“Fuga”, documentário animado, abre nova edição online do É Tudo Verdade
“Fuga”, de Jonas Poher Rasmussen

Por Maria do Rosário Caetano

Nessa quinta-feira, “Fuga”, longa documental construído em perfeito diálogo com o cinema de animação, abre a vigésima-sexta edição do Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade. O evento, online e gratuito, permitirá acessos vindos de todas as regiões brasileiras, desde que não ultrapassem dois mil visionamentos.

O filme inaugural, uma produção dinamarquesa, segue o prolífico veio celebrizado pelo israelense “Valsa para Bashir”, de Ari Folman, e pelo brasileiro “Dossiê Rê Bordosa”, de César Cabral. Treze anos atrás, este curta mostrou a ousadia curatorial do É Tudo Verdade. Afinal, o filme baseado na atrevida personagem de Angeli poderia ter ficado restrito aos festivais de produções animadas. Mas, pela primeira vez uma “animação” brasileira, em finíssima sintonia com o documentário, seria selecionada para a competição do ETV. Dali em diante, esse diálogo só faria crescer. Agora chega, como “abre-alas”, à noite inaugural do festival paulistano.

“Fuga”, que conquistou o prêmio de melhor documentário no Sundance Festival desse ano, é uma criação de Jonas Poher Rasmussen e tem em estrela ascendente o seu produtor-executivo, o ator e cantor londrino (de origem paquistanesa) Riz Ahmed, candidato ao Oscar por seu notável desempenho como protagonista de “O Som do Silêncio”. Neste filme, ele interpreta baterista de heavy metal que perde o prumo ao ficar surdo.

“Fuga” tem tudo a ver com a história de Riz Ahmed, ele também filho de imigrantes de pele morena que deixaram sua terra natal para tentar a sorte em solo europeu. No caso do protagonista da animação documental dinamarquesa, há um novo ingrediente. Além da condição de refugiado, Amin Nawabi (o personagem é real, mas seu nome fictício) tinha outro desafio a enfrentar – sua natureza homoafetiva.

A vida de Amin e de seus familiares, nascidos em Cabul, no Afeganistão, compõe narrativa de tons épicos, temperada com algumas pitadas de humor, visíveis em citações de filmes, em especial os estrelados por Jean-Claude Van Damme, e por telenovelas mexicanas. O adolescente nunca mais teria notícias do pai e sua família se espalharia por países diversos.

Depois de empreender fuga das mais arriscadas, Amin radicou-se na Dinamarca, país que assina o filme, em parceria com a Noruega, Suécia e França. Narrado com força poética e contextualização precisa, “Fuga” respeita os idiomas, segundo a origem geográfico-cultural de cada personagem: o dinamarquês, o dari afegão, o russo, o sueco e o inglês.

As inserções documentais, fruto de excelente pesquisa, somam-se à animação, razão de ser do filme, já que o protagonista, hoje um respeitado intelectual de 36 anos, preferiu ser visto como um personagem-símbolo de todos que vivem o drama de ser refugiado (e enfrenta preconceitos por ser homossexual). O essencial da vida de Amin, sua mãe, irmãos e irmãs, ganha relevo nas fugas empreendidas nos mais perigosos e apavorantes “meios de transporte” (de um abafado contêiner de transatlântico a um porão de barco clandestino).

A competição de longas internacionais do É Tudo Verdade reúne doze títulos. Um deles, há de encantar os amantes do xadrez e, por extensão, da série “O Gambito da Rainha”, de imenso sucesso na Netflix. Afinal, no centro da narrativa de “Glória à Rainha”, de Tatia Skjirtladze, estão quatro mulheres, todas nascidas na Geórgia soviética e campeãs do mundo. Por 30 anos, elas reinaram nos tabuleiros de xadrez.

O filme, de sintéticos 82 minutos, é uma produção que une Áustria, Geórgia e Sérvia. Com rico material de arquivo e significativas imagens captadas no tempo presente, “Glória à Rainha” fala georgiano, russo, alemão e sérvio. Tudo para, em tom de feminismo assumido, cantar as glórias de Nona Gaprindashvili, Nana Alexandria, Maia Chiburdanidze e Nana Ioseliani.

Que ninguém se desespere com a dificuldade inicial de saber quem é Nona, a maior e mais famosa do quarteto, ou quem são as duas Nana(s) e a religiosa Maia. Mulheres de prenomes sintéticos (apenas quatro letras) e sobrenomes complicados. Quando o filme terminar – aguarde os créditos até o final –, o espectador verá fotos das quatros juntas no presente e no passado. Imagens emocionantes.

