A plataforma Tela Brasil, ou “Governoflix”, recorre a shows do Projeto Pixinguinha em busca do público no streaming
Foto: Hermínio Bello de Carvalho
Por Maria do Rosário Caetano
O que motivaria o público brasileiro a sintonizar a Tela Brasil, ou “Governoflix”, plataforma de streaming mantida, com acesso gratuito, pelo Ministério da Cultura?
Futebol e música popular são as respostas recorrentes. O projeto, lançado dois meses atrás pelo presidente Lula, no Rio2C, não tem bala na agulha para comprar transmissões esportivas, nem shows de artistas brasileiros que lotam estádios. Seu orçamento inicial foi de apenas R$10 milhões. Só deu para bancar as instalações tecnológicas e licenciar (via edital) modesta quantidade de filmes.
Para termos de comparação, vale lembrar que, com o dinheiro ofertado pelo banqueiro Daniel Dantas (R$65 milhões) a Flávio Bolsonaro, para “gastos na produção do filme ‘Dark Horse’”, seria possível montar seis plataformas do Tela Brasil.
Diz o ditado que, “quem não tem cão, caça com gato”. Foi o que a “Governoflix” fez. Montou sua programação com 139 longas-metragens (o mais buscado, nas últimas oito semanas, foi “A Hora da Estrela”, de Suzana Amaral), 267 curtas e materiais oriundos de acervos da Cinemateca Brasileira (destaque para o “Canal 100”, de Carlinhos Niemeyer) e da Funarte (com o incontornável “Projeto Pixinguinha”, maior vitrine contemporânea da história de nossa MPB).
Quem sintonizar a Tela Brasil (www.gov.br) não encontrará a íntegra dos shows que, nas década de 1970 e 80, sob a benção simbólica de Alfredo da Rocha Vianna Filho, o Pixinguinha, uniram Clementina de Jesus e João Bosco, Cartola e João Nogueira, Paulinho da Viola e Canhoto da Paraíba, Alceu Valença e Jackson do Pandeiro, Moreira da Silva e Macalé, Abel Ferreira e Ademilde Fonseca etc., etc. e etc. A lista é bem abragente.
Duplas “inesperadas” botaram o pé na estrada e apresentaram quatro mil shows em palcos espalhados por cinco regiões brasileiras. Nomes de grande peso foram mobilizados: Nelson Cavaquinho, Martinho da Vila, Elizeth Cardoso, Sivuca, Dona Ivone de Lara, Jamelão, Johnny Alf, Nara Leão, Dominguinhos, Marlene, Beth Carvalho, Luiz Melodia, Oswaldinho do Acordeon, Carmélia Alves, Nora Ney, João do Vale, Cauby Peixoto, Elba Ramalho, Roberto Corrêa… Uma lista enorme, cujas maiores ousadias incluem a escalação da cantora lírica Maria Lúcia Godoy, para interpretar sucessos como “Azulão”, de Jayme Ovalle e Manuel Bandeira, e – acreditem – a Orquestra Tabajara de Severino Araújo.
Quando a Funarte, representada por Hermínio Bello de Carvalho, criou, sob inspiração do “Seis-e-Meia”, de Albino Pinheiro, o Projeto Pixinguinha, a ideia era difundir a melhor música popular brasileira, em finais de tarde, recorrendo a espetáculos de altíssima qualidade sonora. E com ingressos a baixos preços.
Claro que não havia grana para pagar altos cachês, nem para mobilizar estrelas como Tom Jobim, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Milton Nascimento. Até porque esses artistas lotavam shows em qualquer ponto do território nacional. Não necessitavam do fomento de instituições culturais do Estado.
As más línguas chamavam o Pixinguinha de “Projeto Pexinxinha”, por causa dos modestos cachês pagos aos artistas. Mesmo assim, por suas qualidades artísticas e pelas duplas inusitadas que uniu, o projeto acabou mobilizando artistas da grandeza de Martinho da Vila (outro que lotava grandes ginásios) e Alceu Valença. Ambos por acreditarem na grandeza e força simbólica da ideia que o gerou e para estabelecer parcerias criativas artisticamente instigantes.
