Longa de estreia de Viviane D’Avilla participa do Raindance Film Festival, em Londres
O documentário “Let Us Be” (Me Deixa Ser), dirigido pela cineasta brasileira Viviane D’Avilla, será exibido no Raindance Film Festival, em Londres, no dia 20 de junho. O longa, uma coprodução Brasil e Estados Unidos (das produtoras Dona Rosa Filmes e Social Construct), mergulha nas histórias íntimas de pessoas intersexo no Brasil, Índia e Estados Unidos, para discutir diversidade corporal, identidade, autonomia sobre o próprio corpo e a violência provocada por cirurgias realizadas sem consentimento em crianças nascidas com características sexuais que fogem das definições tradicionais de masculino e feminino.
Com 88 minutos, “Let Us Be” acompanha personagens que transformaram experiências pessoais marcadas por invisibilização, preconceito e intervenções médicas em luta política e ativismo social. Ao reunir histórias de diferentes culturas e territórios, o filme revela como sociedades distintas reproduzem mecanismos semelhantes de repressão à diversidade corporal e de gênero.
A ideia do longa surgiu a partir da experiência da diretora com o curta-metragem “Gopi”, iniciado em 2015, durante uma viagem à Índia. Inicialmente interessada em investigar questões relacionadas à sexualidade e diversidade no país, Viviane entrou em contato com o ativista intersexo indiano Gopi Shankar e passou a acompanhar sua luta contra cirurgias realizadas em bebês intersexo. O projeto acabou se transformando em um curta premiado, exibido no Festival do Rio, no Canal Futura e em festivais internacionais.
“Let Us Be” acompanha, entre outros personagens, a trajetória de Hida Viloria, uma das pioneiras do movimento intersexo internacional. Escritora e ativista, Hida nasceu com variação genital e foi criada sem passar pelas cirurgias cosméticas frequentemente realizadas em crianças intersexo. Ex-dirigente da Organization Intersex International (OII) e fundadora da Intersex Campaign for Equality (IC4E), liderou uma das primeiras articulações globais por direitos humanos da população intersexo junto à ONU.
Também nos Estados Unidos, o filme retrata Tiger Devore, um dos nomes históricos do ativismo intersexo norte-americano e amigo próximo de Hida Viloria. Sua trajetória evidencia décadas de violência médica, pressão social e tentativas de adequação corporal impostas desde a infância para atender expectativas de masculinidade. Em uma das passagens mais fortes do documentário, Tiger revisita os traumas provocados pelas múltiplas cirurgias realizadas para “construir” um corpo considerado masculino.
O núcleo norte-americano se completa com Lyss Ball, criadora de conteúdo, professora de yoga e educadora comunitária baseada em Nova York. Diagnosticada com Síndrome da Insensibilidade Completa aos Andrógenos (CAIS), Lyss utiliza as redes sociais para discutir identidade, espiritualidade e autoaceitação, reunindo mais de 100 mil seguidores.
No Brasil, o filme acompanha Carolina Iara, primeira parlamentar intersexo eleita da América Latina. Mulher trans, negra, HIV positiva e ligada às religiões de matriz africana, Carolina transforma sua própria existência em um corpo político e em instrumento de disputa por direitos e representatividade. Nascida com ambiguidade genital, foi submetida ainda na infância a decisões médicas que determinaram seu gênero sem seu consentimento. Hoje, utiliza sua atuação política para ampliar o debate sobre diversidade corporal, violência médica e identidade.
Outra personagem central brasileira é Vidda Guzzo, pesquisadora, escritora e uma das principais vozes do ativismo intersexo no Brasil. Doutoranda em Ciência Política pela Universidade de Brasília e cofundadora da Intersex Brazil, Vidda atua em agendas ligadas à autonomia corporal, justiça de gênero e direitos humanos em organismos internacionais como ONU, Mercosul e G20. No filme, ela ajuda a contextualizar politicamente o debate sobre intersexualidade no Brasil e a ausência histórica de informações públicas sobre o tema.
Na Índia, o longa acompanha Aanandh Rajappan, personagem que cresceu sem passar pelas cirurgias corretivas frequentemente realizadas em pessoas intersexo. Sua mãe decidiu não autorizar as intervenções médicas ainda na infância, permitindo que ele próprio pudesse fazer escolhas sobre seu corpo no futuro. No documentário, Aanandh compartilha os conflitos entre religião, família, identidade e pertencimento em uma sociedade marcada por fortes contradições entre espiritualidade, tradição e repressão à diversidade sexual e de gênero.
O filme também aborda o debate internacional sobre cirurgias realizadas em crianças intersexo, muitas vezes motivadas por padrões estéticos e sociais de adequação corporal. Em um dos trechos do documentário, médicos e ativistas discutem como essas intervenções ainda acontecem de forma legalizada em diversos países, frequentemente sem que as próprias crianças tenham direito de escolha sobre seus corpos.
Embora o tema ainda seja pouco discutido no audiovisual, a estimativa citada no longa aponta que cerca de 1,7% da população mundial possui alguma característica intersexo, número semelhante ao da população ruiva no planeta.
Visualmente, “Let Us Be” aposta em uma linguagem intimista e contemplativa, construída a partir da escuta e da observação silenciosa dos personagens. A diretora, que começou sua trajetória profissional na fotografia documental e nas artes visuais, buscou evitar uma abordagem médica ou explicativa sobre a intersexualidade, privilegiando a dimensão humana das experiências retratadas.
