“Ecos do Teatro Experimental do Negro” vê o grupo de Abdias Nascimento como semente de coletivos cênicos contemporâneos
Por Maria do Rosário Caetano
“Ecos do Teatro Experimental do Negro”, longa documental de Daniel Santiago, em cartaz no circuito de arte, consegue uma proeza — reunir 30 pessoas, 30 “cabeças falantes”, para evocar a importância do TEN (Teatro Experimental do Negro) e de seu criador, o visionário Abdias Nascimento, para as artes cênicas brasileiras. E o resultado dos testemunhos de tantos “faladores” é fascinante. Enriquecedor.
Primeiro ouviremos o próprio Abdias (1914-2011), em depoimento histórico ao Serviço Nacional de Teatro, colhido em 1979, relembrando sua indignação ao ver um ator branco, em teatro peruano, interpretando “O Imperador Jones”, de Eugene O’Neill. Decidiu ali, naquele país sul-americano e naquele instante, criar, em seu regresso ao Brasil, um grupo teatral formado somente com intérpretes negros. Em 1944, nascia o TEN. Uma companhia que faria história. Que daria adeus à prática do blackface (atores brancos que pintavam o rosto de preto para se assenhorar também dos papéis de origem afro).
Durante sete anos, Daniel Santiago, com longa carreira no audiovisual, dedicou-se sem descanso a ouvir os ecos do TEN. Com enquadramentos bem iluminados (fotografia de Cleumo Segond) e cores fortes, registrou testemunhos de atrizes e atores que já partiram. Como Ruth de Souza (1921-2019), Léa Garcia (1933-2023), Haroldo Costa (1930-2025), Bibi Ferreira (1922-2019), Milton Gonçalves (1933-2022), João Acaiabe (1944-2021), Sérgio Mamberti (1939-2021) e Flávio Migliaccio (1934-2020). Como se vê, astros pretos e brancos.
A estes oito grandes nomes de nossas artes cênicas e audiovisuais, Daniel Santiago somou um timaço composto por Zezé Motta, Valdinéia Soriano, Taís Araújo, Valéria Monã, Aisha Nascimento, Lázaro Ramos, Ailton Graça, Hilton Cobra, Sidney Santiago Kuanza, Rogério Miranda, Geraldo Rodrigo França, Eugênio Lima e outros mais. Dois, em especial, hão de destacar-se pela excelência de seus testemunhos – Leda Maria Martins, poeta, professora e dramaturga, e Fernando Peixoto de Azevedo, pensador e professor da EAD-USP (Escola de Arte Dramática). Com sereno poder reflexivo, eles iluminarão nossos sentidos.
Em quase cinco décadas dedicadas ao cinema, à TV e à publicidade, Daniel Santiago desenvolveu o dom da tolerância. Não há fúria em seu filme, que dura duas horas. E que não cansa. Claro que alguém, mais ansioso, argumentará que cem minutos bastariam. O documentarista, porém, não teve pressa. Resolveu explorar todos os “ecos do TEN”, suas realizações, artífices, contradições. Sem esquecer as dores deixadas pelo caminho.
A presença de três astros brancos no filme (Bibi Ferreira, Migiliaccio e Mamberti) comprova a amplitude do olhar de Santiago. Assim como a pluralidade de vozes. Ruth de Souza dirá que “Abdias era arrogante, autoritário”. Que fez tudo para demovê-la da ideia de ir para o ABC Paulista, participar do sonho branco (europeu) da Cia Cinematográfica Vera Cruz. Já Léa Garcia, integrante do TEN, esposa e mãe de filhos de Abdias, dirá que o companheiro era “impetuoso, brigão”. Mas muito apaixonado pelo que fazia.
Haroldo Costa reafirmará o pulso forte do criador e comandante do Teatro Experimental do Negro no trato com seus comandados.“Muitos de nós preferiram rachar o TEN, criar nosso próprio grupo, o Teatro dos Novos”. Mas reconhecerá, com sua calma histórica, a grandeza do legado de Abdias. “Procurei o TEN, pois soube, por meu pai, que eu aprenderia muito junto ao grupo”. Afinal, “no prédio da UNE (União Nacional dos Estudantes), pessoas negras eram alfabetizadas para atuar como cidadãs e atores”. Lá Harfo ensinou e aprendeu.
Zezé Motta contará, com a graça que lhe é característica, que “passou vergonha” no Harlem nova-iorquino. Com a trupe do Teatro de Arena e sob o comando de Augusto Boal, ela atuava em ‘Arena Conta Zumbi’ de peruca Channel. Os pretos que estavam na plateia, com seus cabelos black power, foram conversar com Boal. E questionaram: por que aquela atriz usa aquela peruca?
