Olivier Assayas filma “Wasp Network”, adaptação da obra de Fernando Morais
Fernando Morais © André Neves

Por Maria do Rosário Caetano

Neste exato momento, o cineasta francês Olivier Assayas comanda, em Havana, as filmagens de “Wasp Network”, adaptação cinematográfica do livro “Os Últimos Soldados da Guerra Fria”, do brasileiro Fernando Morais.

No elenco, um dream team de atores ibero-americanos, formado com o baiano Wagner Moura, o mexicano Gaël García Bernal, o venezuelano Edgard Ramírez (o “Carlos” da poderosa série de Assayas) e o chileno Pedro Pascal (parceiro de Wagner em “Narcos”). Liderando o time feminino, estão a espanhola Penélope Cruz, a cubana Ana de Armas e a porto-riquenha Adria Arjona.

Aos protagonistas de “Wasp Network”, somar-se-ão dezenas de atores, muitos deles norte-americanos (Steve Howard, Michael Vitovich, Brannon Cross, Stephen W. Tenner), pois a história se passa, em maior parte, nos EUA.

Foi em Miami, entre outros pontos da Flórida, que o Governo Fidel Castro infiltrou cinco agentes de inteligência cubanos (ainda não se divulgou o nome do ator que fará o quinto espião). A história de “Os Últimos Soldados da Guerra Fria” se desenrola ao longo da década de 1990. Com o fim da União Soviética, Cuba vivia o chamado “período especial”, com a economia destroçada. Para obter divisas, acionou-se, com força máxima, a indústria do turismo.

Foi neste momento de crispação política e econômica, que os cubanos radicados na Flórida – os pejorativamente chamados “gusanos”, liderados por Jorge Mas Canosa, da FNCA (Fundação Nacional Cubano-Americana) – planejaram atentados para destruir hotéis e apavorar turistas em Havana. Foi neste mesmo momento, que os serviços de inteligência de Cuba mandaram seus melhores quadros para a Flórida, infiltrando-os em organizações terroristas de extrema-direita.

Quem aprecia filmes de espionagem e ação deve encontrar no novo longa de Olivier Assayas – além do lisérgico “Carlos”, ele dirigiu, entre muitos outros, “Depois de Maio” e “Acima das Nuvens” – material de grande originalidade e adrenalina. Mas, com um detalhe: ao invés de espiões fashion, carros de última geração e canetas que se transformam em armas poderosas, assistirão às aventuras de cinco agentes de inteligência cubanos recebidos na Flórida como dissidentes e, por isto, obrigados a trabalhar em empregos humildes (faxineiros, atendentes e, até, pilotos de “gusanos”).

“Wasp Network” mobiliza, em sua produção, quatro países: Brasil (através da RT Features, de Rodrigo Teixeira), França, Espanha e Cuba. Para falar sobre a adaptação cinematográfica de seu nono livro, o quinto publicado pela Companhia das Letras, a Revista de CINEMA entrevistou o escritor e jornalista Fernando Morais.

O ex-secretário de Cultura do Estado de São Paulo (em sua gestão, criou-se o Memorial da América Latina), ex-deputado federal e editor do blog Nocaute, falou, também, de outras três adaptações que levaram livros seus ao cinema: o blockbuster “Olga”, o polêmico “Chatô” e o pouco visto “Corações Sujos”. Morais não fugiu de nenhuma pergunta, mas preferiu não comentar “liberdade narrativa” do filme “Chatô” (a que coloca dois inimigos figadais – Samuel Wainer e Carlos Lacerda, “o Corvo” – como se amigos fossem).

Morais está, neste momento, negociando a venda para o cinema de mais um de seus livros: “Montenegro”, que conta a história do marechal-do-ar Casimiro Montenegro, participante da Revolução de 30, criador do Instituto Tecnológico de Aeronáutica, o ITA , “cópia decalcada do MIT norte-americano”, do Correio Aéreo Nacional e da Embraer. Em síntese: “um herói de carne e osso, de quem a maioria dos brasileiros jamais ouviu falar”.

Incansável aos 72 anos, o jornalista mineiro (de Mariana, na região do ouro), radicado em São Paulo –  além de cuidar do “Nocaute” no espaço digital — escreve livro sobre a vida política do ex-presidente Lula, que, detalha, “começa com a prisão dele pelo DOPS, em abril de 1980, e termina com a prisão pela Lava Jato em Curitiba, em abril de 2018”. E avisa: “já recebi sondagens sobre a possível adaptação para o cinema, mas ainda não tive tempo para pensar nisso”.

"Corações Sujos", de Vicente Amorim

Quatro dos seus livros chegaram ao cinema: “Olga”, “Chatô”, “Corações Sujos” e, agora, “Os Últimos Soldados da Guerra Fria”. Você é muito “pé quente”, ou sabe escrever histórias que encantam cineastas e roteiristas?

