“Bob Cuspe” e “Chão de Fábrica” triunfam no Festival de Havana

Por Maria do Rosário Caetano

O Brasil recebeu dois importantes prêmios na quadragésima-terceira edição do Festival do Novo Cinema Latino-Americano de Havana, encerrado na noite da última sexta-feira, 9 de dezembro, em Cuba. “Bob Cuspe – Nós Não Gostamos de Gente” (foto), de César Cabral, inspirado em personagens do cartunista Angeli, ganhou o troféu Coral de melhor animação. E “Chão de Fábrica”, acompanhado do subtítulo “Una Historia de Obreras”, foi eleito o melhor curta-metragem.

O cinema brasileiro, que viveu um ano de grande visibilidade nos festivais internacionais, recebeu ainda o Prêmio Especial do Júri para “Regra 3”, de Júlia Murat (que fôra o grande vencedor do Festival de Locarno), e viu “Mato Seco em Chamas”, de Adirley Queirós e Joana Pimenta, conquistar o Prêmio Fipresci (Crítica Internacional), melhor fotografia e melhor trilha sonora. O curta documental “Cadê Heleny?” fez jus a um prêmio especial do Júri.

O detentor do Gran Coral Negro, prêmio máximo do Festival de Havana, foi o boliviano “El Gran Movimiento”, de Kiro Russo. Os cinéfilos brasileiros o viram no Olhar de Cinema, em Curitiba, e, com toda razão, ficaram impressionados. Trata-se, afinal, de narrativa apaixonante e mobilizadora.

O protagonista (Juan Cesar Ticona), um trabalhador de minas de estanho, deixa sua região, ao lado de colegas, para buscar ocupação em La Paz. Não encontra nenhum emprego com carteira assinada, por mais modesto que seja. Vai, então, integrar-se ao precariado, fazendo bicos na feira (como carregador e faz-tudo). Adoentado, o trabalhador de vida tão precária começa a definhar e a ver seres de outro mundo (entidades da cosmologia ameríndia). Um filme de temática social, onírico e doloroso, realizado por talento dos mais promissores.

Vale acompanhar com muita atenção os futuros trabalhos de Kiro Russo. Até porque ele acaba de colocar a Bolívia na lista dos grandes premiados de La Habana, ao lado de “Memórias do Cárcere”, “Cabra Marcado para Morrer”, “Frida, Natureza Viva” e “Tangos, o Exílio de Gardel”.

O festival habanero, que exibe anualmente média de 300 filmes, ainda divide suas mostras competitivas por gênero (ficção, documentário e animação). E atribui o importante (e fertilizador) prêmio Opera Prima (melhor filme de diretor estreante).

Quem mirar, apressadamente, sua lista de premiados desse ano pode ser induzido a acreditar que o evento cubano pratica o distributivismo, como faz a maioria dos festivais brasileiros (sim, nossos incansáveis e renitentes praticantes da “reforma agrária audiovisual”). Mas não. Dispondo de centenas de filmes, portanto de poderosa massa crítica, o mais abrangente dos festivais latino-americanos pauta-se pela economia na distribuição dos troféus Coral.

Nesta edição de número 43, o longa de ficção mais premiado, depois de “El Gran Movimiento”, foi o drama social-jurídico “Argentina 1985”, de Santiago Mitre, mais um potente “Darín movie”. De construção clássica, o filme argentino levou melhor ator (Ricardo Darín, soberbo na pele de juiz que colocou generais no cárcere), roteiro (muito bem urdido), direção de arte e o Troféu Signis, da Igreja Católica.

Por carregar o “Novo” no título, o Festival de Havana vem dedicando-se cada vez mais a filmes de jovens realizadores, pesquisa de linguagem e temáticas menos (menos!) engajadas. A premiação de “El Gran Movimiento” e do documentário “Eami”, da paraguaia Paz Encina (de “Hamaca Paraguaya”, 2006) comprovam a proposta e inquietação dos curadores cubanos.

“Chão de Fábrica” (“Uma História Operária”) não triunfou por mostrar trabalhadoras do ABC metalúrgico, mas por suas imensas qualidades criativas. O filme foi um dos mais premiados e selecionados curtas brasileiros na temporada 2021-2022. Causou sensação por onde passou.

Por fim, constatação verificável por qualquer pessoa que acompanha, mesmo que com imensas dificuldades, as marchas e contra-marchas do cinema latino-americano em solo (e telas) brasileiras: Havana continua sendo a maior vitrine planetária do cinema de língua espanhola e portuguesa. Brasil, Argentina e México, os maiores detentores de prêmios Coral da história habanera, continuam mostrando sua força. Basta conferir a quantidade de troféus conquistada especialmente pelos dois países sul-americanos (ver tabela de premiados).

