Artigos Criação — 23 julho 2015
Imaginação e ideologia

O roteirista deve propor ideias repugnantes. Seu trabalho diário é violar a mãe e vender a irmã. Faz parte da profissão, como defende o escritor Jean-Claude Carrière, mas nos dias de hoje é possível ouvir os protestos sobre não agredir as mulheres ou não tratar o ser humano como mercadoria.

As ideologias sufocam a imaginação. A estrutura ideológica trabalha com categorias rígidas – o pobre, o opressor, a vítima social, o policial – a serviço de uma causa. A realidade se converte em conceitos abstratos que caibam em uma bandeira.

Em uma época ideologizada como a nossa – em que todos têm opiniões sólidas que vão do Morro do Alemão ao Irã – a tendência é que sejam contadas histórias assépticas e bem comportadas. Perdemos o prazer do perigo e da má educação.

Uma narrativa audiovisual vibrante precisa que suas criaturas ficcionais tenham vidas interiores e exteriores complexas, que se lancem no imprevisto e na ambiguidade, que desafiem as certezas e explorem a variedade das situações humanas. A imaginação precisa ser capaz de navegar na complexidade moral e existencial. Quando pressionada pela ideologia, a imaginação tende a se enrijecer, a se encolher em um canto com medo do que vão dizer a seu respeito.

Eventualmente, esse fenômeno aparece nas salas de aula de roteiro. É claro que um professor não deve agredir sensibilidades, mas na narrativa isso é quase uma obrigação. Existe uma linha invisível que separa o mundo das nossas relações humanas cotidianas do mundo da ficção. O mundo da história é um vale-tudo violento, lugar de perversidade e crueldade. Nesse lugar, a ideologia é o garoto bem comportado ditando regras de conduta e, portanto, estragando a brincadeira. Em roteiro, a ideologia é um clichê.

No mercado de trabalho, a ideologia está conseguindo elaborar a forma mais brilhante e perversa de censura. Ela não vem do produtor, do patrocinador ou do canal. Agora a censura é um chip grudado na imaginação dos autores: determinadas ideias são derrubadas antes mesmo de serem expressas. As salas dos escritores, que deveriam ser os lugares da ousadia e da coragem – afinal, é o que o público espera de nós – correm o risco de se converterem em uma granja com galinhas assustadas.

A coragem está cada vez mais inconcebível. Que filme brasileiro colocaria na boca de um personagem negro, como fez Lars von Trier em “Manderlay”, que a escravidão é voluntária? Aliás, qual cineasta ou roteirista cometeria um décimo das provocações do diretor dinamarquês?

Sempre haverá, nas listas de discussão de roteiristas, alguém para argumentar que não se deve matar cartunistas, mas… Depois de alguma conjunção adversativa, sempre surge o incômodo porque uma história violou as convicções do roteirista ou ameaçou suas bandeiras.

Um artista não é um político ou um ativista em um púlpito, mas o cara que faz barulho no auditório. O que um autor encena na tela não é uma pregação, mas uma hipótese sobre a existência. O crítico canadense Northrop Frye, um dos que melhor compreendeu a essência das narrativas, diz que o mundo da imaginação é o lugar onde tudo é possível e qualquer coisa pode ser representada: o poeta não estabelece uma verdade, ele diz algo como “vamos supor que seja assim…”. A narrativa não é exemplo nem preceito, mas sim um território de hipóteses entre ambos.

Uma das intuições decisivas da obra do crítico literário Lionel Trilling é o conceito de imaginação moral. A contaminação da ideologia faz com o que o bom seja bom e o mau seja mau – diante de uma mistura, em uma zona cinzenta, a imaginação do ideólogo trava. A imaginação moral não é aprender um código, mas apreender nas narrativas toda a sutileza, as nuances, as ironias e contingências que só as histórias e personagens concebidos por uma imaginação liberta podem criar.

Talvez seja hora de colocar uma placa na porta da sala de roteiristas: deixe a ideologia do lado de fora. Um escritor não tem princípios. Ou tem, mas são iguais aos de Marx: “Esses são os meus princípios! Se você não gosta deles, eu tenho outros”.

 

Por Ricardo Tiezzi, escritor e professor

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(7) Comente

  1. Ricardo, seu artigo veio em uma boa hora pra mim. Estou me aventurando, pela primeira vez, em um roteiro. E estou caminhando por uma estrada bastante perigosa: religião. Nesse caso, não vejo outra saída senão correr o risco de colocar na boca do protagonista algumas de minhas poucas convicções nesse campo. Creio que se eu estiver à altura do tema e isso resultar numa obra arte, o espectador saberá diferenciá-la de um panfleto doutrinário, carregado de ideologias. Para obter êxito, creio que o fundamental é que as personagens não sejam meros tipos, caricaturas, mas sim pessoas ” de verdade”. Será por aí?

  2. olá, Júlio

    eu gosto da maneira como o Milan Kundera pensa: “um romance não formula nada; ele busca e formula questões. Não sei se a minha nação vai morrer e não sei qual dos meus personagens têm razão. Eu invento histórias, ponho uma em confronto com a outra, e dessa maneira faço perguntas”. Eu diria: não existe a sua convicção, existem as convicções dos personagens. Abs

    • Muito obrigado pela atenção e pela belíssima citação, Ricardo. Muito me ajudou. Seguirei por aí. Abs.

  3. Gostei do artigo.
    Eu sou Ministro e Musico na igreja e minha sogra me questiona; por que eu só gosto de ficção,terror, ação e et..
    O que eu sempre digo é o seguinte: Se fosse para assistir coisas comuns eu iria ver novela!
    Meu primeiro Roteiro foi uma ficção e os outros então seguindo essa linha.

  4. só uma correção:

    o começo da citação do Kundera é: um romance não afirma nada; ele busca e formula questões”.

  5. Gostei muito de sua reflexão e não se aplicaria apenas aos roteiristas, mas serve a todos que atuam no audiovisual, até mesmo aos que selecionam projetos.

  6. Existe vida inteligente por aqui. Ideologia não dá filme: isso tem que ser anunciado em voz alta aos quatro ventos!!! Citar o outro Marx é um sinal claro de que nem tudo está perdido.

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