Fernando Morais – Escrevi todos meus livros pensando no leitor, jamais no espectador. Como nunca fui da área audiovisual, eu me esforço, sempre, para tentar fazer com que o leitor estivesse no meu lugar vendo e ouvindo o que vi e ouvi no trabalho de campo. No caso do “Últimos Soldados da Guerra Fria”, por exemplo, o produtor Rodrigo Teixeira comprou os direitos de filmagem antes que eu tivesse escrito uma frase, uma linha. Fiz uma sinopse de trinta linhas sobre o que era a história e ele bateu o martelo na hora: “Está comprado”. Foi, aliás, o dinheiro da venda para o cinema que me permitiu terminar a pesquisa – muito cara, com dezenas de viagens a Cuba e aos Estados Unidos. O adiantamento dado pela Companhia das Letras estava chegando ao fim e a venda solucionou o problema. Mas escrevo sempre para ser lido. Devo ser pé quente, espero.

Você tem, agora, não só um elenco de sonhos (a nata do cinema ibero-americano), mas um diretor de ponta – o francês Olivier Assayas, de 64 anos – comandando a adaptação de “Os Últimos Soldados da Guerra Fria”, sua volta temática ao país que foi tema de seu primeiro best-seller (“A Ilha”). Quais são suas expectativas?

A expectativa é muito grande. Além do profissionalismo do produtor Rodrigo Teixeira, a direção de um craque premiado como Olivier Assayas, somada a um elenco com Penélope Cruz, Wagner Moura, Gaël García Bernal, Pedro Pascal e Edgar Ramírez, entre outros, é muito inspiradora. A novidade é que “Wasp Network” (nome dado ao filme) será a primeira produção internacional baseada num livro de minha autoria.

Edgard Ramírez, Gael García Bernal e Wagner Moura

Você assistiu à série “Carlos”, que projetou e popularizou o nome de Olivier Assayas? Leu o roteiro de “Wasp Network”, nome internacional da adaptação de “Os Últimos Soldados da Guerra Fria”?

Adoro “Carlos”, inspirado nas ações armadas do venezuelano Ilyich Ramírez Sánchez, dito “o Chacal”. Já tinha visto várias vezes e voltei a revê-lo depois que o Assayas aceitou dirigir “Os Últimos Soldados”. E lembre-se de que se trata de uma película de seis horas de duração, que no final acabou sendo transformada numa microssérie. Não li o roteiro de “Wasp Network”. Só fiz isso em “Olga” e “Chatô”, a pedido da produtora Rita Buzzar e do Guilherme (Fontes), respectivamente. Mas ainda assim foi uma leitura de goleiro, para não deixar passar nenhuma bola entre as pernas do público.

Podemos esperar um filme tão eletrizante quanto a série “Carlos”? 

Imagino que sim. A história dos cinco agentes de inteligência cubanos infiltrados por Fidel em organizações terroristas de extrema direita da Flórida é de arrepiar os cabelos. Além de ter o caráter de um thriller, o pano de fundo é um relato dramático de sessenta anos de agressões militares, econômicas e diplomáticas dos Estados Unidos à Cuba.

Que nome o filme terá no Brasil: o do seu livro ou o sintético Wasp Network, nome internacional?

Não sei como o filme se chamará no Brasil. Como o título original talvez seja um pouco extenso para um filme, imagino que devem escolher o nome original da operação, que era “Rede Vespa”.

Vivemos tempo em que a presença de mulheres à frente e atrás das câmaras é exigida e cobrada. E com toda razão, já que a indústria audiovisual é histórica e hegemonicamente masculina. Seu livro tem protagonistas masculinos. Na adaptação, os personagens femininos ganharão mais relevo? Qual é o papel de Penélope Cruz na trama? Além dela, há outras personagens femininas de destaque?

Como na história real, só há uma protagonista feminina (Olguita, mulher de René, um dos infiltrados), acredito que seria forçar a mão encher o filmes de personagens femininos apenas para atender a pautas identitárias. Na verdade, o grupo original era de dez agentes, entre os quais havia duas mulheres. Mas como a metade decidiu fazer delação premiada (e, entre estes, as duas mulheres), imagino que será um filme com mais bigodes que batons.

O ICAIC (Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográficas) está fazendo 60 anos. Qual é o papel deste Instituto, criado dois meses depois do triunfo da Revolução Cubana, na produção do filme “Wasp Network”? Rodrigo Teixeira mobilizou mão de obra cubana para a equipe técnica e elenco?

Acredito que sim. A produção me convidou para passar uns dias em Havana nos sets de filmagens, mas o excesso de trabalho no Brasil (o livro sobre o Lula e a edição do blog Nocaute) me impediu de viajar. E filmar um longa em Cuba seria praticamente impossível sem alguma forma de parceria ou coprodução com o ICAIC.