De volta ao hotel, o diretor do Arena chamou Zezé para uma conversa. Contou do espanto dos colegas nova-iorquinos. “O pior”, lembra Zezé, “é que por baixo da peruca eu tinha os cabelos esticados com ferro quente”. E o que ela fez? “Envergonhadíssima, fui para baixo do chuveiro, devolver meus cabelos às suas origens”.
João Acaiabe testemunhará as raras (raríssimas) vezes em que foi convidado a protagonizar um filme. “Isso aconteceu com ‘O Dia Que Dorival Encarou a Guarda’, de Furtado & Goulart, um curta que teve excelente acolhida. O outro, um longa, “Bom Dia, Eternidade”, de Rogério Moura (2010), infelizmente, nem conseguiu estrear nos cinemas.
O ítalo-brasileiro Sérgio Mamberti, com seu espírito marcado pela ternura, erguerá o “Panteão Negro das Artes”, puxado por Abdias Nascimento, Grande Otelo, Solano Trindade, Ruth de Souza, Léa Garcia, Milton Gonçalves e Haroldo Costa”.
Em sua tentativa – bem-sucedida e obrigatória – de “iluminar o legado grandioso de Abdias Nascimento, ícone mundial da luta antirracista”, Daniel Santiago recorreu a dezenas de fotografias oriundas de fontes diversas (incluindo imagens feitas pelo mestre José Medeiros), documentos, pequenas encenações teatrais e, claro, filmes.
Um deles, de base documental, registra reportagem protagonizada por Abdias Nascimento, realizada na Wesleyan University Middletown, em Connecticut (EUA, 1970). O criador do TEN aparecerá com suéter de lã e desenho étnico que, de tão belo e representativo, tornou-se uma das peças de resistência em substantiva exposição realizada em Inhotim.
“Ecos do Teatro Experimental do Negro” nada tem de saudosista. Até porque seu foco principal recai sobre o tempo presente. A intenção de Santiago consiste em “lançar um olhar contemporâneo sobre a presença negra nas artes brasileiras”.
Abdias Nascimento e o TEN são o elemento deflagrador, o principal fio condutor da narrativos. Mas, ao buscar em grandes nomes do passado, a origem das formações coletivas que hoje atuam em São Paulo (muito bem representadas pelo Grupo Bartolomeu), o documentário nos revelará “a evolução do teatro negro, conectando o legado de 1944 aos coletivos atuais”.
Reafirmará a “resistência contra o blackface”, prática que, dirá, convicto, o ator Lázaro Ramos, “é fruto do apagamento”. Não tem porque existir. Já foi o tempo em que ator preto só servia para interpretar pequenos papeis em comédias explícitas, rasgadas e depreciativas. Passou o tempo em que o negro só servia como tema, jamais como sujeito ou agente.
Quem mergulhou nas estranhas do controvertido e poderoso “Bamboozled – A Hora do Show” (Spike Lee, 2000), encontrará em “Ecos do Teatro Experimental do Negro” um filme em outro registro. Daniel Santiago prefere as águas serenas tão propícias à reflexão. Prefere nos fazer pensar. Um documentarista, portanto, imune aos tempos exacerbados que estamos vivendo. Ainda bem.
Ecos do Teatro Experimental do Negro
Documentário, São Paulo, 2026, 119 minutos
Direção: Daniel Santiago
Fotografia: Cleumo Segond
Montagem: Cristina Amaral
Trilha Sonora: Henrique Band e José Prates
Produção: Daniel Santiago por DSS Produções
Distribuição: Pandora (André Sturm)
Participantes: Adriana Paixão, Aílton Graça, Aisha Nascimento, Bibi Ferreira, Dirce Thomaz dos Santos, Eugênio Lima, Flávio Migliaccio, Haroldo Costa, Hilton Cobra, Jefferson Oliveira Delfino, João Acaiabe, Joel Zito Araújo, José Fernando Peixoto de Azevedo, Lázaro Ramos, Léa Garcia, Leda Maria Martins, Maria Shu, Milton Gonçalves, Priscila Obassi, Rodrigo França, Rogério Miranda, Ruth de Souza, Sérgio Mamberti, Sidney Santiago Kuanza, Sol Miranda, Taís Araújo, Thiago de Jesus Catarino, Valdineia Soriano dos Santos, Valéria Monã, Zezé Motta
