“Carro Rei” é o vencedor de Gramado
“Carro Rei”, de Renata Pinheiro

Por Maria do Rosário Caetano

O principal prêmio da quadragésima-nona edição do Festival de Cinema Gramado coube, como no ano passado, ao efervescente cinema pernambucano. “Carro Rei”, uma ficção científica do Terceiro Mundo, dirigida por Renata Pinheiro, conquistou o Kikito de melhor filme. Ano passado, o vencedor fora “King Kong en Asunción”, do recifense Camilo Cavalcante.

“Carro Rei” ganhou mais quatro troféus – um especial para o ator Matheus Nachtergaele, notável na pele simiesca do mecânico Zé Macaco, trilha sonora, do craque DJ Dolores, direção de arte e desenho de som.

O júri, que contou com o escritor e cineasta Tabajara Ruas e os atores Carol Castro e Fabrício Boliveira, foi dos mais distributivistas (houve vários prêmios especiais e honrosos). Só um dos sete concorrentes, “Álbum em Família”, do carioca Daniel Belmonte, acabou ignorado. E um dos melhores concorrentes da edição desse ano – “Homem Onça”, de Vinícius Reis – ganhou apenas um prêmio secundário (melhor atriz coadjuvante para Bianca Byington).

Não havia um franco favorito entre os longas brasileiros desse ano, como outrora ocorrera, por exemplo, com “Marvada Carne”, de André Klotzel, e recentemente com “Pacarrete”, de Allan Deberton. Tanto que o Prêmio da Crítica coube ao gaúcho “A Primeira Morte de Joana”, de Cristiane Oliveira, e o do Público, ao melodrama “Novelo”, de Cláudia Pinheiro.

Houve desencontro, também, em duas outras categorias (curta brasileiro e longa latino-americano). Na competição de filmes curtos, o documentário paraibano “A Fome de Lázaro”, de Diego Benevides, levou o principal Kikito. Reconhecimento merecidíssimo, pois Benevides é um bicho cinematográfico (assistam a seus curtas anteriores – “O Guardador” e “A Queima”). Ele realizou mais um filme de grande força poética e elaboração formal. Só não dá para entender o segundo Kikito atribuído a “Lázaro” – o de melhor direção de arte para Torquato Joel. Torquato é um grande artista e referência assumida do jovem realizador paraibano.

O documentário “A Fome de Lázaro”, realizado em Cachoeira dos Índios/Monteiros, no sertão da Paraíba, registra, com respeito e sutileza, inusitado ritual religioso – um farto banquete oferecido a cães, cujos restos são comidos pelos humanos.

Em tempos de hibridismos, apostas arriscadas muitas vezes justificam premiacões deste ou daquele título. Afinal, o documentário, em todo o mundo, dialoga cada vez mais com a ficção. As fronteiras se esboroam. Mesmo assim, vale perguntar: por que Torquato Joel não foi reconhecido como uma das fontes geradoras de “A Fome de Lázaro”? Ou como o grande andarilho que tem promovido oficinas criativas pelos mais distantes municípios do estado nordestino?

Atribuir ao diretor de “Transubstancial, o Poeta do Hediondo”, premiado anos atrás em Gramado, um Kikito de ‘diretor de arte’ em documentário tão despojado de artifícios soa, realmente, muito estranho. Torquato até revelou seu espanto nas redes sociais. Mas, feliz, agradeceu ao Kikito, que guardará com carinho na estante e que chega como mais um reconhecimento ao bom momento vivido pelo cinema paraibano.

O melhor longa latino-americano – o uruguaio “A Teoria dos Vidros Quebrados”, de Diego Fernández Pujol – ficaria muito bem com o reconhecimento do Júri Popular. Mas o júri oficial, que contou com a participação da atriz Ítala Nandi, preferiu deixar o chileno “Gran Avenida” a ver navios. Para não causar decepção ainda maior, o júri atribuiu a outro filme com qualidades superiores às de “Vidros Quebrados” – o argentino “Planta Permanente” (Trabalho Estável”) – um Prêmio Especial. E a Crítica, por sua vez, também optou por este filme, um drama laboral, de corte kenloachiano, dirigido por Ezequiel Radusky.