Hermínio Bello de Carvalho, do alto de seus gloriosos 91 anos, relembra, para a Revista de CINEMA, os anos de ouro do Projeto Pixinguinha. Isto depois de revelar que ainda não assistiu ao material audiovisual disponibilizado pela Tela Brasil.
“O Projeto Pixinguinha” – rememora – “nada mais é que cópia assumida do Projeto Seis-e-Meia, idealizado, criado e lançado por Albino Pinheiro, no Teatro João Caetano, em 1976. Me irrito quando atribuem a mim a criação desse projeto: apenas o formatei artisticamente. Em 1977, apresentei à Funarte, em nome da Amar (Associação de Músicos, Arranjadores e Regentes), o esboço desse projeto seguindo o mesmo modelo do Seis-e-Meia, mas com objetivos bem mais amplos: torná-lo um programa itinerante de alcance nacional e destinado à formação de novas (e jovens) plateias, sempre com espetáculos de altíssimo nível artístico”.
Para Hermínio, “o projeto inverteria a lógica predominante no mercado que era a de subsidiar o empresariado: os ingressos seriam de baixíssimo valor, subsidiando o espectador – sobretudo aquele de baixo poder aquisitivo”. O resultado – prossegue – “é que os teatros viviam abarrotados de público de todas as classes sociais, inclusive obrigando a Funarte a promover sessões extras”. De forma que houve incremento “nos valores relativos aos direitos autorais pagos indiretamente (através do Ecad) aos autores das obras incluídas nos repertórios de cada show. Podemos ir além, se levarmos em conta os benefícios levados a estabelecimentos comerciais (sobretudo bares e restaurantes vizinhos aos teatros), que acolhiam clientela bem maior que a habitual. Ou seja: o faturamento aumentava com o consumo, por exemplo, de bebidas e similares”.
O diretor artístico do Pixinguinha lembra, ainda, “que o Projeto Pixinguinha contribuiu, também, para a formação de novos técnicos na área desses espetáculos itinerantes”. E, feliz por ter sido um dos artífices do projeto, ele constata que “foram vastíssimos os recursos financeiros obtidos ao longo de sua existência – sobretudo pelo apoio conseguido junto à Petrobras –, além daqueles negociados com os governos estaduais que copatrocinavam o projeto”. Para afirmar, convicto, “vivemos com o Pixinguinha um legítimo processo de democratização da cultura”. Que “não haja a menor dúvida a respeito”.
Sobre a sobrevivência do Pixinguinha na memória coletiva dos amantes da música popular brasileira, Hermínio pondera: “Um programa que não gera resíduos culturais tende a ser apagado da memória nacional – e isso não aconteceu com o Projeto Pixinguinha. Fico feliz em saber que os espectadores da plataforma Tela Brasil poderão assistir a seus registros audiovisuais”.
O parceiro de Jacob do Bandolim em “Noites Cariocas” arremata: “hoje, quando assistimos a uma verdadeira multidão fantasiada, rindo e dançando e cantando e acompanhando o cortejo do Boitatá ou a Banda de Ipanema (entre outros blocos de rua), em quase todos os bairros do Rio de Janeiro, essa alegria e felicidade nos faz reviver a mesma que brotava no coração de todos aqueles milhares de espectadores que abarrotavam os maiores teatros brasileiros para ouvir música brasileira no lamentavelmente extinto Projeto Pixinguinha. E, reforço, tais espectadores pagavam um ingresso subsidiado cujo valor equivalia, na época, a um maço de cigarros”.
E o que a plataforma Tela Brasil está apresentando, além dos longas e curtas-metragens ficcionais e documentais? Que registros audiovisuais sobraram dos anos de atividade do Projeto Pixinguinha?
Dos shows que se multiplicaram de 1977 até o final da década de 1980, sobraram registros modestos. Nenhum deles foi documentado em versão integral. Mas – há sempre um mas na desmemoriada história cultural brasileira – havia um homem no meio do caminho. Um engenheiro de som nascido em Porto Alegre, filho de pai alsaciano e mãe de ascendência alemã. O nome dele era Frank Justo Acker (1921-1999).
Apaixonado por nossa música popular e erudita, o técnico gravou 1,4 mil fitas profissionais, 120 delas dos shows da maratona Pixinguinha.
