“Jaguar Man” representa o Brasil no Arthouse Asia Film Festival
Chico Diaz como Pedro © Zuppa Filmes

Por Maria do Rosário Caetano

“Homem Onça”, o quarto longa-metragem do carioca Vinícius Reis, protagonizado pelo ator Chico Diaz, faz sua estreia no Arthouse Asia Film Festival, dedicado ao cinema de arte e ensaio. Os cinéfilos indianos assistirão a “Jaguar Man” nesta terça, 23, e na quarta-feira, 24 de fevereiro.

O filme de Vinícius, paulistano do bairro do Jacanã, radicado no Rio há 40 anos, nasceu com “uma pegada Ken Loach”, mas transmutou-se ao dialogar com o cinema fantástico. Há em “Jaguar Man” elementos do “Meu Tio Iauaretê” roseano e de muitos filmes revisitados pelo diretor-roteirista e com os quais, abertamente, dialogou. Ele não é daqueles que escondem as fontes fertilizadoras de suas narrativas.

“Homem Onça” parte de “história familiar”. O pai do cineasta, funcionário da Vale, viveu na pele as consequências da privatização da grande mineradora. Mas, em momento algum, Vinícius, que assina o roteiro com colaborações, ou sugestões, de Waldir Xavier, Felipe Barbosa e Flávia Castro, abandonou o realismo crítico de Ken Loach e dos Irmãos Dardenne. Ele faz questão de lembrar que “Jaguar Man” é um filme fincado “em momento histórico” crucial da vida econômico-social brasileira.

A narrativa se passa em dois tempos – 1997, quando grandes empresas estatais foram privatizadas, e poucos anos depois, quando Pedro (Chico Diaz, o protagonista) está aposentado, separado da esposa Sônia (Sílvia Buarque) e vivendo com a namorada Lola (Bianca Byington) num sítio, em sua cidade natal, a interiorana Barbosa. Lá, em meio aos mistérios da natureza e assombrado por lembranças, ele volta aos tempos de infância.

Vinícius Reis graduou-se em Cinema e fez mestrado em Artes da Cena, na UFRJ. Iniciou sua trajetória artística no Teatro Tablado, instituição com a qual manteve vínculos por dez anos, como aluno e como assistente da dramaturga e encenadora Maria Clara Machado (1921-2001). Passou, também, por enriquecedora experiência com o Nós do Cinema, projeto audiovisual da turma do Nós do Morro (base do elenco de “Cidade de Deus”). Se dirigiu apenas quatro longas-metragens (um documentário e três ficções), isso não quer dizer que tenha passado longos períodos distanciado de seu ofício. Afinal, tem integrado equipes de direção de muitas séries realizadas para a TV a cabo e para o streaming.

A Revista de CINEMA conversou com o cineasta nas vésperas da participação de “Jaguar Man” no Arthouse Asia Film Festival. Depois deste evento, realizado no país que mais produz filmes do mundo, a Índia, Vinícius espera ver seu longa em competição no Olhar de Cinema (Festival Internacional de Curitiba) ou no Festival de Gramado, no Rio Grande do Sul.

“Seria lindo” – confessa – “passar o filme em Curitiba ou Gramado e, em seguida, lançá-lo no circuito exibidor”. O que deve ocorrer no segundo semestre, com lançamento pela Pandora, distribuidora de André Sturm, proprietário e programador do Circuito Belas Artes.

 

Revista de CINEMA – Como nasceu o projeto de “Homem Onça”, um filme que reflete sobre a privatização de empresas estatais?

Vinícius Reis – Comecei a pensar nesse filme há mais de 20 anos, quando meu pai trabalhava na Cia Vale do Rio Doce. Ele era um dos gerentes do projeto Carajás e viveu todo o violento processo de reestruturação que culminou com a privatização, em maio de 1997. Uma vez por semana, nos encontrávamos, geralmente nos almoços de domingo, e ele me contava todo o clima de humilhação e terror que os empregados da Vale estavam passando: as demissões, as listas, as aposentadorias antecipadas… Na época, disse a ele: “Isso que você está passando é um filme incrível”. Ele achou estranha essa minha observação.

Revista de CINEMA – O diálogo com o fantástico já estava na origem do roteiro?

Vinícius Reis – Não, veio depois. Escrevi o primeiro tratamento de roteiro em 2010. No início, era um filme com uma pegada bem Ken Loach. Só depois vieram os elementos ligados ao fantástico. “Homem Onça” é um filme sobre um momento histórico, a segunda metade dos anos 1990, mas é sobretudo um mergulho na vida do meu pai, nessa época. Quando começou a pressão pela antecipação da sua aposentadoria na Vale, quando sua equipe foi demitida, ele desenvolveu vitiligo, começou a beber, rompeu com a família e – uma vez aposentado – se mudou para sua pequena cidade natal, Gália, no interior de São Paulo, onde havia uma onça que habitava suas lembranças da infância, nos anos 1940 e 1950. Queria trazer isso tudo para o filme: conectar a onça pintada da infância com a pele manchada pelo vitiligo decorrente do estresse na vida profissional…. Em 2012 e 2013, conheci os filmes do Apichatpong Weerasethakul (“Mal dos Trópicos”, “Tio Boonmee”), que me ajudaram a pensar um caminho para essas conexões. Depois, vieram as releituras do homem-barata Gregor Samsa, da “Metamorfose” do Kafka, a fusão da mulher com a barata, na “Paixão Segundo GH”, da Clarice, a conversa com a onça no “Meu Tio Iauaretê”, do Guimarães Rosa. O encontro com essas obras me ajudaram a construir esse fantástico. Para a primeira parte, que se refere à vida urbana e familiar de Pedro, foi outra a pegada: revi filmes dos Dardenne, do Ken Loach, o estudo das relações no ambiente corporativo no genial “A Questão Humana”, do Nicolas Klotz… E há um livro que me ajudou muito a compreender os processos de reestruturação, “O Novo Espírito do Capitalismo”, do Luc Boltanski e Ève Chiapello. Pensava muito em articular, de maneira orgânica, dois filmes distintos com um mesmo personagem.

