“O Agente Secreto” e “Apocalipse nos Trópicos” destacam-se no Bafta e ficção pernambucana tem chances de conquistar o César, o Oscar francês

Foto: “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho © Victor Jucá

Por Maria do Rosário Caetano

“O Agente Secreto”, sexto longa-metragem de Kleber Mendonça Filho, segue conquistando espaço em premiações internacionais. Suas mais novas disputas se darão no Bafta, o Oscar britânico, dia 22 de fevereiro, e no César, o Oscar francês, quatro dias depois. No primeiro, o filme pernambucano concorre a melhor produção internacional e a melhor roteiro original. No Oscar francês, a melhor filme internacional.

No prêmio sediado em Londres, o Brasil brilha ainda com “Apocalipse nos Trópicos”, de Petra Costa, finalista na categoria melhor longa documental. E pega carona na indicação do paulistano-corintiano Adolpho Veloso, diretor de fotografia do longa estadunidense “Sonhos de Trem”.

O Bafta segue o mesmo formato do Oscar de Hollywood. São mínimas as variações. A mais significativa delas (na categoria de melhor filme britânico) consiste na indicação de dez longas realizados na Inglaterra, Escócia, Irlanda e País de Gales, ou seja, no conjunto de países que compõem o mundo anglo-saxão europeu (ver finalistas abaixo).

Na categoria principal — melhor filme — o Bafta é mais econômico que o Oscar. Indica cinco títulos, ao invés dos nove ou dez da Academia de Hollywood. Os cinco escolhidos pelo BFI (Instituto Britânico de Cinema) coincidem com as escolhas do Oscar. Um deles tem história 100% inglesa (“Hamnet – A Vida Antes de Hamlet”, da sino-americana Chloe Zhao), três são totalmente estadunidenses (“Uma Batalha Após a Outra”, de Paul Thomas Anderson, “Pecadores”, de Ray Coogler, e “Marty Supreme”, de Josh Safdie). Há um único filme falado em outro idioma, que não o de Shakespeare — o norueguês “Valor Sentimental”, de Joachim Trier.

Vale registrar uma pequena inversão: no Oscar, o terror black-vampírico “Pecadores” obteve 16 indicações (recorde histórico) e “Uma Batalha Após a Outra”, 13. Já no Bafta, este saiu na frente, com 14, e o filme de Coogler com 13.

Se houver uma virada — “Pecadores” derrotar o filme de Thomas Anderson —, tudo leva a crer que tal vitória terá mais chances de materializar-se no Oscar, que no Bafta. Até porque há uma possibilidade parada no ar: os votantes ingleses puxarem a brasa para a sardinha shakespereana (“Hamnet – A Vida Antes de Hamlet”). O bardo, considerado o maior dramaturgo do mundo, é o maior dos patrimônios culturais da ilha europeia.

Entre os dez concorrentes a melhor filme britânico, quatro títulos foram lançados no circuito exibidor brasileiro. Caso, claro, de “Hamnet”, exemplar perfeito do que os franceses chamam de “cinéma de qualité”; do perturbado “Morra, Amor”, de Lynne Ramsay, estrelado por Jennifer Lawrence e Robert Pattinson; do terror “Extermínio, a Evolução” e do quarto título da franquia “Bridget Jones”. Dessa vez, “Louca pelo Garoto”.

Os Prêmios César — como o Goya espanhol, o Donatello italiano, o Ariel mexicano, o Grande Otelo brasileiro e muitos outros — concentram-se na produção de seus países de origem. Aos filmes internacionais dedicam categoria própria. Por isso, são diferentes do Bafta, face siamesa do Oscar.

Como ano passado a produção francesa não contou com um blockbuster do tamanho de “O Conde de Monte Cristo”, nem com um filme de arte (controverso e odiado por alguns, mas de empenho artístico e repercussão planetária) como “Emilia Pérez”, a Academia Francesa de Cinema teve que recorrer a dois “estrangeiros” — os cineastas Robert Linklater, dos EUA, e Jafar Panahi, do Irã. Ambos ocupam vaga na principal categoria. E isto foi possível por tratar-se de produções bancadas por capitais franceses.

Linklater esparrama bons sentimentos com o delicioso “Nouvelle Vague” (dez indicações), filme realizado em preto-e-branco. Ergue, com leveza e charme, sua declaração de amor a Jean-Luc Godard e ao seminal “Acossado” (1960). E com imenso respeito ao país que o acolheu nessa aventura: idioma, atores, história, técnicos e cenários franceses. Seduziu os acadêmicos. Afinal, lustrou o ego da pátria dos Lumière, de Méliès, de Jean Renoir, de Godard, Truffaut, Chabrol, Rivette e Rohmer.

