Mix Brasil exibe “Benedetta”, de Paul Verhoeven, e homenageia Ney Matogrosso
"Benedetta", de Paul Verhoeven

Por Maria do Rosário Caetano

A prova de que o Mix Brasil, cuja vigésima-nona edição começa nessa quarta-feira, 10 de novembro, ganha cada vez mais prestígio e torna-se evidente já pela atração inaugural: o polêmico “Benedetta”, do holandês Paul Verhoeven.

O filme, uma produção europeia, terá, portanto, sua première latino-americana em solo (e festival) brasileiro. E o faz depois de causar frisson em Cannes. Drama que uniu França, Holanda e Itália, “Benedetta” constrói-se como história de amor homoafetivo (ambientada em convento de freiras, na Toscana peninsular). Foi bem recebido por boa parte da crítica. Claro que houve resistência (e críticas negativas), pois nem todos apreciam as transgressões verhoevianas.

O iconoclasta diretor holandês, de 83 anos, aposta, mais uma vez, em narrativa com fortes ingredientes eróticos. O avançar da idade, ao invés de acalmar sua índole, parece tê-la atiçado. O inquieto Verhoeven iniciou carreira cinematográfica em sua Amsterdã natal, revelou o belo astro Hutger Hauer (“Louca Paixão”, “Soldado Laranja”, “Conquista Sangrenta”), passou por Hollywood (“Instinto Selvagem”, “Robocop”, “Tropas Estelares”, “Show Girls”) e regressou à Europa, encontrando em solo francês, produtores entusiasmados com seus filmes transgressores. Caso de “Elle”, com uma endemoniada Isabelle Huppert, e de “Benedetta”.

Para protagonizar seu novo filme, Verhoeven escolheu Virginie Efira, atriz muito popular nos países de língua francesa (em especial em sua Bélgica natal), por ser apresentadora de TV e presença festejada em comédias de grande público. Cabe a ela emprestar vida e instintos a Benedetta Carlini, noviça interna em convento italiano, que viverá amor lésbico com Bartalomea (Daphne Patakia). Isto, no século XVII, quando o poder da Igreja era gigantesco (e inquisitorial) e a moral de rigor inimaginável em nossos dias. Além da bela Efira estão no elenco Charlotte Rampling, a abadessa, e Lambert Wilson, o Núncio Apostólico. O filme disputou a Palma de Ouro em Cannes, em maio último, e tem lançamento no circuito comercial brasileiro previsto para 13 de janeiro de 2022.

A sessão de “Benedetta”, que acontecerá no CineSesc, será restrita a convidados, mas o público doméstico (e on-line) poderá desfrutar, no mesmo horário, de show da cantora Ellen Oléria. Na noite de encerramento (e premiação), dia 21 de novembro, o Mix Brasil promoverá outro show, o de Raquel, uma das fundadoras da banda “As Bahias e a Cozinha Mineira”.

Além de “Benedetta”, o festival da diversidade exibirá, este ano, 116 filmes oriundos de 28 países, e – como faz tradicionalmente – manterá programação teatral, musical e literária, incluindo o badalado “Show do Gongo”, comandado pela atriz e cantora Marisa Orth. O formato da edição número 29 é híbrido. Haverá sessões presenciais (em cinco salas) e on-line, sendo todas gratuitas.

A principal competição do maior festival LGBTQIA+ do país – a de longas e médias-metragens brasileiros – contará com sete títulos, sendo um deles o paranaense “Deserto Particular”, de Aly Muritiba, indicado pelo Brasil para disputar vaga como finalista ao Oscar internacional (15 semifinalistas serão anunciados em dezembro e cinco finalistas em fevereiro).

O filme de Muritiba conta história de amor entre um policial curitibano (o maranhense-parisiense Antônio Saboia) e jovem do interior da Bahia, na região de Sobradinho, imensa represa (e empresa) hidrelétrica. O cineasta, nascido em cidade pequena e poeirenta do interior nordestino e radicado no Paraná (onde exerceu o inusitado ofício de carcereiro), soma, pois, ofício e territórios que lhe são muito familiares. O longa, produzido pela Grafo brasileira e pela Fado portuguesa, terá lançamento nacional no dia 25 deste mês, em todo território nacional.

A disputa pelo Coelho de Ouro, o prêmio máximo do Mix Brasil, contará – além de “Deserto Particular” – com o gaúcho “A Primeira Morte de Joana”, de Cristiane Oliveira, que causou ótima impressão em Gramado; o baiano “Até o Fim”, da dupla Glenda Nicácio e Ary Rosa; o pernambucano-paulista “Deus Tem Aids”, de Fábio Leal e Gustavo Vinagre; o matogrossense-carioca “Madalena”, de Madiano Marcheti (que passou por festivais internacionais), o documentário “Máquina do Desejo”, dos paulistanos Joaquim Castro e Lucas Weglinski, vigoroso e inventivo mergulho na trajetória do Grupo Oficina, e o pernambucano “Vênus de Nyke”, de André Antônio.

