Cézanne e Eu
© Luc Roux and Jean-Marie Dreujou

Por Maria do Rosário Caetano

O escritor Émile Zola e o pintor Paul Cézanne foram colegas de escola e amigos por muitos e longos anos. Por isto, a cineasta Danièle Thompson, autora do simpático “Um Lugar na Plateia”, resolveu colocar os dois grandes artistas franceses como protagonistas absolutos de seu sexto longa-metragem, “Cézanne e Eu”, que estreia nesta quinta-feira, 4 de julho, no circuito de arte brasileiro.

Dois grandes atores franceses interpretam o romancista e o pintor: Guillaume Canet, companheiro da atriz Marion Cotillard, dá vida à Zola, e Guillaume Gallienne, da Comédie Française, interpreta Cézanne. Com eles, atuam, em papeis coadjuvantes ou pequenas participações, Alice Pol (Alexandrine Zola, primeira mulher do escritor), Déborah François (Hortense Cézanne, mulher do pintor), Freya Mayor (Jeanne, segunda mulher de Zola), Gérard Meylan (pai do pintor) e Sabine Azéma, a musa de Alain Resnais, como Anne-Elizabeth, a compreensiva mãe de Cézanne. A fotografia, que capta os belos tons dourados-castanhos dos vales e montanhas da Aix-en-Provence, é de Jean-Marie Dreujou.

Depois de dirigir algumas comédias, Danièle Thompson, de 77 anos, tinha uma história dramática, com protagonistas célebres, a desafiá-la. Vale lembrar que ela cresceu em ambiente artístico. O pai (o grande comediante Gérard Oury) e a mãe (Jacqueline Roman) eram atores. Danièle iniciou-se no cinema como atriz e roteirista (ajudou a escrever o épico “Rainha Margot”), vindo a optar, já madura, pela direção. Sua zona de conforto foram as comédias, que alcançaram significativo sucesso. Porém, um grande fracasso – “Aconteceu em Saint-Tropez” – deixou-a desnorteada. A ponto de acreditar que devia aventurar-se em outros gêneros.

Um dia, ao ler artigo de jornal sobre a grande amizade que uniu Zola e Cézanne, a roteirista e cineasta encantou-se e viu ali tema para um filme dramático. Releu muitos livros de Zola (“L’Oeuvre”, com redobrada atenção) e pesquisou exaustivamente a trajetória do pintor pós-impressionista Cézanne, que Matisse e Picasso tinham como “o pai de todos nós” (até porque as inovações de sua obra foram fonte seminal do Cubismo).

Danièle apaixonou-se por suas descobertas e começou a trabalhar em seu roteiro dramático. Tomou algumas liberdades, sendo a maior delas, um possível reencontro dos dois artistas em 1888. Mas, em essência, foi fiel ao tempo histórico e a aspectos marcantes daquela grande amizade.

A crítica francesa não se entusiasmou com o drama de época sobre os adolescentes Paul e Émile, futuros grandes artistas, mas o público, sim. “Cézanne e Eu” (por que a tradução brasileira não optou por “Cézanne e Zola”?) vendeu 600 mil ingressos, nada mau para um filme adulto, sobre dois personagens do século XIX, sem grandes reviravoltas ou tramas amorosas. Houve quem, entre os críticos, implicasse com “o arremedo de sotaque sulista” dos dois Guillaume (Canet e Gallienne). Enfim, não verificou-se o reconhecimento significativo dos esforços da veterana praticante de comédias leves e simpáticas. Nem veio a esperada consagração na noite do Cesar, o Oscar francês, para um filme de tema nobre e literário-pictórico.

O que o público brasileiro achará do filme de Danièle Thompson? Como não terá ouvido exigente a ponto de incomodar-se com as diferenças de acento entre o francês parisiense e o de Aix-en-Provence, restará saber o quanto Émile Zola e Paul Cézanne permanecem na memória dos mais velhos. E se existe no repertório das novas gerações.

Zola, autor de “Naná”, “Germinal”, “Thérèse Raquin” e “A Besta Humana”, foi nome da linha de frente da história cultural francesa e exerceu enorme influência em escritores brasileiros filiados à escola naturalista (Júlio Ribeiro, de “A Carne”, Aluísio Azevedo, de “O Cortiço”, entre outros). Se não bastasse o estrondoso sucesso de seus romances, em janeiro de 1898, Zola abalou a França, ao defender o militar (de origem judaica) Alfred Dreyfus, acusado de “alta traição” e condenado pelas Forças Armadas graças a procedimentos suspeitos (e antissemitas). Em forma de carta endereçada ao presidente Félix Faure, o escritor fez história com o libelo “J’Accuse”, publicado na capa do jornal L’Aurore (300 mil exemplares vendidos em poucos dias) e dividiu a França entre dreyfusards anti-dreyfusards.

Filho de engenheiro italiano e mãe francesa, o futuro jornalista e escritor Émile Zola nasceu em Paris, em 1840. O pai, encarregado de construir represa na região de Aix-en-Provence, mudou-se para lá com a esposa e o filho pequeno, mas morreu antes de levar a obra a cabo. Deixou viúva e filho em situação difícil. O menino cresceu pobre, mas conquistaria fama e glória aos 30 e poucos anos.