No documentário “Projeto Pixinguinha – Uma História” (56 minutos, disponibilizado pela Tela Brasil), o espectador reviverá a trajetória dos shows pixinguínicos. Trata-se de produção da TV Educativa do Rio de Janeiro, então parte da Radiobrás, realizada em 1987, para festejar os dez anos de uma das “meninas dos olhos” da Funarte.
O programa soma dezenas de depoimentos. Os melhores deles são de Hermínio, afinal, o sustentáculo conceitual do projeto, e do compositor, violonista e cantor João Bosco. O parceiro de Aldir Blanc relembrará sua dupla artística com Clementina de Jesus. Depois de definir “Ronco da Cuíca” como “a música mais Clementina de todas que eu fiz”, ele vai relatar algo que se passara no Teatro Guaíra, em Curitiba.
“Nosso show aconteceria às 18h30. Às 21h00, seria a vez de Roberto Carlos. O som para o show do Roberto estava instalado. E nós, como ficaríamos? Então, procurado, o artista do horário nobre autorizou, ao saber tratar-se de apresentação de Clementina de Jesus, a utilização da infraestrutura sonora de seu espetáculo”.
Em outro mesmo momento do programa, Philippe Ingrand, profissional de sonorização e gravação, relembra a valiosa ação de Justo Acker, capaz de doar todas as suas fitas aos guardiões da memória do Pixinguinha. Como havia, no Acervo da TVE (hoje EBC-TV Brasil), algumas imagens em movimento de muitos dos shows e quantia expressiva de fotos fixas, o programa da TV pôde ser realizado. Pôde somar o testemunho de Hermínio Bello de Carvalho ao de artistas como Alceu Valença, Maria Lúcia Godoy, Erasmo Carlos (que dividiu o palco com As Frenéticas), Martinho da Vila, que reafirmou seu apoio ao Projeto Pixinguinha, a João Bosco, entre outros.
Os interessados em assistir à série de programas pixinguínicos disponibilizados pela plataforma Tela Brasil encontrarão seu detalhamento nas listas abaixo. E também os dez títulos mais vistos e dicas de longas e curtas apresentados nessa primeira etapa do “Governoflix”.
Destaque-se, aqui, que as 555 obras programadas são em maioria contemporâneas. Mas há algumas produções realizadas desde o início do século XX (1910).
PROJETO PIXINGUINHA
. “Projeto Pixinguinha – Uma História”, 56 minutos, 1987 (TV Educativa) – Episódio 1
. “Projeto Pixinguinha – Primeiros Anos (1977-1979” – 8 minutos – Episódio 2
. “Projeto Pixinguinha – Caravanas Retratadas em Documentário” – 73 minutos – Episódio 3
. “Projeto Pixinguinha – Carvanas” – 10 minutos – Episódio 4
. “Projeto Pixinguinha – Audição de Acervo, Parte 1” – 10 minutos – Episódio 5
. “Projeto Pixinguinha – Audição de Acervo, Parte 2” – 10 minutos Episódio 6
. “Projeto Pixinguinha – Uma Conversa Sobre” – 8 minutos – Episódio 7
. “Doris Monteiro e o Projeto Pixinguinha” – 9 minutos – Episódio 8
. “Projeto Pixinguinha – Depoimento de João das Neves (diretor de shows do projeto musical)” – 5 minutos – Episódio 9
. “Projeto Pixinguinha – Depoimento de Gabriela Sandes (estudiosa dos impactos do Projeto)” – 9 minutos – Episódio 10
. “Projeto Pixinguinha – 500 mil espectadores e ações da Censura ” – 8 minutos – Episódio 11
LONGAS E CURTAS MAIS ASSISTIDOS
. “A Hora da Estrela”, ficção de Suzana Amaral, baseada em obra de Clarice Lispector (1985) – Prêmio Urso de Prata de melhor atriz para Marcélia Cartaxo, em Berlim.