A produção brasileira contará, também, com segmento informativo (Panorama Nacional), que reúne títulos como “Cidade dos Abismos”, de Priscyla Bettin e Renato Coelho, “Bori”, de Luiz Anastácio, “Desaprender a Dormir”, de Gustavo Vinagre, e “Dois Garotos que se Afastaram Demais do Sol”, de Lucélia Sérgio e Cibele Appes.

No programa “Queer.doc”, serão apresentados “Transversais”, longa do cearense Emerson Maranhão (com produção de Allan “Pacarrete” Deberton), “A Última Imagem”, de Benedito Ferreira, e “Perto de Você”, de Cássio Kelm. Este filme fará sua estreia internacional na próxima edição do IDFA (Festival Internacional de Documentários de Amsterdã), o mais importante do mundo no segmento não-ficcional, entre 17 a 28 de novembro.

O Mix Brasil prestará tributo ao cantor Ney Matogrosso. Já octogenário, mas esbanjando vitalidade, Ney receberá o prêmio Ícone Mix e ganhará mostra composta com cinco filmes que registram sua trajetória artística em formato documental ou ensaístico, e ficções, nas quais marcou presença como ator. “Ralé”, de Helena Ignez, “Caramujo Flor” e “Olho Nu”, ambos de Joel Pizzini, “Ney à Flor da Pele”, de Felipe Nepomuceno, e “Depois de Tudo”, de Rafael Saar, são os títulos programados.

Como fazem todos os anos, os curadores do Mix Brasil, sob a coordenação-geral de André Fischer, selecionam, nos principais festivais de cinema do mundo, dezenas de longas ficcionais e documentais, 100% inéditos no Brasil. Caso de “A Fratura”, vencedor do Queer Palm, em Cannes, de “Instruções de Sobrevivência”, Prêmio do Júri Teddy, em Berlim, e “Being BeBe – A História de BeBe Zahara Benet”, sobre a primeira vencedora de RuPaul’s Drag Race, “Bliss”, de Henrika Kull (mostra Panorama, de Berlim, Frameline e Queer Lisboa) e “Boy Meets Boy”, de Daniel Sánchez Lopez, Prêmio Especial do Júri no Festival Molodist de Kiev.

“Genderation”, de Monika Treut, é uma das atrações mais esperadas. Duas décadas depois de lançar seu documentário “Gendernauts” (1999), a cineasta volta à Califórnia para reencontrar seus protagonistas. O filme fez sua première mundial na mostra Panorama do Festival de Berlim.

O cinema internacional marca presença com “Canela”, da argentina Cecilia Del Valle (melhor filme segundo a Crítica, no Vancouver Latin American Film Festival) e o coreano (do sul) “Um Lugar Distante”, de Park Kun-young, vencedor do Grande Prêmio do Júri no Outfest Los Angeles. Deste mesmo festival chegam o espanhol “Sedimentos”, de Adrián Silvestre (menção honrosa) e o canadense “No Ritmo da Vida”, de Phil Connell (menção honrosa de atuação para Cloris Leachman).

Outras atrações internacionais do Mix Brasil 2021: o estadunidense “O Canto do Cisne”, de Todd Stephens, protagonizado pelo ator Udo Kier (de “Bacurau”), e o francês “Os Amores de Anaïs”, de Charline Bourgeois-Tacquet (visto na Semana da Crítica, em Cannes). “Wigudun, Alma de Dois Espíritos“, de Fernando Muñoz e Raphael Salazar, coprodução que uniu o Panamá ao Brasil, fará sua estreia mundial neste festival brasileiro dedicado à diversidade e cada vez mais influente.

 

29ª edição do Festival Mix Brasil
Exibição de 117 filmes de 28 países, cinco espetáculos teatrais inéditos, como “Venganza: Pega Homem?”, apresentações musicais e “Show do Gongo”, com Marisa Orth.
Data: 10 a 21 de novembro, em formato híbrido (presencial e on-line) e totalmente gratuito.
Local: a parte presencial acontecerá no CineSesc, CCSP (Centro Cultural São Paulo), MIS (Museu da Imagem e do Som), Teatro Paulo Eiró e Centro Cultural da Diversidade. A parte on-line poderá ser acessada a partir do site do site www.mixbrasil.org.br.

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