Já Paul Cézanne nasceu em meio abastado um ano antes. O pai, rico comerciante, queria que ele fosse advogado e seguisse seus passos empresariais. Mas Paul queria ser artista. Temia o pai autoritário, era atormentado e tinha dificuldade de relacionamento com as mulheres. Zola o encorajou a dedicar-se integralmente à pintura. A jamais dividir-se entre a advocacia, o comércio e a arte. Foi o que ele fez, sobrevivendo em momentos mais difíceis de ajuda (escondida) da mãe, até conseguir impor-se e vender seus quadros.

Émile encontrou em Paul um amigo muito próximo. Os dois, quando não estavam nas aulas do Collége Bourbon, perambulavam em turma pelas belas paisagens de Aix-en-Provence, paqueravam as moças e dedicavam-se à poesia e ao debate cultural. Aos 18 anos, Zola regressou à sua Paris natal. Cézanne iria um ano depois e, ao longo de sua vida, se dividiria entre Aix e a capital francesa, então centro cultural do mundo ocidental. Mas as belas propriedades da família, que ele herdaria, e a luz privilegiada de Aix-en Provence acabaram por fixá-lo na região.

Nunca é demais lembrar que o século XIX constituiu momento de glória para as artes francesas. Às reuniões frequentadas por Zola e Cézanne, compareciam Guy de Maupassant (“Bola de Sebo”, “Bel-Ami”), Auguste Renoir, Camille Pisarro, Claude Monet e Édouard Manet. Mas o sucesso e o reconhecimento à obra pictórica do atormentado artista demorou a chegar (já beirava os 50 anos quando a fama o bafejou).

Zola, coberto de reconhecimento, vivia relação de muito afeto com o amigo, marcada por debates e alguns embates. A amizade era tão poderosa, que Cézanne fez do escritor personagem do belo quadro “Paul Alexis lendo um manuscrito a Zola” (1870). Até que, em 1886, deu-se abalo profundo. O romancista, que, à moda de Balzac e sua “Comédia Humana”, desenvolvia a saga “Les Rougon-Macquart”, publicou o livro “L’Oeuvre”, cujo protagonista era um pintor atormentado e frustrado. Não se sabe por que Cézanne sentiu-se tão magoado com “A Obra”, já que o personagem tinha nome fictício (Claude Lantier) e o pintor já desfrutava de reconhecimento e de boas vendas.

Quando recebeu “A Obra”, Cézanne, passadas três décadas de sólida amizade, agradeceu a Zola de forma protocolar: “Acabo de receber L’Oeuvre, que me enviaste. Agradeço ao autor de “Les Rougon-Macquart’ o testemunho desta recordação, e lhe peço que permita apertar-lhe a mão pensando nos velhos tempos. Paul Cézanne”.

Esta carta, escrita em abril de 1886, era tida como a última missiva do pintor ao escritor. Em 2012, pesquisadores encontraram aquela que realmente foi a derradeira (e igualmente protocolar) carta de Cézanne a Zola (24 de novembro de 1887): “De regresso a Aix, recebi o exemplar de ‘A Terra’ que tiveste a gentileza de fazer chegar até mim. Agradeço-te o envio deste novo ramo da árvore genealógica dos Rougon-Macquart. Aceite meu agradecimento e minhas saudações mais sinceras. Paul Cézanne – Quando regressares irei visitar-te para apertar-te a mão”.

Paul Cézanne não cumpriu sua promessa. Os dois não se encontraram mais. E Zola só obtinha informações sobre o colega de liceu e camarada de tantos anos, por informação de amigos comuns.

A morte de Émile Zola (aos 62 anos) e a de Cézanne (aos 67 anos) encontrou-os em plena maturidade criativa. A do escritor se daria em casa, por asfixia (vazamento de gás), e há quem suponha que ele foi assassinado por um inimigo (conquistou muitos com seu manifesto “J’Accuse”). Já Paul foi vítima de pneumonia, agravada por seu hábito de pintar ao ar livre (chuva torrencial teria fragilizado sua saúde). Mas o filme de Danièle Thompson não se apega a dados biográficos. O que interessa a ela é a amizade que os uniu. E a obra artística destes dois grandes nomes do novecentos francês (mais a obra pictórica de Cézanne, capaz de gerar belas imagens cinematográficas). Curioso que a realizadora, em tempos de rebeldia feminista, não tenha ampliado e realçado o espaço das companheiras estes dois totens da cultura francesa.

Cézanne e Eu
França, 116 minutos, 2017
Direção: Danièle Thompson
Elenco: Guillaume Canet, Guillaume Gallienne, Alice Pol, Déborah François e Sabine Azéma
Distribuição: Bretz
Registro da amizade entre Émile Zola (1840-1902) e Paul Cézanne (1839-1906)

 

FILMOGRAFIA
Danièle Thompson (Mônaco, 1942)

1999 – “La Bûche”
2002 – “Fuso Horário do Amor”
2006 – “Um Lugar na Plateia”
2009 – “Le Code a Changé”
2013 – “Aconteceu em Saint-Tropez”
2017 – “Cézanne e Eu”

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