É Tudo Verdade homenageia Pamela Yates

Na sequência mais impressionante do filme “Grãozinho de Areia”, de Pamela Yates, cineasta homenageada pela 23ª edição do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários de São Paulo, nos emocionamos e, ao mesmo tempo, nos afligimos com a coragem da jovem realizadora norte-americana. Ela tinha vinte anos, quando embarcou em helicóptero das Forças Armadas guatemaltecas, para missão de combate a guerrilheiros. A aeronave foi atingida, perdeu altura e fez pouso forçado nas montanhas.

O que os militares não sabiam é que a jovem cineasta, hoje com 55 anos, era defensora ardente dos direitos humanos, em especial das populações indígenas guatemaltecas (ixil-maya). Que já filmara os rebeldes e era simpática à luta deles. Afinal, indígenas, em especial os que viviam na província de Quiché, vinham sendo massacrados pelas forças comandadas pelo General Ríos Montt. General que assumira, recorrendo a golpe de estado, o cargo de presidente do país centro-americano, de março de 1982 a agosto de 1983.

“Granito de Arena” (2011) é o segundo filme da Trilogia Guatemalteca de Pamela Yates. O primeiro, “Quando as Montanhas Tremem” (1983), revelou ao mundo a líder indígena Rigoberta Menchú, a futura Prêmio Nobel da Paz/1992). O terceiro, “500 Anos” (2017)“, registra o julgamento de Ríos Montt por tribunal internacional (semelhante ao que condenou Augusto Pinochet por crimes contra a Humanidade). O militar e ditador guatemalteco, morto no último dia primeiro de abril, aos 92 anos, foi condenado a 50 anos de prisão “por genocídio de população indígena, quase metade, crianças da etnia ixil”.

A Trilogia Guatemalteca pode ser vista na íntegra no Festival. Nesta terça-feira, 17, “Quando as Montanhas Tremem” será exibido no Sesc 24 de Maio (11h00) e “500 Anos”, no IMS, na Avenida Paulista (17h00). Na quarta-feira, 18, Pamela Yates faz palestra no Sesc 24 de Maio (seguida de debate com o público, às 15h00), ao lado de seu produtor e companheiro, Paco Onís. Antes do debate serão exibidos “Grãozinho de Areia” (11h00) e “500 Anos” (13h00). O Encontro com Panela Yates, parceria do festival com o Human Rights Watch do Brasil, contará com a participação de Carolina Cooper e mediação de Beatriz Peres.

Pamela participou, ano passado, do É Tudo Verdade com o documentário “Cidadão Rebelde”, sobre seu conterrâneo Haskell Wexler (1922-2015), diretor de fotografia (inclusive de “Cinzas no Paraíso”, de Terrence Malick, crédito atribuído só a Nestor Almendros), além diretor de vários documentários e do ficcional “Latino”. Como Wexler, Pamela sempre foi apaixonada pela América Latina. Pela Guatemala e o Peru, em especial, dois países com grandes populações indígenas.

Quem assistiu aos documentários da competição brasileira e aos filmes da Trilogia Guatemalteca pôde ver proximidade entre três deles: “Autos de Resistência”, de Natasha Neri e Lula Carvalho, “Elegia de um Crime”, de Cristiano Burlan, e “Grãozinho de Areia”.

E em que estes filmes se aproximam? Na tentativa de ajudar, com imagens cinevideográficas, o Poder Judiciário a desvendar práticas criminosas.

Pamela oferece a um juiz espanhol, responsável pelas investigações do crime de genocídio, cometido pela ditadura guatemalteca, as imagens que produziu ao longo de quase três décadas.

O carioca “Autos de Resistência”, longa-metragem sobre crimes cometidos pela Polícia no Rio de Janeiro, mobiliza mães-moradoras de favelas cariocas, que perderam filhos e não viram os assassinos condenados. Afinal, a justificativa apresentada ao Judiciário é sempre a mesma: “auto de resistência”. Ou seja, a força policial só revidou a ataque de bandidos. Até que – mostra o documentário – um ingênuo registro de imagens tremidas (feitas com celular) provou o contrário em um dos casos levados a julgamento. Dois adolescentes conversavam e gravavam banalidades, quando foram atingidos por tiros. Se não fosse por tal registro mostrado à Justiça, os policiais teriam, mais uma vez, se safado. O documento visual comprovou que os jovens nada tinham a ver com crime de roubo de carga, justificativa dos policiais para matar um deles e balear no peito o outro (que sobreviveu para contar o que se passara). Seu depoimento seria, porém, colocado em dúvida se não existissem as imagens do celular.

No paulistano “Elegia para um Crime”, Cristiano Burlan realiza longa-metragem para tentar prender Jurandir Muniz de Alcântara (assassino, condenado e foragido, da mãe do cineasta, Isabel Burlan da Silva). Ao saber que Jurandir encontrava-se em um assentamento na periferia de Uberlândia, Burlan e pequena equipe se dirigiram ao Triângulo Mineiro. Frente ao jogo de empurra-empurra entre a Polícia Civil e a Polícia Militar, o cineasta recorreu a veterana repórter policial do SBT e juntos foram procurar o assassino entre os barracos da “invasão”. Neste filme, que fecha a Trilogia do Luto, Burlan sequencia “Construção” (2007), sobre o assassinato de seu pai, e “Mataram meu Irmão” (premiado pelo É Tudo Verdade em 2013) sobre o assassinato de seu irmão, Rafael, na região do Capão Redondo paulistano.

 

Por Maria do Rosário Caetano

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