Já o longa de Jafar Panahi segue causando espécie. Ganhou a Palma de Ouro, em Cannes, mas não convenceu os votantes da academia francesa. Só cravou duas indicações (melhor filme e melhor roteiro original). Até porque sua trama, seus atores, seus cenários (tudo-tudo que vemos na tela) resultam 100% iraniano.

Os produtores conseguiram emplacar o filme de Panahi na categoria principal (e seu roteiro). Mas atores, diretores, fotógrafos e outras categorias técnicas não quiseram saber. Ignoraram “Foi Apenas um Acidente”. Solenemente.

O brasileiro “O Agente Secreto” enfrentará, tanto no Bafta, quanto no César, fortes concorrentes. No prêmio britânico, os mesmos títulos selecionados pelo Oscar. No francês, o peso-pesadíssimo “Uma Batalha Após a Outra”. Já que o chinês “Black Dog”, novidade na lista francesa, não tem muitas chances, o outro grande rival a se combater continua sendo “Valor Sentimental”. Este filme vem encantando o mundo. Tem final feliz e é menos disruptivo que “O Agente Secreto”. Mas, na França, um dos três países coprodutores do filme de KMF, o brasileiro angariou críticas consagradoras e já vendeu mais de 400 mil ingressos (no Brasil, quase 2 milhões).

As chances de Petra Costa e seu obrigatório “Apocalipse nos Trópicos” são medianas. Afinal, os concorrentes escolhidos pelo país que fez do documentário uma de suas maiores escolas (com John Grierson e, depois, com a poderosa BBC) somam muitos trunfos. A começar por “A Vizinha Perfeita”, favorito ao Oscar. E sem esquecer os dois filmes que têm a guerra da Rússia contra a Ucrânia como tema. Na Europa, esse assunto é pauta de todos os dias.

Confira os destaques do Bafta:

MELHOR FILME

  • “Hamnet – A Vida Antes de Hamlet”, de Chloe Zhao (EUA, Inglaterra)
  • “Uma Batalha Após a Outra”, de Paul Thomas Anderson (EUA)
  • “Pecadores”, de Ray Coogler (EUA)
  • “Marty Supreme”, de  Josh Safdie (EUA)
  • “Valor Sentimental”, de Joachim Trier (Noruega)

MELHOR FILME BRITÂNICO

  • “Hamnet – A Vida Antes de Hamlet”
  • “Morra, Meu Amor”
  • “A Balada da Ilha de Wallis”
  • “Eu Juro”
  • “Bridget Jones: Louca pelo Garoto” (Telecine)
  • “H is for Hawk
  • “Mr. Burton”
  • “Pillion” (nos cinemas em abril)
  • “Steve” (Netflix)
  • “Extermínio, a Evolução” (“28 Years Later”) – (HBO Max)

MELHOR DOCUMENTÁRIO

  • “Apocalipse nos Trópicos”, de Petra Costa (Brasil)
  • “A Vizinha Perfeita”, de Geeta Gandbhir (EUA)
  • “Seymour Hersh – Em Busca da Verdade” (“Cover-up”), de Laura Poitras e  Mark Oberhausen (EUA)
  • “Mr. Nobody Against Putin”, de David Borenstein e Pasha Talankin (Ucrânia)
  • “2000 Metros até Andriivka”, de Mstyslav Chernov (Ucrânia)

MELHOR FILME INTERNACIONAL

  • “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho (Brasil)
  • “Foi Apenas um Acidente”, de Jafar Panahi (França)
  • “Sîrat”, de Oliver Laxe (Espanha)
  • “Valor Sentimental”, de Joachim Trier (Noruega)
  • “A Voz de Hind Rajab”, de Kaouther Ben Hania (Tunísia)

Nos Prêmios César, da França:

MELHOR FILME

  • “Nouvelle Vague”, de Richard Linklater (10 indicações)
  • “Dossier 137”, de Dominique Moll (8)
  • “L’Attachment” (O Apego), de Carine Tardieu (8)
  • “La Petite Dernière”, de Hafsia Herzi (6)
  • “Foi Apenas um Acidente”, de Jafar Panahi (2)

MELHOR FILME INTERNACIONAL

  • “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho (Brasil)
  • “Sîrat”, de Oliver Laxe (Espanha)
  • “Valor Sentimental”, de Joachim Trier (Noruega)
  • “Black Dog”, de Guan Hu (Tunísia)
  • “Uma Batalha Após a Outra”, de Paul Thomas Anderson (EUA)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.