“Cem Anos de Solidão” embala massacre do Movimento 888 ao som de “Bachiana” de Villa-Lobos e dialoga com o horror

Por Maria do Rosário Caetano

Uma das sequências mais impressionantes da segunda fase da série “Cem Anos de Solidão”, baseada na obra de Gabriel García Márquez e recém-disponibilizada pela Netflix, tem a ária da “Bachiana Nº 5”, de Heitor Villa-Lobos, como leitmotif sonoro. A mesma e hipnotizante ária que Glauber Rocha utilizou em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”.

O canto lírico de inebriante voz feminina ajuda a imantar a atenção do espectador para cenas épicas, que mostram o massacre de trabalhadores da United Fruit Company, poderosa empresa norte-americana instalada na Colômbia de princípios do século 20. Comandada por Mr. Brown, cuja compleição anglo-saxônica contrasta com a pele morena dos moradores de Macondo, a multinacional opera com pulso de ferro a exploração da “plantation” bananeira. Sob o comando cúmplice do General Cortez Vargas, e sob Lei Marcial, a carnificina se agigantará.

Para compor literariamente esta parte da narrativa de “Cem Anos de Solidão”, fincada na luta dos camponeses contra os patrões norte-americanos, estes apoiados pelo exército colombiano, García Márquez, o Gabo inspirou-se em fato real da história de seu país.

Em 1928, houve massacre de bananeiros grevistas, unidos no Movimento 888 (“oito dias de trabalho, oito de descanso e oito de estudo”). As mortes não receberam registro oficial. Mas a memória popular fez sua própria contabilidade – 3 mil mortos.

O capítulo 6 da segunda (e derradeira) temporada de “Cem Anos de Solidão” se chama “More Than Three Thousant of Them” (“Mais de Três Mil Deles”) e dura 61 minutos. Quem assistiu à primeira temporada dessa superprodução colombiana, bancada sem economia de recursos pela Netflix, desfrutou de recriação audiovisual de metade do mais famoso romance de Gabo. Agora chegou a vez da segunda parte. Do desfecho.

Se a primeira fase, colossal e magnífica como sua continuação, começou com a criação do povoado de Macondo, pelo casal Úrsula Iguarán-José Arcádio Buendía, e terminou com as guerras comandadas pelo Coronel Aureliano Buendía, a segunda começa justo com “O Armistício”. Para prosseguir com “A Rainha de Madagascar”, “Fernanda Del Carpio”, “O Trem Inocente Havia Chegado”, “Foi em 11 de Outubro”, “More Than Three Thousant of Them” e “Choveu por Quatro Anos, Onze Meses e Dois Dias”. Todos esses capítulos (os 7 dessa segunda fase) estão disponíveis na Netflix e totalizam arrebatadores 440 minutos.

Só o último, e definitivo, deverá ser aguardado, pois sua liberação acontecerá no final desse mês de agosto (dia 26). E o que nos será dado a ver será um longa-metragem, que funcionará como fecho de ouro para essa irresistível trama, soma de amores selvagens, sexo, guerras (muitas guerras), lutas sindicais, massacres, carnaval, obsessão religiosa e, ao fim, a solidão. Sem esquecer o fascínio por novas tecnologias (a luz elétrica, a locomotiva, o gramofone, o cinemascópio), que Gabo registrou, assim, em seu épico: “Deslumbrada por tantas e tão maravilhosas invenções, a gente de Macondo não sabia por onde começar a assombrar-se”.

Se o massacre de “Mais de Três Mil Deles”, banhado em sonoridades villa-lobianas, pode, para muitos, constituir-se no momento mais impressionante dos sete capítulos disponíveis de “Cem Anos de Solidão”, outros (os jovens em especial), poderão impressionar-se ainda mais com outra sequência notável.

Aquela que mostra o destino dos 17 filhos do Coronel Aureliano Buendía, todos nascidos de relações temporárias mantidas pelo herdeiro de Úrsula e Arcádio com mulheres de territórios diversos, onde ele travou suas muitas guerras. Todos levaram o nome do pai. 17 Aurelianos. Todos batizados com uma cruz de cinzas (indelével, saberemos) na testa. Cruz que será ponto fulcral dessa sequência que, na série, dialogará magistralmente com o cinema de horror.

O horror, afinal, impregnará a sequência que virá em seguida ao massacre dos defensores do “Ocho, Ocho, Ocho”. Veremos um trem, captado em cores soturnas, carregado com 3 mil corpos mortos. Um deles, essencial à narrativa de Gabo, emergirá daquele macabro montón. A fotografia (do talentoso Camilo Monsalve) se comporá, então, com tenebroso jogo de sombras, invólucro de corpos empilhados, e de luzes, que vazam por pequenas frestas da imensa locomotiva.

Se a primeira fase de “Cem Anos de Solidão” teve em Úrsula Iguarán (a arrebatadora Marleyda Soto), José Arcádio Buendía (Diego Vasquez) e Aureliano Buendía (Claudio Cataño) suas personagens centrais, a segunda será protagonizada por dois gêmeos, Aureliano Segundo e José Arcádio Segundo (interpretados ambos pelo carismático Julián Román). O primeiro “intuitivo, genioso, solitário, frequentemente infeliz” e o segundo, “alegre, sensual, obstinado e aventureiro”.

