Olhar de Cinema premia “Foguete” nordestino e sonho interrompido da OPEP
Foto: Verônica Cavalcanti, Janaína Marques e Luciana Souza © Walter Thoms
Por Maria do Rosário Caetano, de Curitiba (PR)
“Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha”, produção cearense dirigida pela estreante Janaína Marques, foi o grande vencedor da décima-quinta edição do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba.
O filme fez sua estreia no Fórum do Festival de Berlim, em fevereiro último, e lá recebeu o prêmio dos leitores do jornal Tagespiegel (Espelho do Dia). Já no Olhar curitibano, além do prêmio principal, o “Foguete” foi laureado na importante (e única) categoria melhor atuação. Única porque destinada a um bom desempenho, seja feminino, masculino ou trans. Pelo arrebatamento provocado por seus desempenhos, as atrizes nordestinas Luciana Souza e Verônica Cavalcanti foram as eleitas. Elas interpretam mãe e filha nesse road movie feminista concebido e filmado em Fortaleza e outros cantos do Ceará.
“Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha” acompanha a busca íntima de Rosa (a paraibana Verônica Cavalcanti) pelo seu passado, pois ela já não se reconhece nele. Após ser submetida a uma ressonância magnética, Rosa será instigada a buscar nos tempos já vividos uma memória feliz.
Acabará, nessa busca, transportada para seu subconsciente. Nesse revisitar da própria história, ela acabará reconstruindo episódio que nunca viveu: uma viagem-travessia com a mãe Dalva (a baiana Luciana Souza), mulher decidida e irreverente, que foi presa por matar um homem prestes a cometer feminicídio.
Rosa, que cresceu marcada pela ausência materna, terá que lidar com a culpa e o medo. E, nessa viagem (“Foguete” parece um “Thelma e Louise” do Terceiro Mundo), veremos um amálgama de lembranças inventadas e de vidas vividas.
O filme se constrói com muitas cores, paisagens (cidade, estrada, montanhas, dunas, rio) e duas protagonistas aparentemente opostas (uma cheia de vida, a outra melancólica), que irão se redescobrir numa viagem onírico-realista, temperada com elementos ora cômicos, ora dramáticos, ora musicais.
A comicidade surge já no início da fuga de mãe e filha num furgão, destinado à venda de cachorro-quente. Decorado de forma chamativa, o “dogão” se enfeita com dispositivo propagandístico feito de plástico inflado. Tal enfeite acabará navegando, como um barco à deriva, sobre as águas de um rio onde fora parar depois de descartado. O humor surgirá em outros instantes, principalmente nos protagonizados pela personagem de Dalva, que passara boa parte de sua vida encarcerada. No reencontro com a filha, ambas se reinventarão.

Com sua voz melodiosa, Dalva cantará para uma Rosa ainda travada e desnorteada os versos de “Sangue Latino”: “Rompi tratados, traí os ritos/ Quebrei a lança, lancei no espaço/ Um grito, um desacato/ E o que me importa/ é não estar vencida”. A filha corrigirá a mãe: “não é desacato, é desabafo!”. Dalva diz preferir “sua própria versão” do sucesso consagrado por Ney Matogrosso.
Noutro momento, uma canção definirá o estado de espírito de personagem que Dalva e Rosa encontrarão num hotel de beira de estrada. Dona Jujú, interpretada pela cantora e atriz Fabíola Liper, escandirá, com voz cristalina, os versos tristes e reveladores de “Casinha Pequenina”: ‘Tu não te lembras da casinha pequenina/ Onde o nosso amor nasceu, ai// Tu não te lembras das juras, ó, perjura/ Que fizeste com fervor, ai/ Daquele beijo demorado, prolongado/ Que selou o nosso amor’?
Como haviam feito as cineastas e roteiristas Amanda Pontes e Michelline Helena — no também cearense “Quando Eu me Encontrar” — com duas canções de Chico Buarque (“Trocando em Miúdos” e “Uma Canção Desnaturada”), Janaína Marques dá força narrativa aos versos de “Sangue Latino” e “Casinha Pequenina”. Ambas refletem estados de alma de suas personagens. E vale notar que Luciana Souza brilha nos dois filmes.
Rosa e Dalva seguirão a viagem, iniciada no colorido furgão-dogão, em veículos inusitados. Incluindo carroça puxada por um burro e guiada por um “profeta de chuvas”, que vive da distribuição de garrafões de água em território árido.
