“Um Completo Desconhecido” mostra o “Nobel” Bob Dylan em transição do folk para o rock, mas sem sexo e drogas

Por Maria do Rosário Caetano

“Sexo, drogas e rock ‘n’ roll”. O filme “Um Completo Desconhecido”, um dos dez concorrentes ao Oscar na categoria principal, não traz, em sua narrativa, cenas de sexo. Nem drogas. Mas, felizmente, traz um pouco de rock ‘n’ roll (e guitarras elétricas).

O gênero musical que conheceu imensa expansão na década de 1960, tempo dos Beatles e Rolling Stones, não poderia ficar de fora. Afinal, o longa de James Mangold – em cartaz nos cinemas brasileiros desde a última quinta-feira, 27 de fevereiro – baseia-se no livro “Dylan Goes Eletric!: Newport, Seeger, Dylan, and the Nigth that Split the Sixties”, de Elijah Wald. Mostra, portanto, aquela noite em que se deu a transição (pública) do compositor Bob Dylan do folk para o som eletrificado das guitarras. Tudo aconteceu, sob vaias, numa noite de verão, em 1965, no tradicional Festival Folk de Newport.

E por que não há sexo e drogas em “Um Completo Desconhecido”?

A resposta é simples, cristalina até: por tratar-se de produção da Disney, empresa que se estruturou (e triunfou) como uma usina de filmes “para toda a família”.

A década de 1960 foi marcada pela mudança de costumes (em especial, pela liberdade sexual), luta pelos direitos civis dos afro-americanos e pela Guerra do Vietnã, um dos traumas históricos dos EUA. Todos essas batalhas estão no filme, mesmo que superficialmente. Mas cenas de sexo, nem pensar. Drogas, então!!!

Só poderemos intuir, vendo o filme, que Robert “Bob Dylan” Zimmerman, hoje um senhor de 83 anos, Prêmio Nobel de Literatura, deve ter experimentado muitos aditivos e ativadores de novas percepções devido ao uso constante de óculos escuros. Inclusive de noite. “Quem não tem colírio” – cantava Raul Seixas – “usa óculos escuros”. Um bom disfarce. Fora isso, não veremos nenhuma referência à marijuana, ao peyote, ao que for.

James Mangold, estadunidense de 61 anos, tem carreira errática. Fez dois bons filmes – “Johnny & June” (2005) e “Ford x Ferrari” (2019). E muitos candidatos a blockbusters. Dessa vez, com a juventude de Dylan, chegou longe: recebeu oito indicações ao Oscar de número 97 (entrega de prêmios nesse domingo de Carnaval). Inclusive na categoria principal. E, também, a melhor direção (neste caso, pela primeira vez). Um feito, há que se admitir.

“Um Completo Desconhecido” não se estrutura como uma cinebiografia tradicional, dessas que vão da infância ao túmulo. No caso de Bob Dylan, vivíssimo aos 83 anos, da infância ao Nobel. Nada disso. O filme se atém aos primeiros anos da carreira do artista, que desembarcou em Nova York, vindo de Minnesota, aos 19 anos.

O jovem oriundo da América profunda pretendia fazer carreira musical, com seu violão e composições embebidas no folk e no country. Queria, também e ardorosamente, conhecer Woody Guthrie (1912-1967), uma referência da folk song e do blues, que encontrava-se internado num hospital, vítima de doença neurológica degenerativa.

Dylan conhecerá o artista, preso a seu leito psiquiátrico. E conhecerá – e se ligará profundamente – a Pete Seeger (1919-2014), instrumentista (banjo, guitarra, flauta doce), compositor, pesquisador, produtor e ativista das lutas pelos Direitos Civis e contra a Guerra do Vietnã. Tornar-se-ia, o incansável Seeger, o mais longevo arauto da então onipresente música de protesto.

Outro nome marcará a vida do jovem Robert Allen Zimmerman, de origem judaica, nascido em Duluth, no extremo norte dos EUA, próximo ao Canadá: o da cantora e compositora Joan Baez, interpretada por Monica Barbaro. Hoje com 84 anos (três meses a mais que o amigo e ex-namorado Dylan), Baez segue uma lenda viva da música norte-americana. Descendente de mexicanos, dona de voz privilegiada de soprano e militante pelos Direitos Civis e contra a Guerra do Vietnã, a artista segue firme com suas ideias e shows. Esteve poucos anos atrás no Brasil e recebeu Geraldo Vandré no palco.