A entrega dos troféus Kikito – que aconteceu, pela segunda vez, em festa virtual – foi em tudo oposta à última edição presencial do Festival de Gramado (2019, o ano de “Pacarrete”). Se naquele ano os protestos deram a tônica (houve até pedras de gelos e restos de comida arremessados por bolsonaristas em participantes de ato artístico-cultural), este ano os protestos foram mais contidos.

A cineasta Renata Pinheiro, criadora do “Carro-Rei”, mostrou um cartaz em defesa da Cinemateca Brasileira, antes de agradecer pelo Kikito conquistado: “Estamos passando por um momento difícil de destruição total do nosso setor. Setor que emprega tanta gente, que dá chance para tantos talentos brasileiros entenderem o que é se comunicar, o que é criar uma expressão artística, o que é ser brasileiro. Estão querendo destruir a gente”.

Além da diretora pernambucana, o único protesto explícito veio de Nica Fochesatto, presidenta da APTC-RS (Associação dos Produtores e Técnicos de Cinema do Rio Grande do Sul). Ela recebeu, junto com o Coletivo Myba Guarani e o Festival Nacional de Cinema Estudantil de Guaíba, o Prêmio “Novas Façanhas”, atribuído pelo Iecine (Instituto Estadual de Cinema).

Nica fez questão de imprimir, no cenário que ambientou sua fala digital, selo acompanhado da palavra de ordem “Fora Bolsonaro”. Ao encerrar seu agradecimento, ela reafirmou o mesmo clamor.

Vale lembrar que o Iecine marcou forte presença no Festival de Gramado e em sua festa de encerramento. E o fez com seu titular, o cineasta Zeka Brito, e com participação do governador Eduardo Leite, pré-candidato à presidência da República, e de sua secretária de Cultura, Beatriz Araujo. A ordem era valorizar o audiovisual espalhado por todo território riograndense. Por isso, a mostra de longas gaúchos tornou-se competitiva e produções foram premiadas com troféu e significativas quantias em dinheiro (infinitamente maiores que as da mostra nacional). O Iecine criou, também, o Prêmio Leonardo Machado (em memória do protagonista de “Legalidade”), que foi atribuído ao veterano ator Sirmar Antunes.

Alguns prêmios dos diversos júris merecem registro por terem feito justiça a profissionais realmente qualificados a recebê-los. O caso mais evidente é o do jovem fotógrafo gaúcho Bruno Polidoro, reconhecido nacional e regionalmente. Ele ganhou dois troféus de melhor direção de fotografia pelos longas “A Primeira Morte de Joana” e por “A Colméia” (este da Mostra Gaúcha).

Entre as injustiças, merecem registro os raros prêmios atribuídos a “Homem Onça”, em especial ao notável desempenho de seu protagonista Chico Diaz. E o excesso de reconhecimento a “Jesus Kid”, um prodígio em termos de produção, mas o menos bem-sucedido dos filmes do talentoso Aly Muritiba.

Se “Homem Onça” espantou os jurados com seu drama laboral em sutil diálogo com o cinema fantástico, o tom chanchadeiro de “Kid” caiu no gosto do quinteto avaliador. Vide os prêmios de melhor roteiro e melhor coadjuvante, este atribuído ao caricato ‘faz-tudo’ (Leandro Daniel) do hotel que ambienta essa sátira metalinguística engendrada por Lourenço Mutarelli e recriada pelo baiano-paranaense Aly Muritiba.

Por fim, uma questão: se a Mostra de Longas Gaúchos recebeu 24 inscrições, por que só três títulos (número ínfimo) foram selecionados? E, o mais espantoso, por que “A Primeira Morte de Joana”, exibido na competição nacional, não foi submetido à avaliação do júri riograndense? Afinal, o que se viu – somos obrigados a concluir – foi punição prévia ao filme selecionado para disputar o Kikito com produções brasileiras de todos os Brasis.