Úrsula, já beirando (e depois ultrapassando) os 100 anos (e sempre interpretada pela poderosa Marleyda Soto, de apenas 49 anos) cederá espaço aos gêmeos, à ultracarola (verdadeira fanática religiosa) Fernanda Del Carpio (Carla Baratta), à fogosa Remédios, a Bela (Daniela Reys), que gosta de tirar a roupa (seja onde estiver, até numa igreja), ao casal multirracial Meme (Juanita Molina) e Maurício Babilônia (Pedro Pablo Pérez) e à insaciável Petra Cotes (Angela Cano). Na retaguarda permanecerá a matriarca, mas com presença discreta, se comparada à primeira fase. E ao lado dela a também discreta Santa Sofia de la Piedad.

A descendência de Úrsula e Arcádio multiplicará os mesmos nomes de seus ascendentes. Por isso, o público poderá pensar que não está entendendo tantas tramas, tantos personagens homônimos. Se isto acontecer com espectadores menos acostumados a obras transgressoras como “Cem Anos de Solidão”, duas posturas poderão ser adotadas: 1. consultar a árvore genealógica desenhada no livro de Gabo, que já vendeu mais de 50 milhões de exemplares e foi vertido para dezenas de idiomas. 2. desencanar-se e fruir a imaginação indomável do escritor colombiano. Gabriel García Márquez estava com o diabo no corpo (e mente) quando escreveu a saga dos Buendía (o livro foi publicado na Argentina, em 1967 – no Brasil, em 1969 – e tornou-se uma das forças motrizes do chamado Realismo Mágico).

Os filhos de Gabo – o cineasta e diretor de fotografia Rodrigo García e o designer Gonzalo García Barcha – lutaram para que “Cem Anos de Solidão” fosse transposto ao audiovisual como uma realização colombiana, latino-americana, falada em espanhol por atores hispano-hablantes.

A Netflix bancou os faraônicos custos da série, que equivale a dez longas-metragens. Os herdeiros de Gabo quiseram, também, que a transposição não explorasse, em demasia, recursos do tal Realismo Mágico.

Rodrigo e Gonzalo estimularam os roteiristas (José Rivera, do guevariano “Diário de Motocicleta”, de WSJr, à frente) a apostar no Realismo (não o mágico, mas o histórico) e nos “cem anos de solidão” vividos pela Colômbia (e reinventados pelo romancista) como razão de ser do notável (e apaixonante) épico. O resultado é soberbo.

A série recebeu ótima acolhida crítica mundo a fora. Arrasou na festa dos Prêmios Platino atribuídos aos melhores do audiovisual ibero-americano. Mas não foi um estouro de público. Nem poderia, pois foge do previsível, não oferece nada mastigado, acompanha dezenas de personagens, mulheres e homens, que povoaram Macondo e ali experimentaram as mais espantosas vivências.

Aqueles, porém, que quiserem viver experiência artística especial, instigante e enriquecedora, hão de encontrar em “Cem Anos de Solidão” um manancial de belezas e sensações. Atores maravilhosos. Além da citada Marleyda Soto, convocada por Quico e Fernando Meirelles para a série “Pssica”, e de Claudio Cataño, um Aureliano Buendía de olhos profundos, como não encantar-se com o fogo abrasivo de Petra Cotes? Ou com o amor incandescente do casal Meme e Babilônia (ele, um Sidney Pitier colombiano)? Onde ver tantas mulheres e homens bonitos, de peles dos mais variados matizes?

Como não se deixar seduzir por trilha sonora que soma, além de nosso Villa-Lobos, clássicos latinos como “Siboney” e cantos populares da Colômbia caribenha? Como não apreciar direção de fotografia que evoca os grandes momentos de Vittorio Storaro, o mestre italiano, ao privilegiar cores fortes e tons vermelho-dourados?

Todos esses predicados (elenco e figurinos arrebatadores, trilha envolvente, corpos nus, como o de Remédios, a Bela, cenas de sexo ousadas e jamais apelativas) significariam pouco, se não houvesse à disposição deles uma grande história a ser contada. Depois de assistir a versão audiovisual de “Cem Anos de Solidão”, somos obrigados a lembrar, mais uma vez, o quão é imensa a capacidade de fabulação de Gabriel García Márquez, esse Homero caribenho, esse filho inquieto dos relatos das “Mil e Uma Noites”. Por isso, seu livro, que ano que vem completará 60 anos, segue fascinando novas gerações.

Cem Anos de Solidão – Parte 2
Série ficcional inspirada na segunda metade do livro homônimo de Gabriel García Márquez, 2026, Colômbia, 16 anos
Direção: Laura Mora e Carlos Moreno
Produção executiva: Rodrigo García e Gonzalo Garcá Barcha
Elenco: Marileyda Soto, Claudio Cataño, Diego Vásquez, Julián Román, Carla Baratta, Angela Cano, Juanita Molino, Pedro Pablo Pérez e muitos outros
Fotografia: Camilo Monsalve
Episódios: Estão no ar: 1. “O Armistício” (62 minutos), 2. “A Rainha de Madagascar” (59′), 3. “Fernanda Del Carpio” (61′),4. “O Trem Inocente Havia Chegado” (57′), 5. “Foi em 11 de Outubro” (75′), 6. “More Than Three Thousant of Them” (61′), 7. “Choveu por Quatro Anos, Onze Meses e Dois Dias” (66′). O fecho da série será um longa-metragem, disponibilizado no dia 26 de agosto
Onde assistir: Na Netflix – A primeira fase de “Cem Anos de Solidão” (com oito capítulos) continua disponível na plataforma

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