O México, esse ano, recebeu poucas láureas (atriz, menção para o belo “Noite de Fogo”, lançado comercialmente no Brasil, menção para um curta-metragem, e cartaz, pois os cubanos valorizam muito as artes gráficas).

Chile e Colômbia, cujas cinematografias causaram sensação em festivais internacionais e no Oscar, nos últimos anos, tiveram desempenho mediano. Basta lembrar os filmes de Pablo “Tony Manero” Larraín (sem esquecer “O Clube”) e os longas “Glória” e “Uma Mulher Fantástica”, estes de Sebastián Lélio. E da Colômbia, os poderosos “O Abraço da Serpente” e “Pássaros de Verão”.

E Cuba, o país-anfitrião? Encontra-se (até quando?) em estado lastimável. Afinal, trata-se da terra de Tomás Gutierrez Alea, o Titón de “Memórias do Subdesenvolvimento, de Santiago Alvarez, Humberto Solas e Fernando Pérez. O país de Fidel e Camilo Cienfuegos continua vivendo crise cinematográfica das mais preocupantes. Ganhou um solitário Coral de melhor curta documental.

A caribenha e ensolarada Cuba chegou a produzir dez longas-metragens por ano nos tempos em que recebia negativos da Alemanha Oriental e apoio financeiro da União Soviética. Depois da derrota do socialismo no Leste Europeu e na URSS, viu sua produção definhar. Muitos realizadores preferiram ir trabalhar na sedutora Espanha. E os que ficaram buscam recursos financeiros na Europa, pois o ICAIC (Instituto Cubano de Artes e Indústrias Cinematográficas) não dispõe mais das verbas de seus tempos áureos. A grana europeia, muitas vezes, acaba gerando filmes para “estrangeiro ver”. Che Guevara, que foi consultor de Titón no longa-metragem “Histórias da Revolução” (1960), se vivo fosse, estaria desesperado e inconsolável.

Confira os premiados:

LONGA FICCIONAL

. “El Gran Movimiento”, de Kiro Russo (Olívia) – melhor filme, diretor (Kiro Russo), montagem (Kiro Russo e Pablo Paniga), som (Mercedes Tenina e Mauricio Kiroga)

. “Regra 34”, de Júlia Murat (Brasil) – Prêmio Especial do Júri

. “Argentina 1985”, de Santiago Mitre (Argentina) – melhor ator (Ricardo Darín), roteiro (Mitre e Mariano Linás), direção de arte (Micael Saiegh), Prêmio Signis (do Ofício Católico Internacional de Cinema)

. “El Otro Tom”, de Rodrigo Plá e Laura Santullo (México) – melhor atriz (Julia Chávez)

. “Mato Seco em Chamas”, de Adirley Queirós e Joana Pimenta – melhor fotografia (Joana Pimenta), melhor trilha sonora (Muleka 100 Calcinha) , Prêmio Fipresci (Federação Internacional de Críticos de Cinema)

ÓPERA PRIMA (FILMES DE DIRETORES ESTREANTES)

. “Amparo”, de Simón Mesa (Colombia)

. “1976”, de Manuela Martelli (Chile) – Prêmio Especial do Júri

. “Clara Solo”, de Nathalie Alvarez (Costa Rica)- menção honrosa

. “A Noite de Fogo” (ou “Rezem pelas Crianças Roubadas”) – de Tatiana Huezo (México) – menção honrosa

ANIMAÇÃO

. “Bob Cuspe – Nós Não Gostamos de Gente”, de Cesar Cabral (Brasil) – melhor filme

. “Bestia”, de Hugo Covarrubias (Chile): melhor curta-metragem

. “Mi Casa Está en Otra Parte”, de Carlos Hagerman e Joe Villa-Lobos (México) – Prêmio Especial do Júri

DOCUMENTÁRIOS

. “Eami”, de Paz Encina (Paraguai) – melhor filme (longa-metragem)

. “Abissal”, de Alejandro Alfonso (Cuba)- melhor filme (curta-metragem)

. “El Silencio del Topo”, Anais Taracena (Guatemala) – Prêmio Especial do Júri

. “Cadê Heleny?”, de Esther Vital (Brasil) – Prêmio Especial do Juri (curta-metragem)

CURTA-METRAGEM

. “Chão de Fábrica” (Uma História Operária), de Nina Kopko (Brasil) – melhor filme

. “Estrelas del Desierto”, de Katharina Halder (Chile) – Prêmio Especial do Júri

OUTROS PRÊMIOS

. “La Suprema”, de Felipe Caro (Colômbia) – prêmio de pós-produção

. “Micaela”, de José Fernández del Rio (Peru) – roteiro inédito

. “Agua”, de Gonzalo Fontao (México) – melhor cartaz cinematográfico

. “Un Varón”, de Fabián Hernandez (Colômbia) – Prêmio Arrecife

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