Depois, Rosa embarcará, de carona, num possante caminhão, conduzido por mulher decidida e dona de seu destino. Com ela viverá rica, embora breve, experiência afetiva. À medida que a viagem avança, a narrativa fabular-onírica irá se misturar, de tal forma, com a realidade, que nos perguntaremos: Rosa vivencia um reencontro com a mãe ou está sonhando?
“Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha” mobilizou a maior plateia do Olhar de Cinema. E foi bastante aplaudido. Mas o vencedor do júri popular, que avaliou oito longas brasileiros e sete internacionais, foi o representante da República Tcheca, “Se Pombos Virassem Ouro”, de Pepa Lubojacki. Um documentário inventivo e corajoso, sobre o mergulho do irmão da cineasta no alcoolismo, vivenciado como morador de ruas e muquifos de uma Praga muito distante dos cartões postais.
O primeiro longa de Janaína Marques, brasiliense radicada no Ceará, nasceu como uma história realista. Ela, que formou-se na EICTV (Escola Internacional de Cinema e TV de San António de los Baños, em Cuba), dirigiu os curtas “Los Minutos, las Horas” (selecionado pelo Cinéfondation, em Cannes) e “Madrid”.
Para estrear no longa-metragem, Janaína escolheu “Amores Paraguayos”, roteiro que seria desenvolvido no Laboratório do Porto Iracema, em Fortaleza. Em 2020, em plena pandemia, recebeu apoio da Lei Aldir Blanc e passou a contar com a reinvenção dos “amores paraguaios”, que, roteirizado por Xênia Rivery, Pablo Arellano, Pedro Cândido e Taís Monteiro, se transmutaria em “Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha”. Concluiria o filme, realizado na estrada, em dezenas de locações, pelo modesto custo de R$2.100.000,00.
O júri oficial do Olhar de Cinema cometeu uma grande injustiça com o diretor de fotografia Ivo Lopes Araújo. Ele disputava o Troféu Olhar por dois filmes cearenses — “Foguete” e “Adulto/Homem”, este de Pedro Diógenes. E, se ainda fora pouco, assinou a fotografia do filme inaugural do festival curitibano, o pernambucano “Yellow Cake”, de Tiago Melo.
Nao foi preterido. O júri preferiu a fotografia de João Dumans, que, com “A Noite e os Dias de Miguel Burnier”, documentou sua convivência com moradores de distrito industrial de Ouro Preto. Este filme rendeu a Affonso Uchôa, parceiro de Dumans em “Arábia” e outros projetos, o Troféu Olhar de melhor montagem. Uchôa foi premiado, também pela Crítica (Abraccine), por seu curta ficcional, na verdade um média-metragem de 45 minutos, “Disciplina”.
O longa alagoano “Olhe para Mim”, de Rafhael Barbosa, foi o segundo filme mais premiado pelo júri oficial. Somou melhor direção, direção de arte (Nina Guimarães) e som (Lucas Coelho).
Seis dos oito prêmios oficiais do segmento brasileiro do Olhar foram destinados à produção nordestina. Três para o Ceará (“Foguete” como melhor filme e atuação, e um para “Adulto/Homem”, melhor roteiro) e três para Alagoas (“Olhe para Mim”). Houve, ainda, menção honrosa para o baiano “Reparação”, de Marcus Curvelo. Dois dos troféus restantes tiveram Minas Gerais como destino (ambos para o ouro-pretano “Noite e Dias de Miguel Burnier”).

Três longas da competição brasileira foram ignorados pelo júri: o paranaense “Quase Inverno”, de Rodrigo Grota, o pernambucano-paulistano “Telúrica – A Íntima Utopia”, de Mariana Lacerda, e o mineiro “Maxita”, de Adriana e Ana Maria Machado.
No terreno internacional, o grande vencedor foi o longa documental “Um Calendário Incompleto”, da realizadora iraniana (radicada no Canadá) Sanaz Sohrabi.
O filme canadense, de alma iraniana, partiu da gravação do disco “Rimas e Ritmos para a OPEP”, na Venezuela, que homenageou, em 1980, o sonho anti-imperialista da Organização dos Países Produtores de Petróleo em sua luta contra as Sete Irmãs anglo-saxãs (as petroleiras Exxon, Mobil, Texaco, Chevron, Gulf Oil, Schell e Britsh Petroleum). Os efeitos da celebração-homenagem marcada pela fraternidade e pelo canto do Coral da Venezuela (país membro da OPEP) se desmanchariam em conflitos os mais diversos e em guerras fratricidas.
