GDF repete procedimento do Governo Militar e cancela realização do Festival de Brasília, o mais antigo do país

Por Maria do Rosário Caetano

A governadora do Distrito Federal Celina Leão cancelou, através de sua Secretaria de Cultura e Economia Criativa, a realização da quinquagésima-nona edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o mais antigo do país. Criado em 1965, por Paulo Emílio Salles Gomes e integrantes da Fundação Cultural do DF, o evento foi interrompido, por três anos (1972, 73 e 74), em pleno Governo Médici, tido como o mais obscuro do ciclo militar. Renasceu em 1975, ano em que “Guerra Conjugal”, de Joaquim Pedro de Andrade, e “A Rainha Diaba”, de Antônio Carlos da Fontoura, conquistaram os principais prêmios.

A primeira fase do festival desenvolveu-se em sete edições, realizadas de 1965 (ano da premiação de “A Hora e Vez de Augusto Matraga”, de Roberto Santos) a 1971 (Troféu Candango para “A Casa Assassinada”, de Paulo Cezar Saraceni). Depois da interrupção de três anos, foram organizadas 51 edições (de 1975 a 2025).

A governadora do DF, candidata pelo PP (Partido Progressista, de centro-direita), a permanecer no cargo nas eleições de outubro, entende que o Festival de Cinema não constitui “prioridade”. A Secretaria de Cultura diz não dispor de recursos para a realização do evento. Depois dos problemas do BRB (Banco de Brasília) com o Banco Master, de Daniel Vorcaro, a situação tornou-se nebulosa. Afinal, o principal patrocinador do evento, o próprio BRB, patrocinador-master (sem ironia), está sob escrutínio das autoridades econômico-judiciais. E não assumiu sua parte no financiamento do festival.

Nessa segunda-feira, a Rádio CBN anunciou, em primeira mão e tendo a Secretaria de Cultura como fonte, que a quinquagésima-nona edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, agendada para setembro (de 11 a 19), está oficialmente cancelada.

A Revista de CINEMA consultou a Alfarrábios Culturais, empresa de assessoria de imprensa que presta serviços ao Instituto Alvorada Brasil, responsável pela realização do evento. Três anos atrás, o Instituto venceu edital público para assinar a produção executiva de três edições (duas já realizadas, essa seria a terceira).

O jornalista Guilherme Lobão confirmou o cancelamento do festival candango e lamentou que isso aconteça com o mais antigo e tradicional evento cinematográfico do país, que ano passado comemorou 60 anos de existência e 58 edições realizadas.

Lobão lembrou que “o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro foi cancelado uma única vez, nos anos mais duros da ditadura militar”. Mas “voltou a acontecer e teve suas edições realizadas, inclusive, durante os governos Geisel e Figueiredo”. E “prosseguiu até no Governo Collor, responsável pelo desmonte de importantes políticas culturais e organismos de fomento, como a Embrafilme e o Concine”.

“Nem a pandemia da Covid-19” – acrescentou – “conseguiu parar o mais antigo e tradicional festival de cinema do país”. Para arrematar: “assistimos agora, estupefatos, à destruição desse que é um dos maiores patrimônios imateriais do cinema brasileiro”.

O constrangimento torna-se ainda maior se lembrarmos que 80 filmes, de curta e longa-metragem, já haviam sido selecionados pela curadoria do Festival de Brasília, que exige ineditismo das obras escolhidas. A quatro semanas do início da edição de número 59, a equipe liderada por Henrique Rocha e pela produtora Sara Rocha, neta de Glauber Rocha, se viram angustiados com a indefinição que cercava o evento. Afinal, o prejuízo aos produtores era evidente. E, para complicar, a equipe, composta de 50 pessoas, já trabalhava, há três meses, sem receber pelos serviços prestados.

O cineasta Jimi Figueiredo, que já participou do festival como diretor e produtor de filmes selecionados para mostras competitivas e como jurado, registrou seu descontentamento com a inesperada situação: “Desde sua primeira edição em 1965, o Festival de Brasília só não aconteceu de 1972 a 74, durante a ditadura militar. É lamentável que sua quinquagésima-nona edição não se realize”. Faz-se necessário que “artistas, produtores e amantes do cinema façam bastante barulho nesse exato momento para reverter essa situação”.

A pesquisadora Berê Bahia, que escreveu a primeira história do Festival de Brasília (referente ao período 1965-1997), publicada em livro-álbum em 1998, mostrou sua indignação: “Vergonha e tristeza. É o que eu sinto. Brasília afundada na lama do BRB: na Saúde, na Educação e, agora, na Cultura. O FBCB (sigla do festival), aos 61 anos, só foi interrompido na ditadura. Aconteceu até durante a pandemia, em formato online. A Secretaria de Cultura diz que a interrupção é motivada por falta de verba. Será que os patrocinadores retiraram seu apoio em caráter preventivo por causa do escândalo do Banco Master? Aguardemos”.

A Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) se manifestou em nota oficial de sua diretora, frente ao cancelamento da qüinquagésima-nona edição do festival:

“Recebemos com indignação e tristeza a notícia do cancelamento da 59ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, prevista para setembro deste ano.

Criado em 1965, e interrompido somente durante a ditadura militar, a história do Festival de Brasília se confunde com a do cinema brasileiro. Ao longo de seis décadas, tornou-se um espaço de descoberta, debate, resistência e reflexão sobre a produção audiovisual do país, acompanhando suas transformações estéticas e políticas, além de contribuir para a formação de gerações de realizadores, críticos, pesquisadores e espectadores.

O cancelamento de uma edição por mau uso de recursos públicos não pode, portanto, ser tratado como a simples suspensão de um evento no calendário cultural. O Festival de Brasília é uma instituição do cinema brasileiro e uma política pública consolidada, cuja continuidade deve ser compreendida como responsabilidade do Estado.

A situação se torna ainda mais grave porque a 59ª edição já estava em andamento. As inscrições foram abertas em março; filmes foram inscritos e selecionados; equipes trabalharam durante meses para a realização do festival, com base em um planejamento estabelecido com a participação do próprio Governo do Distrito Federal. A interrupção neste momento atinge trabalhadores, realizadores e todo ecossitema do audiovisual, sem falar no público que há décadas reconhece o festival como parte da vida cultural de Brasília.

A Abraccine mantém uma relação histórica com o Festival de Brasília, acompanhando suas edições, promovendo o exercício e a reflexão sobre a crítica cinematográfica, organizando o júri da crítica e participando ativamente dos debates que o Cine Brasília acolhe como um de seus espaços mais importantes. Por isso, este cancelamento também nos atinge diretamente.

Lamentamos profundamente que um festival que resistiu a tantas transformações políticas, econômicas e sociais do país seja impedido de realizar sua 59ª edição por falta de recursos públicos.

A Abraccine manifesta sua solidariedade aos profissionais envolvidos na realização do festival, aos cineastas e equipes dos filmes inscritos e ao público. E se soma às vozes que defendem a preservação e a continuidade do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Festivais não são apenas vitrines para filmes. São espaços de memória, circulação, encontro e construção da cultura cinematográfica de um país. Preservar o Festival de Brasília é preservar uma parte fundamental da história do cinema brasileiro”.

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