Vinícius Reis, Emilio de Mello e Chico Diaz, durante a filmagem de "Homem Onça" © Zuppa Filmes

Revista de CINEMA – Você montou um elenco, que é grande, com nomes vindos do teatro e de muitos filmes brasileiros. E como Chico Diaz, protagonista absoluto, com quem já fizera “Praça Saens Peña”. O jovem enteado vem de “Fala Comigo”. Como se deu a escolha e mobilização desse time de atores?

Vinícius Reis – Quando estava filmando “Praça Saens Peña”, em 2008, já havia uma conversa com o Chico Diaz sobre um filme que tratasse do tema das privatizações, o impacto da demissão, o personagem sentindo isso na pele, através do vitiligo… Seria a nossa próxima parceria. Na época, eu tinha o argumento da história e um início da pesquisa. Assim que a primeira versão do roteiro ficou pronta, encaminhei pro Chico, pra Silvia Buarque e pra Bianca Byington que são amigos próximos. Logo depois, chamei o Emílio (Mello) que também é um amigo próximo. Era importante estar com pessoas próximas, com as quais pudesse ter muita troca. Nesse sentido, a produtora Gisela Camara foi fundamental, pois tínhamos uma parceria desde o “Praça Saens Peña”. Depois chegou um elenco com quem nunca tinha trabalhado, mas que embarcou muito bem na história: Tom Karabachian (Gustavo, filho de Lola), Valentina Herzsage (Rosa, filha do Pedro), Álamo Facó (o executivo yuppie), Tracy Segal (Tarsila, personagem inspirado na Elena Landau)…

Revista de CINEMA – Você aborda um tema político – o desmonte de estatais, a desestruturação, seguida de demissão, de equipes voltadas a projetos que nos garantiriam auto-suficiência e excelência econômico-tecnológica. Mas o faz “projetando” a dimensão política na vida cotidiana dos personagens, em especial na do protagonista Pedro. Você tinha um roteiro pronto ou ele se construiu junto com alguns dos atores?

Vinícius Reis – A primeira versão do roteiro surgiu em junho de 2010 e foram umas trinta versões, até a filmagem em 2018. Nessa jornada da escrita, contei com valiosa colaboração do Felipe Barbosa (“Gabriel e a Montanha”) e da Flávia Castro (“Deslembro”). Com o Felipe, em 2015, e com a Flávia, em 2018, um pouco antes da filmagem. Assim foi a jornada do roteiro, mas, claro que, quando estamos numa sala de ensaio com Chico Diaz, Silvia Buarque, Bianca Byington, Emílio de Mello, Tracy Segal…, muitas ideias surgem e mexemos no roteiro. Sem contar a reescritura do roteiro na montagem, ao lado do Waldir Xavier.

Revista de CINEMA – Seu protagonista ama a MPB e tem pelo samba-canção “Molambo” imenso apreço. Em “Praça Saens Peña”, Aldir Blanc faz participação significativa, interagindo com o protagonista (Chico Diaz). Como foi montada a trilha de “Jaguar Man”? Ela significou um custo expressivo em direitos autorais? Ou houve aquela “brodagem” de compositores e cantores?

Vinícius Reis – “Molambo” está no filme por causa do Aldir Blanc. Era uma das canções favoritas dele e, por isso, imaginei que seria a predileta do Pedro (Chico Diaz) também. Eles seriam da mesma geração. Uma parte da trilha é muito inspirada em canções que meu pai gostava de ouvir. A outra parte é uma pesquisa minha sobre as canções que embalaram a segunda metade dos anos 1990. E a produtora Gisela Camara fez um ótimo trabalho de negociação com as gravadoras e os artistas. Conseguimos tudo o que queríamos.

 

FILMOGRAFIA
Vinícius Reis (São Paulo, 1970, radicado no Rio de Janeiro desde 1981)

2021 – Homem Onça | Jaguar Man (ficção)
2013 – Noites de Reis (ficção)
2009 – Praça Saens Peña (ficção)
2002 – A Cobra Fumou (documentário)

SÉRIES DE TV (episódios):

2015-2018 – “Detetive do Prédio Azul” (temporadas 7, 8, 11, 12)
2016 – “Natália”, de André Pellenz (temporada 2)
2018-2019 – “Rotas do Ódio”, de Susanna Lira (temporada 3 e 4)

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