E quem são Nona, Maia e Nana(s)? São quatro heroínas soviéticas do tempo da Guerra Fria. Para provar que era uma potência capaz de rivalizar com os EUA, a URSS investiu pesado em escolas de xadrez, vistas como celeiro de jogadores e jogadoras de inteligência e perspicácia únicos. Por alguma razão, difícil de explicar, a Geórgia, até então conhecida como a “Califórnia soviética” e terra natal do ditador Josef Stálin, viu emergir quatro mulheres que, com seus prêmios conquistados em sucessivos campeonatos mundiais, revolucionaram o xadrez feminino. E, o que era motivo de orgulho para o mulherio das Repúblicas Soviéticas, tornaram-se símbolos da emancipação feminina.

“Glória à Rainha”, de Tatia Skjirtladze

Nona Gaprindashvili, que este ano torna-se octogenária, foi a que abriu caminhos. Em torneio realizado no Rio de Janeiro, ela ganhou doze partidas seguidas, batendo recorde que pertencia a compatriota do sexo masculino. Nana Alexandria, Maia Chiburdanidze e Nana Ioseliani seguiram seus passos. E estabeleceram a fama do país da Ásia Menor, no qual circula uma lenda: “no enxoval de cada noiva, destaca-se um tabuleiro de xadrez”.

Com o fim da URSS, a Geórgia, país de menos de 5 milhões de habitantes, não viu mais repetir-se o feito de outrora. No filme, uma das “rainhas” admite que perderam, russos e georgianos, a hegemonia enxadrística, hoje entregue a mãos e inteligências chinesas.

Os cinéfilos devem se registrar para assistir aos filmes brasileiros e internacionais selecionados pelo É Tudo Verdade. E não podem vacilar. Cada título poderá ser visto, em todo território brasileiro, com legendas e custo zero, até que se alcance limite de dois mil acessos. Há exceções como o chileno “Cantos da Repressão”, de Marianne Hougen-Moraga e Estephan Wagner, e o francês “O Monopólio da Violência”, de David Dufresne (só mil visionamentos cada).

Além de “Fuga” e “Glória à Rainha”, o time internacional escalado por Amir Labaki e equipe traz um título que deve conquistar corações: “Charlie Chaplin, o Gênio da Liberdade”, produção francesa dirigida por Yves Jeuland. Ao longo de 145 minutos, o público acompanhará a trajetória do criador do imortal Carlitos, que encanta o mundo há mais de cem anos e tornou-se sinônimo da luta por ideais de justiça e liberdade. Nascido na Inglaterra em 1889, radicado nos EUA, onde conheceu a glória e foi perseguido pelo macarthismo, Chaplin radicou-se na Suíça com sua esposa Oona O’Neill e filhos. Lá permaneceu até sua morte, no Natal de 1977 (aos 88 anos). Deixou patrimônio fílmico ainda hoje inigualável.

Na competição internacional há filmes como “MLK/FBI”, de Sam Pollard, um dos quinze semifinalistas ao Oscar, sobre a perseguição que o FBI empreendeu contra Martin Luther King, e “Gorbachev. Céu”, de Vitaly Mansky, sobre o premier que promoveu a débacle do império soviético. Duas personalidades que marcaram seus nomes na história.

Completam a lista, o japonês “Eu e o Líder da Seita”, de Atsushi Sakara, o português “Paraíso”, de Sérgio Tréfaut, o holandês “Leonie, Atriz e Espiã”, de Annette Apon, o argentino “Vicenta”, de Dario Doria, o dinamarquês “Presidente”, de Camilla Nielsson, os estadunidenses “Mil Cortes”, de Ramona S. Diaz, e “Sob Total Controle”, de Alex Gibney, Ophelia Harulyunyan e Suzana Hillinger, e os franceses “História de um Olhar”, de Mariana Otero, e “9 Dias em Raqqa”, de Xavier de Lauzanne.

Se há um segmento do cinema que merece o nome de cosmopolita este é o documentário. No foco de diretoras e diretores selecionados pelo É Tudo Verdade estão a ditadura Rodrigo Duterte, nas Filipinas; um fotógrafo que desapareceu no Cambodja; a guerra na Síria e a luta pela democracia no Zimbábue africano.

 

Como Acessar os filmes da 26ª Edição do festival É Tudo Verdade:

1. Faça seu cadastro no site www.looke.com.br. Um código SMS será enviado para o seu celular para concluir o cadastro.
2. Acesse o site www.etudoverdade.com.br e clique em “Programação”.
3. Clique no filme escolhido e você será direcionado para a página do É Tudo Verdade / Looke

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