. “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha (1964)
. “Carandiru”, ficção de Hector Babenco, baseada em livro de Drauzio Varella (2003)
. “O Que É Isso, Companheiro?”, ficção de Bruno Barreto baseada em livro homônimo de Fernando Gabeira (1997)
. “Ilha das Flores”, curta de Jorge Furtado (1989) – Urso de Prata no Festival de Berlim
. “Olga”, cinebiografia de Olga Benário, dirigida por Jayme Monjardim, a partir do best seller de Fernando Morais (2004)
. “O Órfão”, curta-metragem de Carolina Makowicz (2018, 16 minutos)
. “Tia Ciata”, curta-metragem de Mariana Campos e Raquel Beatriz (2017, 26 minutos)
. “Oswaldo Cruz”, curta-metragem produzido Departamento do Filme Educativo do INC (Instituto Nacional de Cinema) – (1973 – 15 minutos)
SAFRA “INDICADOS AO OSCAR”
. “O Sal da Terra”, documentário de Wim Wenders e Juliano Salgado (2014)
. “O Menino e o Mundo”, longa de animação dirigido por Alê Abreu (2013)
. “Lixo Extraordinário”, documentário de Lucy Walker, Karen Harley e João Jardim (2010)
. O Que É Isso Companheiro?”, ficção de Bruno Barreto (1998)
. “O Quatrilho”, ficção de Fábio Barreto (1995), baseada em livro de José Clemente Pozenato
. “Orfeu Negro”, de Marcel Camus (produção francesa, baseada na peça Orfeu da Conceição, de Vinícius de Moraes, filmada no Brasil, 1959)
ALGUNS DOS 139 LONGAS DISPONÍVEIS
. “São Paulo S.A.”, ficção de Luiz Sérgio Person (1965) – Com Walmor Chagas, Eva Wilma e Otelo Zeloni
. “Cinema, Aspirinas e Urubus”, ficção de Marcelo Gomes (2005)
. “Quase Dois Irmãos”, ficção de Lúcia Murat (2004) – Com Flávio Bauraqui e Caco Ciocler
. “Terra para Rose”, documentário de Tetê Moraes (1987)
. “Divinas Divas”, documentário de Leandra Leal (2017)
. “Galeria F”, documentário de Emília Silveira (2016) – Sobre a militância política de Theodomiro Romeiro dos Santos, do PCBR, preso aos 18 anos.
. “Torquato Neto – Todas as Horas do Fim”, documentário de Marcus Fernando e Eduardo Ades (2018)
. “As Duas Irenes”, ficção de Fábio Meira (2017)
. “Noites do Espantalho”, ficção de Sérgio Ricardo (1974) – Com José Pimentel, Gilson Moura, Alceu Valença, Rejane Medeiros e Geraldo Azevedo
. “Amei um Bicheiro”, film noir de Jorge Ileli (1952) – Com participação antológica de Grande Otelo
. “Carnaval Atlântida”, chanchada em ritmo de filmusical, dirigida por José Carlos Burle (1952)
. “O Homem do Sputnik”, a mais festejada das chanchadas de Carlos Manga. Com Oscarito, Zezé Macedo e Norma Bengell (1959)
. “Gêmeas”, ficção de Andrucha Waddington, baseada em Nelson Rodrigues, com Fernanda Torres em papel duplo
ACERVO GLAUBER ROCHA
. Trilogia da Terra:
. “A Idade da Terra”, ficção (1981)
. “Terra em Transe”, ficção (1967)
. “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, ficção (1964)
Outros:
. “Barravento”, ficção (1962)
. “O Leão de Sete Cabeças”, ficção filmada na África (1970)
. “Câncer”, o filme “underground” do realizador cinemanovista (1968-1972)
. “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro” ficção (1969) – melhor direção em Cannes
. “Maranhão 66”, documentário sobre a posse de José Sarney no governo do estado nordestino (1966)
. “Pátio”, curta-metragem (1959)
FUTEBOL E CINEMA
O Tela Brasil disponibiliza grandes momentos do cinejornal “Canal 100”, de Carlinhos Nimeyer, que documentou alguns dos maiores-e-melhores momentos da história do futebol brasileiro. Sempre ao som de “Na Cadência do Samba” (ou “Que Bonito É!”, clássico de Luiz Bandeira (1956), em gravação instrumental de Valdir Calmon (1957).
BUSCA TEMÁTICA
O espectador mais curioso encontrará filmes de curta, média ou longa-metragem agrupados sobre os seguintes temas:
. Infância
. Juventude
. Africanidades
. Brasilidade
. Diversidade Cultural
. História e Estética
. Acervo MinC
