Gramado festeja o cinema de artistas negros e divide seus principais troféus Kikito entre “Nosso Segredo” e ”Feito Pipa”

Foto: Premiados do 54º Festival de Cinema de Gramado © Edison Vara/Ag.Pressphoto

Por Maria do Rosário Caetano, de Gramado (RS)

A noite de entrega dos troféus Kikito foi marcada pela concisão e por discursos inspirados. O júri convocado pela quinquagésima-quarta edição do Festival de Cinema de Gramado apostou, convicto, nos filmes mais autorais e arriscados — “Nosso Segredo”, da mineira Grace Passô, “Feito Pipa”, do cearense Allan Deberton, e “Leite em Pó”, do paulista, radicado no Rio Grande do Norte, Carlos Segundo.

Sem ignorar as produções de narrativa clássica, aquelas que buscam diálogo com o grande público. Caso de “Justino – Nos Bastidores do Reino”, de José Eduardo Belmonte, e “Chorão: Só os Loucos Sabem”, de Hugo Prata e Felipe Novaes.

Os jurados — os atores Cris Vianna, Helena Ranaldi e Marcelo Serrado, a professora universitária Kênia Freitas e o cineasta Fábio Meira — praticaram discreto distributivismo. Os seis concorrentes foram laureados. O recordista de Kikitos (“Feito Pipa”) somou três troféus do júri oficial, incluindo direção e melhor atriz (para a veterana Teca Perreira), uma menção honrosa para o infante Yuri Gomes e o júri popular.

O grande vencedor da noite — o inquieto e disruptivo “Nosso Segredo”, reinvenção da peça teatral “Amores Surdos”, da realizadora Grace Passô — somou três Kikitos (melhor filme, fotografia e direção de arte).

“Leite em Pó”, de Carlos Segundo, protagonizado por Vinícius de Oliveira, além do prêmio da Crítica, recebeu reconhecimento por seu roteiro e desenho de som.

O prêmio de melhor ator foi dividido entre o franco favorito, José Loreto, e Christian Malheiros, intérprete do pastor Justino, dissidente que enfrentou, ruidosamente, a igreja neopentecostal do Campo Divino (nome fictício para a Igreja Universal).

Loreto entregou-se, de corpo e alma, ao protagonista de “Só os Loucos Sabem”, o cantor e compositor de rock pesado, Chorão, da banda Charles Brown Jr. Exalando alegria, ele fez o agradecimento mais emocionante (e empolgado) da noite. E somou-se, assim, a Naruna Costa, melhor atriz coadjuvante por “Pele de Rinoceronte”. Coube a ela proferir os mais original, articulado e paradigmático dos sintéticos discurso da noite festivaleira.

O intérprete de Chorão, “o marginal alado”, já havia causado frisson, dias antes, no tapete vermelho (ao lado da namorada e parceira no filme, Nanda Marques). E durante o debate, no qual falou o que quis (“não sou gaveta para guardar segredo”).

Lázaro Ramos, Melhor Ator Coadjuvante por “Feito Pipa”, José Loreto, Melhor Ator por “Chorão: Só os Loucos Sabem”, e Christian Malheiros, Melhor Ator por “Justino – Nos Bastidores do Reino” © Cleiton Thiele/Ag.Pressphoto

Loreto fez questão de repetir sua postura espontânea e descontraída no palco. E sempre valorizando seu Kikito dourado, colocado na altura do coração. Depois de expressar sua imensa alegria pelo recebimento do troféu, o ator contou que o santo dele batera com o de Chorão. E, mais, relembrou que os diretores do filme não queriam, de jeito nenhum, que ele namorasse Nanda Marques, sua esposa na ficção.

“Não teve jeito, nosso namoro proibido aconteceu”. Olhando para os diretores Prata e Novaes, o ator reafirmou, “No way, baby!” (sem chance, querido!). E continuou: “Fátima Toledo (a coach mais temida do Brasil) tirou o capeta que eu trazia dentro de mim”. Dedicou o prêmio à filha, de 8 anos (de seu casamento com a atriz Débora Nascimento) e lembrou seus bem-vividos 42 anos. Sorriu mais um sorriso largo e feliz. Por fim, evocou Chorão, que partiu cedo, mas “teve — como era seu desejo — sua vida contada em livro e, agora em filme”.

Christian Malheiros, de 27 anos, confessou que não esperava o prêmio. Estava surpreso e muito feliz. Agradeceu ao diretor José Eduardo Belmonte e avisou que filmar com ele (trabalharam juntos no ainda inédito “Assalto à Brasileira”) será sua prioridade.

Naruna Costa, atriz e cantora de 43 anos, é o que “Pele de Rinoceronte”, filme que peca por evidente didatismo, tem de melhor. Ela, que brilhou na pele de uma combativa advogada, arrasou no palco do Palácio dos Festivais.

