Artigos Televisão — 10 julho 2015

As séries existem desde o cinema mudo, desde a primeira fornada de “Os Perigos de Paulina”, de 1914, e eram denominadas seriados. A heroína Paulina reapareceu em 1933, em uma versão falada da Universal Pictures, que teve seus episódios exibidos nos cinemas do Brasil até o final dos anos 1940. Os primeiros filmes que vi, na minha infância, nas matinês, eram precedidos pelo capítulo de um seriado feito em Hollywood, que terminava com um gancho para o próximo capítulo e o letreiro “voltem na próxima semana”. Lembro-me da ficção científica “Flash Gordon” (e de seu inimigo Ming, rei do planeta Mongo) e de “A Deusa de Joba”, que misturava domadores de circo, contrabandistas de diamantes e bruxaria.

Muitos seriados foram produzidos pela Universal e pela Republic Serial, entre 1930 e 1950, e alguns deles estão disponíveis em DVDs para colecionadores ou na internet. No Brasil, o formato só apareceu na televisão nos anos 1960, com “O Vigilante Rodoviário”, da TV Tupi. Com o advento da TV, os seriados abandonaram as salas de cinema e adotaram a nova mídia, onde enfrentaram durante décadas a concorrência das telenovelas, gênero melodramático inventado pelo cubano Félix Caignet (“O Direito de Nascer”) que se multiplicou nas soap operas dos EUA, nos culebrones do mundo hispânico e nos folhetins eletrônicos brasileiros. Uma longa disputa de audiência que ainda está vigente, agora com a diferença de que as séries estão tomando a dianteira.

Arte e indústria

No movimento dessa onda, que a crítica considera “a era de ouro das séries” e que tomou impulso a partir de 2008 nos EUA, foram desenhadas ou redesenhadas as modalidades do formato: minisséries fechadas, sem abertura para continuações; séries por episódios, sem compromisso com a continuação das histórias em episódios subsequentes; séries por capítulos, onde as histórias são desenvolvidas em dois ou mais capítulos e que também podem ser retomadas em capítulos futuros, e outras estruturas que estão aparecendo (o formato está em efervescência).

A unidade das obras seriadas é costurada através dos personagens, do mesmo grupo de personagens atuando em todos os capítulos ou episódios. Antes também se utilizava o tema, e não os personagens, como unidade de ação, uma estratégia que praticamente não é mais usada. O que temos, majoritariamente, nas séries de grande audiência, são grupos de policiais, espiões, advogados, médicos, caçadores de tesouros ou outros heróis ou aventureiros, com destaque para um ou dois líderes dos grupos e para o antagonismo, geralmente, encarnado por criminosos, bandidos, doentes etc.

Em outra vertente, há séries com outros perfis de personagens e situações, realizadas em vários países (comédias e dramas políticos, adolescência, ficção científica, fantasia, mediunidade, novas famílias). Na programação da TV por assinatura no Brasil, além das séries dos EUA, podem ser encontradas brasileiras, francesas, alemãs, japonesas. A tendência da onda é crescer nos próximos anos, com a entrada no negócio de produtoras/distribuidoras como Amazon, Playstation, Hulu, que prometem lançar uns trinta títulos até 2016, e o crescimento da produção da Netflix, que está anunciando setenta novos lançamentos até o final do próximo ano.

Trata-se de um formato de grande complexidade, tanto dramatúrgica (boa caracterização dos personagens, desenvolvimento deles ao longo do tempo, histórias com alto grau de expectativa) como na manutenção de uma coerência temática e visual em todos os capítulos de cada temporada e em todas as temporadas. Essa coerência só pode ser alcançada com um trabalho de colaboração minuciosa e orientada das áreas de roteiro, direção e produção.

Poderoso chefão

Nas artes de criação coletiva, como as artes cênicas e audiovisuais, sabemos que um dos vários autores da obra assume a liderança do processo: no teatro é o ator, no cinema é o diretor, na TV é o roteirista. A mencionada complexidade na realização das séries atuais exigiu que a locomotiva de cada uma delas fosse um roteirista que pudesse ir além das suas funções e surgiu o showrunner, uma palavra nova, possivelmente desconhecida para boa parte dos leitores, já que não aparece nos créditos (é creditado como “produtor executivo”) e ainda circula apenas entre os profissionais do ramo.

De uma maneira geral, e até etimologicamente, o showrunner é a pessoa que cria as condições para que o axioma do entretenimento “o espetáculo não pode parar” seja cumprido. Na prática, é o roteirista básico da série (às vezes também o criador da série), que comanda o grupo de roteiristas que trabalha nela, escolhe os atores e diretores, informa ao produtor geral ou à empresa quais são as necessidades de produção. É o responsável maior por tudo que diga respeito à série: qualidade artística, coerência vertical e horizontal em toda a temporada e nas que virão, recursos de produção. E as providências quanto ao fluxo da programação, a pedra de toque da atividade televisiva. Não escreve todos os capítulos e sim determina o que os outros roteiristas devem escrever. Não dirige as cenas e sim instrui os diretores sobre como devem dirigir e comanda a equipe de produção.

Essa centralização, que responde à necessidade de harmonia, conjunção, equilíbrio, verossimilhança e credibilidade das serializações, principalmente, das longas séries da atualidade, é a função mais abrangente na história das narrativas audiovisuais. E a de maior poder. Tem-se notícia que também é muito estressante, tanto que são raros os showrunners que aguentam tocar mais de três ou quatro temporadas, provocando um constante rodízio entre esses novos semideuses da TV. Estamos diante de um forte indício de que a revolução digital está desconstruindo e reconstruindo, além das linguagens audiovisuais, as funções tradicionais dos seus criadores e trabalhadores. Novas linguagens, novos tempos, novas relações laborais.

 

Por Orlando Senna

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