêmio Especial do Júri, Prêmio Canal Brasil
. “Um Passeio”, de Thales Cabral e Fernanda Rocha (SP) – melhor atriz (Chris Couto)
. “Pique-Pega”, de Mia Lima Rocha (RJ) – melhor fotografia (Felipe Ovelha)
. “Graxa e o Zepelin”, de Camilo Soares (PE) – melhor trilha musical: Ângelo de Souza
. “A Menina que Queria Ser Pedra”, de Jackson Abacatu (MG) – melhor direção de arte (Jackson Abacatu)
. “Fúrias”, de Nica Maleoa (RS) – melhor desenho de som (Marcos Lopes)
LONGAS-METRAGENS GAÚCHOS
. “Filhas da Lua”, de Tatiana Sager – melhor filme, montagem (Gabriel Sager), Júri Popular
. “A História Mais Triste do Mundo”, de Hique Montanari – melhor direção, melhor ator (Arthur Seidel), roteiro (Hique Montanari), fotografia (Juarez Pavelak), trilha musical (João Vitor Costa Dias), desenho de som (Gabriela Bervian)
. “Remanente – Voltagem”, de Kapel Furman – melhor atriz (Áurea Baptista), direção de arte (Tiago Retamal)