Não usou celular, nem papel para ler seu agradecimento. O texto, brilhante e emotivo, chegou inteiro, como se fizesse parte de um espetáculo teatral. A atriz lembrou, com a fluidez de um rio tranquilo, “o pai mineiro, a mãe alagoana, a infância pobre”. Lembrou, também, seu desejo de, um dia, realizar uma “boa vingança”. Ou seja, evocar mulheres vítimas de feminicídio (tema de “Pele de Rinoceronte”, inspirado no assassinato de Angela Diniz) com seu trabalho artístico. Evocou, por fim, seus santos protetores e suas antecessoras afro-brasileiras na arte da representação. Em especial, Ruth de Souza e Léa Garcia.

Lázaro Ramos, o melhor ator coadjuvante (por “Feito Pipa”) caprichou no figurino. Usou um terno branco, enfeitado com vistosa representação de uma pipa. Ponderou que seu personagem — pai do protagonista (o menino Yuri Gomes, baiano como ele e originário do Bando Olodum) — foge dos tipos catárticos, que gritam e acontecem. “Meu personagem atua em outro lugar, é contido”. Destacou os contagiantes encontros com Teca Pereira, com o menino Yuri, com Allan Deberton e a alegria de atuar num filme de gente preta, que aborda a homossexualidade, as dificuldades da vida em família e o Alzheimer.

Equipe de “Nosso Segredo”, de Grace Passô © Cleiton Thiele/Ag.Pressphoto

Grace Passô, que preferiu não atuar em “Nosso Segredo” (embora tenha interpretado a protagonista de sua peça nos palcos por longos dez anos), desdobrou-se em carinhos com seu pequeno protagonista, o menininho Efraim Santos. Ao ver seu primeiro longa-metragem conquistar o Kikito de melhor filme, a diretora, “emocionada, feliz e honrada”, destacou “a força coletiva” do projeto. E convidou o público a prestigiar o detentor do Kikito, que chega aos cinemas nessa quinta-feira, 27 de agosto, dentro da Sessão Vitrine Petrobras.

No campo do longa documental, o vencedor foi “Gonzaguinha, da Maior Liberdade”, da carioca Susanna Lira. Uma emotiva e politizada cinebiografia de Luiz Gonzaga Jr. (1945-1991), morto aos 46 anos, num acidente de carro. Este filme compunha dupla de favoritos com “O Projeto”, produção suíço-brasileira, dirigida por Sabrina Fidalgo e Yvan Rodic. Uma investigação sobre “o projeto colonial europeu e a supremacia branca do Norte sobre o Sul Global”.

O júri, formado com os atores Bárbara Paz e Caco Ciocler, e com o compositor (“Sangue Latino”, sucesso dos Secos & Molhados), preferiu “Empeleitada”, criação de Micaela Xukuru, Chico Laudemir e Sergio Borges. O trio acompanha a construção coletiva de uma casa de taipa por integrantes da comunidade Xukuru Orurobá, da pernambucana Pesqueira.

Registro final: o comando do Festival de Gramado fez sua festa de premiação mais simples, eficiente e sintética (menos de duas horas). No centro de tudo, o cinema e seus artífices. Palco limpo e “Kikitofone” (neologismo criado pelo apresentador Roger Lerina) à disposição dos laureados. Que muito ajudaram com seus discursos claros e sintéticos.

A noite dos longas-metragens foi em tudo oposta à dos curtas, cujos diretores (e imensas equipes) falaram pelos cotovelos. E enfileiraram monótonos agradecimentos a infinitos familiares, amigos e técnicos.

Um dia haverá (torçamos) em que o sintético e emocionante discurso da atriz Naruna Costa servirá de paradigma para essa moçada prolixa. Um dia em que os curta-metragistas farão da síntese e da busca de ideias instigantes suas matérias-primas.

Confira os vencedores:

. “Nosso Segredo”, de Grace Passô (MG) – melhor filme, fotografia (Wilssa Esser), direção de arte (Lucas Osório)
. “Feito Pipa”, de Allan Deberton (CE) – melhor direção, atriz (Teca Pereira), ator coadjuvante (Lázaro Ramos), Júri Popular, menção honrosa (Yuri Gomes)
. “Leite em Pó”, de Carlos Segundo (RN-SP) – Prêmio da Crítica (Accirs-Abraccine), melhor roteiro (Carlos Segundo e Rafael Copel), desenho de som (Waldir Xavier),
. “Justino, Nos Bastidores do Reino”, de José Eduardo Belmonte (SP-DF) – melhor ator (Christian Malheiro), montagem (Ivan Finotti e José Eduardo Belmonte), menção honrosa para Onna Silva
. “Chorão, Só os Loucos Sabem”, de Hugo Prata e Felipe Novaes (SP) – melhor ator (José Loreto), trilha musical original (Otávio de Moraes)
. “Pele de Rinoceronte”, de Marcello Ludwig Maia (RJ) – melhor atriz coadjuvante (Naruna Costa)
. “Gonzaguinha, da Maior Liberdade”, de Susanna Lira (RJ) – melhor filme documental
. “Empeleitada”, de Micaele Xukuru, Chico Laudemir e Sergio Borges (PE) – menção honrosa

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