O outro prêmio oficial do Olhar para a produção internacional (o Especial do Júri) coube à animação norte-americana “Bouchra”, de Orian Barki e Meriem Bennani. O filme tem uma coiote-marroquina queer, radicada em Nova York, como protagonista. Ela está ocupada com a realização do roteiro de um filme. E deseja revelar à mãe, que vive no Marrocos, sua opção homoafetiva. Usará o cinema como caminho de diálogo.
No segmento do festival dedicado à pesquisa de linguagem, o Novos Olhares, competição que soma filmes brasileiros e internacionais, o premiado foi “Como Todo Mortal”, longa-metragem da andaluza Maria Molina Peiró, produção conjunta da Espanha e Países Baixos.
Um dos melhores filmes da mostra internacional, o documentário “Carta aos meus Pais Mortos”, do chileno Ignácio Agüero, acabou olvidado. Mas, registre-se, nesse caso, não por despolitização do júri, já que o vencedor, “Um Calendário Incompleto”, faz da arte e da política suas matérias constitutivas.
A festa de entrega dos Troféus Olhar e de prêmios patrocinados por parceiros (Canal Brasil, Itaú Play, AVEC Paraná, Abraccine e Cardume Curtas) foi das mais eficientes e sintéticas.
Um apresentador simpático (e econômico em suas falas) comandou a cerimônia. Uma jovem coreografou e regeu o posicionamento dos laureados para os devidos registros fotográficos e agradecimentos (todos com muito por dizer, seja presencialmente ou por vídeos enviados da República Tcheca, EUA e Espanha). E isso foi possível por duas razões: o número reduzido de prêmios e o método de trabalho (discreto e eficiente) do comando curitibano do Olhar de Cinema. A começar pelo tímido e hiperdiscreto diretor do festival, Antonio Gonçalves Filho.
Parte do público que assistira ao longa “Salvação”, de Emin Alper, Urso de Prata no Festival de Berlim e convidado de honra do festival curitibano, permaneceu no Cinema do MON (Museu Oscar Niemeyer) para assistir — no mesmo telão que projetara o perturbador drama vindo da Turquia — ao empate da Seleção Brasileira com a Seleção do Marrocos.
Confira os vencedores:
COMPETIÇÃO BRASILEIRA
LONGA-METRAGEM
. “Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha”, de Janaína Marques (Ceará) – melhor filme, melhor atuação (Verônica Cavalcanti e Luciana Souza)
. “Olhe para Mim”, de Rafhael Barbosa (Alagoas) – melhor direção, direção de arte (Nina Guimarães), som (Lucas Coelho)
. “A Noite e os Dias de Miguel Burnier”, de João Dumans (Minas Gerais) – melhor fotografia (João Dumans), montagem (Affonso Uchôa)
. “Adulto/Homens”, de Pedro Diógenes (Ceará) – melhor roteiro (Pedro Diógenes)
. “Reparação”, de Marcus Curvelo (Bahia) – Prêmio da Crítica (Abraccine), menção honrosa do júri oficial
CURTA-METRAGEM
. “Pirexia”, de Nico da Costa (Ceará) – melhor curta
. “Pinguim de Doce de Leite”, de Ana Vitória Miotto Tahan (Goiânia) – Prêmio Especial do Júri
. “O Segredo Sagrado”, de Everlane Moraes (Bahia) – Prêmio Canal Brasil (troféu, R$15 mil e exibição pela emissora)
. “Duwid Tuminkiz – Makunaima é Duwid?” , de Gustavo Caboco Wapichana (Roraima) – melhor curta pelo Júri Popular
. “Disciplina”, de Affonso Uchôa (MG) – Prêmio da Crítica (Abraccine)
. “Marimbã Está Acontecendo”, de Maryn Marynho (Ceará) – Prêmio Aquisição Cardume de Curtas
. “Tornar-se Ciborgue no Interior”, de Louisa Sauvignon, da Mostra Mirada Paranaense – Prêmio AVEC-Paraná
COMPETIÇÃO INTERNACIONAL
. “Um Calendário Incompleto”, de Sanaz Sohrabi (Canadá, Irã, Turquia, Vanuatu) – melhor filme
. “Bouchra”, de Orian Barki e Meriem Bennani. (EUA, Itália, Marrocos) – Prêmio Especial do Júri
. “Se Pombos Virassem Ouro”, de Pepa Lubojacki (República Tcheca) – Prêmio do Júri Popular (concorrentes internacionais e brasileiros)
. “Dragão”, de Yashira Jordán (Bolívia e México) – melhor curta-metragem
MOSTRA NOVOS OLHARES (competição brasileira e internacional)
. “Como Todo Mortal”, de Maria Molina Peiró (Espanha e Países Baixos) – melhor longa-metragem