Voltemos no tempo. Seu livro “Olga” transformou-se em um blockbuster (mais de 3 milhões de ingressos), mas a crítica apontou “excessos melodramáticos” na adaptação. Você ficou satisfeito com o resultado? 

Duríssima e quase unânime, a crítica ao filme me pareceu uma injustiça com o diretor Jaime Monjardim. Ele não errou na escolha, fez o filme que queria fazer. O resultado foi muito bom: o filme conseguiu popularizar um personagem e uma história que antes eram conhecidos apenas pelo público engajado, preocupado com questões políticas. Jaime não quis fazer um filme “cabeça”, mas uma obra para o povão, que revelasse para a sociedade como um todo a tragédia de Olga Benário – o que explica o sucesso ao qual você se refere.

"Olga", de Jaime Monjardim

Jorge Amado vendia o direito de adaptação de seus livros para cinema, TV ou teatro e, dali em diante, não queria saber. A responsabilidade era de roteiristas, diretores, produtores. Se negava a dar palpite. Já João Antônio detestou a adaptação de “Malagueta, Perus e Bacanaço” (“O Jogo de Vida”, de Maurice Capovilla) e não escondeu sua opinião. Como você se posiciona: está mais para Jorge ou para João?

Quando roteirizei e ancorei um documentário sobre Jorge Amado, para a falecida TVA, da Abril, contei a ele que tinha vendido os direitos de um livro para o cinema. Ele respondeu na lata: “Se você não quer se aborrecer, não veja o filme. Bom ou mau, ele certamente terá pouco a ver com seu livro”. Acho que esse é um risco que afeta mais os romancistas, como Jorge. Como só escrevo não-ficção, tenho uma preocupação: que o roteiro não fraude nem falseie episódios ou personagens reais. Mas, ainda assim, entendo que, dentro desses limites, a liberdade dramatúrgica é inevitável. A única maneira de transcrever cinematograficamente um livro – seja um romance ou não ficção – seria colocar uma câmera ligada sobre o volume e ir passando e filmando, página por página, algo inimaginável.

A transformação do livro “Chatô” em filme tornou-se o caso mais rumoroso da história cinematográfica brasileira. Quase duas décadas de polêmica e houve risco do longa sair das páginas culturais para as policiais. Quando, finalmente, o filme de Guilherme Fontes ficou pronto, a imprensa o recebeu bem. Houve desempenho razoável de público (mais de 100 mil ingressos) e saldo positivo por sua repercussão surpreendente. Seu livro é muito rigoroso com os fatos históricos. Mas, no filme, Samuel Wainer e Carlos Lacerda, inimigos históricos, não aparecem nesta condição. Como você recebeu esta, digamos, “alucinada liberdade poética”?

Sobre o rolo da produção de Guilherme Fontes, reitero o que já disse mil vezes: ele agiu honestamente, não dissipou, desviou ou subtraiu um tostão de dinheiro destinado ao filme. Quanto às reações de críticos e resenhistas, nos casos de “Olga” e “Chatô”, fui levado a refletir sobre uma questão: até que ponto a crítica é um instrumento para atrair público para a telona? Malhado pelos críticos, “Olga” levou milhões de pessoas ao cinema. “Chatô”, elogiado unanimemente pela imprensa, fez cem mil espectadores.

"Chatô", de Guilherme Fontes

Vicente Amorim realizou, com “Corações Sujos”, um filme de ótimo acabamento e mobilizou um protagonista de ponta, o japonês Tsuyoshi Ihara, ator convocado até por Clint Eastwood. Mas o filme não aconteceu junto ao público. Por que, se o cineasta tinha em mãos história formidável e apaixonante?

O filme de Vicente é muito bom, foi premiado no Japão, no Canadá e em Punta del Este. Quanto ao fato de “Corações Sujos” não ter se convertido em um blockbuster no Brasil me parece – isto é uma opinião subjetiva, sem base em números nem nada – que o público esperava um filme de tiro e porrada. O diretor, no entanto, preferiu (sem abandonar os tiros e porradas da história real) fazer um filme denso, reflexivo, revelador de um fenômeno cultural e religioso sem precedentes em qualquer outra parte, nem mesmo nos outros países onde havia grandes concentrações de comunidades japoneses, como o Peru e os Estados Unidos. Como no caso de “Olga”, mas com o fio invertido, foi também um exercício refinado de liberdade dramatúrgica.

LIVROS DE FERNANDO MORAIS
(Mariana-MG, 1946)

1976 – “A Ilha”
1985 – “Olga”
1994 – “Chatô, o Rei do Brasil”
2000 – “Corações Sujos”
2003 – “Cem Quilos de Ouro”
2006 – “Na Toca dos Leões”
2006 – “Montenegro”
2008 – “O Mago”
2011 – “Os Últimos Soldados da Guerra Fria”

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