Tata Amaral surpreende com criatividade da série “As Protagonistas”
Tereza Trautman © Camila Freitas

Por Maria do Rosário Caetano

A série “As Protagonistas”, dirigida e apresentada pela cineasta Tata Amaral, é uma das melhores surpresas da temporada televisiva brasileira. Ao invés de realizar documentário sisudo e lamuriento, a diretora de “Um Céu de Estrelas” e “Antonia”preferiu apostar na busca de talentos femininos e temas inesperados e instigantes. Sua abordagem nunca é previsível. É autoral, afetiva, generosa, aberta a desafios e livre de preconceitos.

Depois de breve prólogo no qual evoca a pioneira franco-americana Alice Gui-Blaché (1873-1968), apagada pela história do cinema, Tata Amaral mergulha em nove décadas do audiovisual brasileiro praticado sob comando feminino. De 1930 até nossos dias. E o faz sem didatismo, com sólida retaguarda (excelente equipe de pesquisadoras) e com recursos visuais trabalhados com muita inteligência (mesmo quando a precariedade de arquivos se faz sentir, caso do período que vai das décadas de 1930 a 1960).

Tata coloca-se como parte do processo. Por isso a série é narrada em primeira pessoa. Registre-se, porém, que a diretora e mestre-de-cerimônia em momento algum tentará aparecer mais que suas protagonistas. Estas serão, sempre, suas estrelas-guia.

O afeto e reconhecimento que Tata dedica à atriz, produtora e diretora Carmen Santos (1904-1952) é aliciante. Ela abrirá, também, espaço nobre para Ana Carolina, Tizuka Yamasaki, Suzana Amaral, Helena Ignez, Ana Maria Magalhães (com seu importante “Mulheres no Cinema”), Lúcia Murat, Tetê Moraes, Carla Camurati, Anna Muylaert, Laís Bodanzky, Sandra Kogut, Yasmin Thainá e Viviane Ferreira.

Uma cineasta, em especial, ganhará merecido tributo: Helena Solberg, hoje com 83 anos. Única mulher a assumir algum protagonismo durante a década cinemanovista, a moça bem-nascida da zona sul carioca conseguiu realizar pelo menos um curta-metragem seminal – “A Entrevista” (1966) – no período.

Tata, sempre em diálogo com Helena, mergulhará na construção narrativa dessa “Entrevista” que faria história (a posteriori, registre-se). Afinal, nos filmes dos colegas do Cinema Novo, a autora desse curta de imenso valor desempenharia funções quase anônimas. Era uma mera colaboradora em créditos técnicos.

Situação pior que a de Helena Solberg, só a de Adélia Sampaio, 77 anos. No mesmo período, ela exerceria a função de telefonista da Difilm, a importante distribuidora que reuniria Luiz Carlos Barreto e a linha de frente do nosso cinema masculino-sessentista. Pode-se dizer que Adélia realizou seu aprendizado cinematográfico de “orelhada”. Ou seja, ouvindo as conversas de produtores e diretores. Faria, depois, alguns curtas e o longa “Amor Maldito” (1984).

Helena Solberg, que se mudaria para os EUA, faria carreira internacional e sempre de olho no universo das mulheres. Regressaria ao Brasil para dirigir longas encantadores como “Vida de Menina”, inspirado nos diários de Helena Morley.

“As Protagonistas” podem (e devem) ser vistas nas noites de sábado, no canal CineBrasilTV. Quem dedicar-se a assistir à série inteira, ficará fascinado, em especial, por quatro momentos. Um deles, dedicado a “Os Homens que Eu Tive”, de Tereza Trautman. Outro à descoberta de uma diretora, Rosangela Maldonado, que dirigiria um longa-metragem na ultra-machista Boca do Lixo, território onde o corpo feminino era exposto como carne em açougue.

O encantamento prossegue com episódios dedicados às videastas (ou videomakers), que encontraram no festival VideoBrasil sua poderosa vitrine, e à primavera das curta-metragistas, incansáveis na criação de suas pequenas histórias. Isto, naqueles anos em que a produção de longas-metragens brasileiros definhou por causa do desmonte promovido pelo trio Collor-Ipojuca-Miguel Borges.

Quem, entre nós – confessemos – pensaria em abrir generoso espaço para obscuras videastas mostrarem fragmentos de suas criações em suporte que os cultores do 35 milímetros (e até do 16) nunca valorizaram? E que o mercado ignorou!

Num dos vídeos resgatados por “As Protagonistas” – o mais espantoso – uma voz feminina realiza enquete em avenida paulistana. Ela, a dona da voz, quer saber o que as pessoas acham do assassinato de homossexuais.

Estupefatos, ouvimos jovens habitantes da maior metrópole da América do Sul dar razão ao assassino. Alguns chegam a dizer que os homoafetivos “merecem morrer mesmo”. O festival VideoBrasil, comandado pela baiano-paulista Solange Farkas, mostra a Tata Amaral e a seus espectadores que não era apenas vitrine de projetos de experimentação (videoarte), mas também de importantes documentários sobre a tragédia cotidiana brasileira.

Tereza Trautman, hoje com 70 anos, tinha apenas 22, quando, cansada de ver homens com vida conjugal e extra-conjugal bem atendidos pela “matriz e filiais”, resolveu convidar Leila Diniz para protagonizar “Os Homens que Eu Tive”.

