“Os Arrependidos” registra depoimentos de guerrilheiros que foram à TV renegar a luta armada
Filha e companheira de Manuel Henrique Ferreira

Por Maria do Rosário Caetano

“Os Arrependidos”, quinto longa-metragem de Ricardo Calil, dessa vez com novo parceiro, o jornalista Armando Antenore, é uma das produções que disputam o prêmio de melhor documentário brasileiro no Festival É Tudo Verdade. O filme pode ser visto on-line, e gratuitamente, na noite dessa quinta-feira, 15, ou em reprise nessa sexta, à tarde.

Ricardo Calil, em parceria com Renato Terra, assinou, em 2010, um sedutor mergulho na era dos festivais da canção. “Uma Noite em 67” fez sucesso de público e de crítica. Depois, a dupla realizou documentário que chegou em hora errada. Com a onda feminista ganhando novo e vigoroso impacto, Calil e Terra deram generoso (e pouco crítico) espaço ao cafajeste assumido Carlos Imperial (“Eu Sou Imperial”).

Com o terceiro filme, “Cine Marrocos”, sua única experiência solo, Calil venceu, com todo merecimento, o É Tudo Verdade, em 2019. Cinema, cinefilia e encenação teatral se somaram a questão incontornável, a carência de moradias (seus “personagens” são os Sem-Teto que ocuparam o interior da famosa e luxuosa sala da Cinelândia paulistana). “Cine Marrocos” é um dos grandes momentos do documentário contemporâneo brasileiro (segue inédito por causa da pandemia).

De volta à parceria com Renato Terra, Calil assinou “Narciso em Férias”, despojado e potente documentário sobre as semanas de encarceramento político vividas pelo cantor e compositor Caetano Veloso. O filme teve no Festival de Veneza sua primeira e poderosa vitrine.

“Os Arrependidos” situa-se em tempos ditatoriais, os mesmos vividos pelo “Narciso em Férias”. Seus protagonistas são jovens guerrilheiros urbanos (que as autoridades definiam como “terroristas”, vocábulo adotado, sob coação, pelos arrependidos). O mais jovem tinha 19 anos. Os mais velhos, 22 ou 23. Eles se ligaram a grupos que optaram pela luta armada como forma de combate ao poder militar, triunfante em 1964 e que, a partir do AI-5 (dezembro 1968), adotaria apavorante endurecimento.

Centenas de jovens guerrilheiros urbanos foram encarcerados. Quarenta deles aceitaram acordo com o aparelho repressivo e se dispuseram a renegar a opção política (pela luta armada) em depoimentos exibidos em telejornais de grande audiência. Registros audiovisuais dos autos de arrependimento constituem a força máxima do filme de Calil e Antenore. Mas os dois realizadores não se restringem a apresentar estes momentos de contrição.

Como Luis Fernando Verissimo, eles se mostram fieis devotos de Nossa Senhora do Contexto. Vão atrás do Brasil de 1970, quando os autos de arrependimento tornaram-se mais frequentes. E o fazem com imagens, não com falatórios vindos de terceiros. Tudo é dito (ou melhor mostrado) pela publicidade oficial, aquela que propunha aos brasileiros que fizessem cataventos verde-amarelos para celebrações cívicas, que os jovens se integrassem à sociedade de forma saudável, que as crianças (uma toca hino em gaita) fossem educadas para servir à Pátria e soubessem que “o nacionalismo é um conjunto de ideias” capaz de possibilitar “o fortalecimento de nossas riquezas”, nesse que é um país que vai pra frente”.

A narrativa se enriquece ao apresentar trecho de um dos dois documentários que Chris Marker (1921-2012) realizou sobre o Brasil ditatorial – “On vous Parle du Brésil: Carlos Marighella”.

“Os Arrependidos” conseguiu – tarefa das mais difíceis – que cinco militantes “arrependidos”, hoje cidadãos septuagenários, revissem aqueles momentos dolorosos do passado. Ideia seminal de Eduardo Coutinho (1933-2014) alimentou Calil e Antenore e, decerto, serviu de garantia aos participantes de que não seriam alvo de filme sensacionalista – “Entender a razão do outro, sem necessariamente lhe dar razão”. O criador da “dramaturgia do ouvir” era mesmo um sábio.