A relação de Dylan com Baez foi mais que artístico-musical, pois existencial-amorosa-e-conturbada. O filme mostrará isso, também sem aprofundamento, pois Bob Dylan envolveu-se com a loura Suze Rotolo (no filme, recriada ficcionalmente como Sylvie Russo e interpretada por Elle Fanning). Suze foi musa de algumas criações do jovem compositor.

Joan Baez transformou suas vivências amorosas com Dylan em canção – “Diamonds and Rust” (“Diamantes e Ferrugem”), escrita em 1974, cuja letra ela ia situando temporalmente, quando a interpreta(va) em seus novos shows – “Deus me acuda!/ Lá vem seu fantasma de novo/ Mas não é de estranhar/ É que a lua está cheia/ E você resolveu me ligar/ E aqui me vejo sentada/ Telefone na mão/ Escutando uma voz que me cativou/ Dez anos atrás (ou, atualizada: Um par de anos luz atrás)/ E me jogou no abismo”.

Além de Joan Baez, Pete Seeger e Sylvie Russo, a história da ascensão do artista folk à fama contará com participação especial de Johnny Cash (1932-2003), interpretado por Boyd Holbrook. O conturbado astro do country, que viveu dias de cárcere e internações por consumo pesado de drogas, ganhou notável interpretação de Joaquin Phoenix no (mais ousado) “Johnny & June” do mesmo Mangold. As aparições de Cash, no novo filme de Dylan, são pequenas, mas chamativas.

“Um Completo Desconhecido”, apesar de não mergulhar, para valer, em seu tempo histórico, nem nos ingredientes pesados da década de 1960 (sexo, drogas e rock ‘n’ roll), há de cativar os fãs de Dylan & Baez e, por sorte, revelar (a muitos) a importância de Pete Seeger (trabalho notável de Edward Norton). Aliás, todo o elenco é notável.

Timothée Chalamet interpreta Bob Dylan, favorecido por relativa semelhança física e grande dedicação ao papel. Mas quem rouba a cena, além de Norton, é a californiana Monica Barbaro, que faz uma morena (e linda) Joan Baez. Aliás, Chalamet, Edward Norton e Monica foram indicados ao Oscar. O primeiro a ator protagonista (triunfou na SAG, a guilda dos Atores) e os outros dois a coadjuvantes.

O norte-americano de origem franco-canadense, de 29 anos, pode derrotar o (ainda) favorito Adrian Brody (de “O Brutalista”), mas os dois coadjuvantes parecem fora do páreo, já que os favoritíssimos são Zoe Saldaña (por “Emilia Pérez”) e Kieran Culkin (“A Verdadeira Dor”).

“Um Completo Desconhecido” disputa, portanto, além do elenco, o Oscar de melhor filme, direção, roteiro adaptado, figurino e mixagem de som. Prêmios em excesso para um filme que poderia ser muito melhor se não estivesse sob o comportado guarda-chuva da grife Disney. Evocar os loucos sixties, no meio artístico-musical norte-americano, sem sexo e drogas, convenhamos, é rezar pela cartilha comportada e conservadora desse nosso estranho-e-terrível tempo presente.

 

Um Completo Desconhecido | A Complet Unknown
EUA, 2024, 141 minutos
Direção: James Mangold
Roteiro: James Mangold, Jay Cocks e Elijah Wald Elenco: Timothée Chalamet (Dylan), Joan Baez (Monica Barbaro), Pete Seeger (Edward Norton), Sylvie Russo (Elle Fanning), Johnny Cash (Boyd Holbrook), Eriko Hatsune (Toshi Seeger), Scoot McNairy (Woody Guthrie), Riley Hashimoto (Danny Seeger)
Distribuição: Disney
Classificação: 14 anos

 

FILMOGRAFIA
James Mangold
Diretor e roteirista nascido em Nova York, EUA, em 16 de novembro de 1963

2024 – Um Completo Desconhecido
2023 – Indiana Jones e a Relíquia do Destino
2019 – Ford x Ferrari
2017 – Logan
2013 – Wolverine
2020 – Knigth & Day
2007 – 3:10 to Yuma
2005 – Johnny & June
2003 – Identidade
2001 – Kate & Leopold
1999 – Garota, Interrompida
1997 – Cop Land
1995 – Heavy

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