Confira os vencedores:

LONGA BRASILEIRO

. “Carro Rei” (PE) – melhor filme, prêmio especial ao ator Matheus Nachtergaele, trilha sonora (DJ Dolores), direção de arte (Karen Araújo), desenho de som (Guile Martins)

. “A Primeira Morte de Joana” (RS) – Prêmio da Crítica, melhor fotografia (Bruno Spolidoro), montagem (Tula Anagnostopoulos)

. “Novelo” (SP) – Júri Popular, ator (Nando Cunha), menção honrosa ao elenco juvenil (Fernando Lufer, Michel Gomes, Victor Alves, Kaike Pereira, Pedro Guilherme e Caio Patricio), menção honrosa à atriz Isabel Zuaa

. “A Primeira Morte de Joana” (RS) – Prêmio da Crítica, melhor fotografia (Bruno Polidoro), montagem (Tula Anagnostopoulos)

. “Jesus Kid” (PR) – melhor direção (Aly Muritiba), roteiro (Aly Muritiba), ator coadjuvante (Leandro Daniel Colombo)

. “A Suspeita” (RJ) – melhor atriz (Glória Pires)

. “Homem Onça” (RJ) – melhor atriz coadjuvante (Bianca Byington)

LONGA LATINO-AMERICANO

.“La Teoría de Los Vidrios Rotos” (Uruguai) – melhor filme pelo Júri Oficial e pelo Júri Popular

. “Planta Permanente” (Argentina) – Prêmio Especial do Júri e Prêmio da Crítica

LONGA GAÚCHO

. “Cavalo de Santo” – melhor filme pelo Júri Oficial e pelo Júri Popular, roteiro (Carlos Eduardo Caramez), trilha musical (Cânticos Sagrados dos Orixás preservados pelos Terreiros gaúchos e Alabê Oni)

. “A Colméia” – melhor direção (Gilson Vargas), ator (João Pedro Prates), fotografia (Bruno Polidoro), direção de arte (Gilka Vargas e Iara Noemi), desenho de som (Gabriela Bervian)

. “Extermínio” – melhor atriz (Luciana Renatha, Alexia Kobayashi e Veronica Challfom), montagem (Joana Bernardes e Mirela Kruel)

CURTAS BRASILEIROS

. “A Fome de Lázaro” (PB) – melhor filme, melhor direção de arte (Torquato Joel)

. “Entre Nós e o Mundo”(SP) – melhor direção (Fábio Rodrigo), Prêmio Especial do Júri, Prêmio da Crítica, montagem (Caroline Neves)

. “Fotos Privadas” (SP) – melhor ator (Lucas Galvino), roteiro (Marcelo Grabowsky, Aline Portugal e Manoela Sawitzki)

. Quanto Pesa” (MA) – melhor atriz (Tieta Macau), melhor desenho de som (Breno Nina)

. “Animais na Pista” (PB) – melhor fotografia (Rodolpho Barros), melhor trilha musical (Eli-Eri Moura)

. “A Beleza de Rose” (CE) – Prêmio Canal Brasil e menção especial do Júri Oficial

. “Desvirtude” (RS) – Júri popular

CURTAS GAÚCHOS

. “Desvirtude” – melhor filme, direção (Gautier Lee), atriz (Evelyn Santos), montagem (Gabriel Borges).

. “Eu Não Sou um Robô” – Prêmio da Crítica, melhor roteiro (Felipe Yurgel, Gabriela Lamas e Maurílio Almeida), fotografia (Lívia Pascoal), direção de arte (Gabriela Lamas)

. “Rufus” – melhor ator (Álvaro Rosacosta),

. “Noite Macabra” – melhor trilha sonora (Renan Franzen)

. “Um Dia de Primavera” – desenho de som (Kiko Ferraz e Christian Vaisz)

. “Era Uma Vez Uma Princesa” – melhor produção executiva (Álvaro Rosacosta, Carmen Fernandes, Fernanda Kern, Laura Cohen, Lisiane Cohen e M. Borges de Medeiros)

. “Rota” – Menção honrosa

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(1) Reader Comment

  1. Oi, Rosário. Você confundiu o fotógrafo Bruno Polidoro com o diretor Gustavo Spolidoro. Corrige aí. Abraço.

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