Estão no filme os “arrependidos” Rômulo Romero Fontes, Marcus Vinícius Fernandes (que conta com reconfortante ajuda da irmã, Márcia), Marcos Alberto Martini, Gustavo Guimarães Barbosa e Celso Lungaretti. Manuel Henrique Ferreira, que morreu em 2014, se faz presente pela voz da companheira Graça Lago e da filha (dele). Num dos mais tocantes momentos do filme, as duas leem carta por ele encaminhada, do cárcere, a Dom Paulo Evaristo Arns.

A “presença” mais notável (e trágica) no filme é a do nipo-brasileiro Massafumi Yoshinaga. Ele foi capa da Veja, em 15 de julho de 1970. Sua bela estampa (lembra o ator John Lone) se faz acompanhar de manchete sintética: “O Terror Renegado”. Este, aliás, é o nome do livro da historiadora Alessandra Gasparotto, fruto de dissertação de mestrado (“A Retratação Pública de Integrantes de Organizações de Resistência à Ditadura Civil-Militar no Brasil – 1970-1975)”, defendida na UFRGS, em 2008. O livro deu embasamento ao filme de Calil e Antenore.

Curioso que a mídia tenha eleito o mais jovem dos “arrependidos” (Massafumi Yoshinaga) como “estrela” da campanha governamental de “combate ao terrorismo”. O fato de ter traços japoneses deve ter ajudado. Depoimento dele à TV, em seu ato de contrição, também, foi notável (do ponto de vista do poder ditatorial, claro). Ao texto, que era ensaiado antes, Massafumi deu toque especial. Definiu o Capitão Lamarca, que trocara as Forças Armadas pela guerrilha, como “um homem a serviço de terceiros”. Alertou aos jovens para que não entrassem naquela “aventura estúpida”, pois aquilo era “um terrorismo primário e fanático”.

O jovem Massa (seu apelido) é visto passeando pelo Monumento às Bandeiras, de Brecheret, o famoso “Deixa que eu empurro” e no ambiente doméstico em documentário alemão. Sua exposição foi imensa, midiática. Seu fim, o mais terrível de todos. Aguardem as cartelas finais, que enunciarão o destino de cada um dos sete “personagens” da sintética (apenas 74 minutos) narrativa de Calil e Antenore.

Dez outros participantes dos atos de arrependimento”, localizados pela equipe do filme, não quiseram revisitar o passado. Argumentaram que “a lembrança do episódio é, ainda, muito dolorosa”.

Duas curiosidades reveladoras do documentário merecem destaque: um dos “arrependidos” integrou a equipe de vespertino paulistano e, depois, criou seu próprio jornal, veículo propagador de ideias integralistas. Foi o único que partiu da extrema esquerda para a extrema direita. Na pactuação dos “atos de arrependimento” as forças repressivas se propunham a encaminhar os jovens ao mercado de trabalho. A Folha da Tarde, o vespertino do Grupo Folha, foi o principal parceiro dos militares na ocupação laborial dos rapazes.

 

Os Arrependidos
Brasil, 74 minutos, 2021
Direção: Ricardo Calil e Armando Antenore
Fotografia: Carol Quintanilha e Loiro Cunha
Montagem: Jordana Berg
Exibição: 15/04, às 21h. Reprise, na sexta, às 15h. Em seguida (17h) haverá debate com os diretores no YouTube do Festival É Tudo Verdade

 

FILMOGRAFIA

Ricardo Calil (São Caetano do Sul/SP – 23/09/1973)

2010 – “Uma Noite em 67” (com Renato Terra)
2015 – “Eu Sou Carlos Imperial”(com Renato Terra)
2019 – “Cine Marrocos” (direção solo)
2020 – “Narciso em Férias” (com Renato Terra)
2021 – “Os Arrependidos” (com Armando Antenore)

Armando Antenore (São Paulo – 20/08/1966)

. 2021 – “Os Arrependidos” (com Ricardo Calil)

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  1. Como fazemos para assistir esses filmes?

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