A libertária atriz, depois de ler o roteiro, topou. Foi, então, acompanhar a exibição do filme “Mãos Vazias” (Luiz Carlos Lacerda, 1971) num festival na Índia. O avião em que regressava ao Brasil, louca de saudades da filha Janaína, acidentou-se. Leila morreu aos 27 anos. Para o lugar da estrela de “Todas as Mulheres do Mundo”, uma outra mulher libertária (pelo menos naquele tempo), foi convocada Darlene Glória. Ela assumiria o papel que seria de Leila.

A linda capixaba, consagrada por desempenho arrebatador em “Toda a Nudez Será Castigada” (Arnaldo Jabor, 1972), colecionaria, no filme trautmaniano, homens e mais homens em seu leito e vida. O longa fez sucesso no Rio de Janeiro. Quando chegou a nova praça, Belo Horizonte, uma senhora sentiu-se ofendida e denunciou o filme de Tereza à censura militar. “Os Homens que Eu Tive” foi interditado.

Dois detalhes merecem ser louvados em “As Protagonistas”:

1. Tata Amaral conseguiu realizar sua série com dezenas e dezenas de vozes femininas. Um só homem, o montador e pesquisador Maximo Barro (1930-2020), aparece com destaque na narrativa.

2. A realizadora paulistana, de 60 anos, não tenta, em momento algum, ofuscar dois nomes de sua geração, tão talentosos quanto ela: Anna Muylaert e Eliane Caffé.

Anna, por exemplo, ganha espaço nobre. A diretora e narradora da série faz questão de enaltecer a importância estética e social de “Que Horas Ela Volta?”, filme que mostrou, como poucos, o que foi a inclusão promovida na era Lula.

Quando a série já está chegando aos seus derradeiros momentos, nos colocamos a perguntar: e Eliane Caffé, a diretora dos importantíssimos “Narradores de Javé” e “Era o Hotel Cambridge”, vai passar em branco?

De forma alguma. O filme que uniu José Dumont e Suely Franco ao Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto ganhará espaço dos mais significativos (e merecidos).

Falar da entrada tardia das mulheres na direção cinematográfica (três décadas depois dos homens) constitui desafio de significativa dimensão. Os filmes de Cleo de Verberena (“O Mistério do Dominó Preto”) e mesmo de Carmen Santos (“Inconfidência Mineira”) não chegaram à posteridade. Nas décadas seguintes (anos 1950 e 60) as mulheres eram “gatos pingados” no processo cinematográfico brasileiro (a não ser que fossem continuístas, atrizes ou produtoras executivas dos filmes dos maridos).

Só a partir dos anos 1970, o mulherio chegou chegando. Conquistou terreno. E o fez com Ana Carolina e sua Trilogia Feminina, com Tizuka e seus gaijins, com Vera Figueiredo e seus carnavais e com Tereza Trautman e “todos os homens do mundo”. Elas se firmariam nos anos 1980 e 90 com Suzana Amaral (e o belíssimo “A Hora da Estrela”), Lúcia Murat, Tetê Moraes e Carla Camurati. E explodiriam no século XXI. Hoje, elas são ameríndias, afro-brasileiras e brancas. Multiplicam-se, também, nas grandes periferias urbanas.

Como Tata Amaral processaria tantas imagens geradas pelas mulheres que se multiplicaram nas duas últimas décadas? Como resumiria tantos feitos e filmes? Que espaço daria ao documentário, em especial às produções de Flávia Castro e Maria Augusta Ramos?

A cineasta foi sábia. Escolheu, subjetivamente, momentos e realizadoras que a encantaram, ela que vê tantos filmes. Ela que os vê sempre com olhos generosos e amorosos. “As Protagonistas”, vale repetir, é fruto de uma sensibilidade desprovida de inveja e preconceitos. Que aceita, com imenso carinho, o melodrama “O Ébrio”, de Gilda de Abreu, a pornochanchada de Rosangela Maldonado e os vídeos de baixa definição da turma mobilizada por Solange Farkas.

E, por fim, fiquem atentos às pequenas mudanças que vão se operando na inventiva vinheta que anuncia cada um dos 13 capítulos de “As Protagonistas”. Imagens de Helena Ignez, Leona Cavali, Denise Fraga e Julia Katherine, a primeira cineasta trans brasileira, serão recorrentes. Mas, na parte final, jovens realizadoras serão, algumas vezes, substituídas por outras, igualmente jovens. Tudo nessa série, de importância imensa e única, exala amor, fraternidade, sororidade.

 

As Protagonistas
Série de Tata Amaral com 390 minutos de duração, divididos em treze episódios
Aos sábados, às 21h, no CINEBRASiLTV (para assinantes do Divertinet)
Cada capítulo dura em média 30 minutos
A série mostra o trabalho de 70 cineastas brasileiras (de Cleo de Verberena às jovens diretoras afro-brasileiras)
Narração e comentários: Tata Amaral
Fotografia: André Lorenz Michiles e Camila Freitas
Som direto: João Godoy, Juliana Santana e Marina D’Ávila
Supervisor de montagem: Willem Dias
Montagem: Beatriz Pomar e Lia Kulakauskas
Música: André Whoong
Reprises: segunda: às 9h30 e 21h3, terça: às 20h30, quarta: às 13h, quinta: às 23h. Assista online: divertenet.com.br/cinebrasil

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