Trailers TV Revista de Cinema — 16 novembro 2021
SARS-CoV-2 – O Tempo da Pandemia
© Gustavo Michelin

Por Maria do Rosário Caetano

O documentário “SARS-CoV-2 – O Tempo da Pandemia”, cujo título sintetiza os males vividos pela humanidade nos últimos dois anos, traz a assinatura de importantes nomes do cinema brasileiro, o cineasta, montador e professor universitário Eduardo Escorel e seu irmão, o cineasta e diretor de fotografia Lauro Escorel.

“O Tempo da Pandemia”, que chega aos cinemas nessa quinta-feira, 18 de novembro, é o primeiro longa assinado pelos dois irmãos na condição de diretores. Eles trabalharam juntos em alguns poucos projetos. O mais importante é a ficção “Ato de Violência”, que Eduardo dirigiu e Lauro fotografou.

Nas últimas décadas, ambos passaram a dedicar-se mais ao documentário. Eduardo, que assinara “Lição de Amor”, “Contos Eróticos – O Arremate” e “Cavalinho Azul”, narrativas ficionais, soma hoje mais de uma dezena de documentários. Lauro (das ficções “Sonho sem Fim” e “A Fera na Selva”) também soma títulos documentais de grande importância, como “Libertários” e “Improvável Encontro” (na ficção, segue como um de nossos mais requisitados diretores de fotografia).

A expectativa em torno de “O Tempo da Pandemia” – mesmo sendo um filme de encomenda – era enorme. Muitos foram assisti-lo em sua première na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, duas semanas atrás. Afinal, os diretores do monumental “Imagem do Estado Novo” (Eduardo, de 77 anos) e do fascinante “Fotografação” (Lauro, de 71) são partícipes ativos no debate sobre rumos trilhados pelo cinema não-ficcional contemporâneo. Como professor da Fundação Getúlio Vargas (e articulista da versão digital da revista Piauí), Eduardo é voz muito ouvida e consultada por profissionais de cinema, em especial os mais jovens.

O resultado de “O Tempo da Pandemia” dividirá opiniões. Haverá quem o reduzirá a um filme institucional, patrocinado pelo Banco Itaú-Unibanco, para difundir o trabalho do coletivo Todos pela Saúde, comandado pelo médico Paulo Chapchap. Outros verão que o documentário vai além da encomenda.

Em março de 2020, Pedro Moreira Salles, do Itaú-Unibanco, convidou o Dr. Chapchap a somar forças com profissionais de saúde, para juntos, comandarem ações de combate à pandemia. O médico convidou, então, para integrar o comitê diretivo, os doutores Drauzio Varella, Gonçalo Vecina Neto, Maurício Ceschin, Eugênio Vilaça, Sidney Klajner e Pedro Ribeiro Barbosa.

Os irmãos Escorel adotaram, ao aceitar a encomenda, dispositivo que lembra alguns documentários de Eduardo Coutinho: cenário neutro, uma cadeira e “conversa” com o interlocutor. No caso do diretor de “Santo Forte”, conversas com gente do povo (“As Canções”) ou populares-e-atrizes com depoimentos embaralhados (“Jogo de Cena”).

No caso de “O Tempo da Pandemia” o risco de que ocorra alguma surpresa (como acontece nos filmes de Coutinho) é zero. Os dois diretores sabem que estão ouvindo algumas das maiores e mais acreditadas vozes sanitárias do país, pessoas dotadas de sólido discurso científico e muita serenidade.

Por sabermos que os depoimentos serão todos em defesa da saúde da população, da vacina, de campanhas de esclarecimento e de estratégias práticas (providenciar máscaras e tubos de oxigênio e levá-los, inclusive, às periferias das grandes cidades e à longínqua Amazônia) o filme não nos surpreenderá.

Outro fator que reduz a vivacidade de “O Tempo da Pandemia” é a concentração excessiva nas figuras e discursos (mesmo que ótimos!) dos sete integrantes do Comitê Gestor (todos homens e brancos). Mesmo que o rechonchudo e simpático Dr. Vecina recorra a poderosas metáforas ao referir-se à “pobreza exuberantemente tropical e palafítica” da gente humilde de Manaus. E que dois ou três outros médicos comparem, sem nenhum sensacionalismo, a falta de ar (provocada pela Covid) com o afogamento em águas profundas, pavor de todos nós.

Por que Lauro, um de nossos maiores diretores de fotografia, e Eduardo, pensador do cinema documental, não recorreram, com maior empenho, a imagens de imensa beleza e força narrativa como as que vemos de forma fugaz – uma Avenida Paulista totalmente vazia, panorâmica que nos leva à periferia paulistana (M’Boi Mirim) ou a um hospital em Manaus (onde a falta de tubos de oxigênio fez os enterros subirem de 30 para 160 por dia)? O mesmo ocorrendo em unidades de saúde em Tefé ou no estado de Roraima.

A presença do comando (do Todos pela Saúde) formado só com homens brancos resulta incômoda, mas é, em parte, atenuada pela presença de mulheres que seguram a retaguarda – enfermeiras e intensivistas. Elas são, em maioria, também brancas, sendo uma delas, por sinal a mais expressiva, uma manaura de traços indígenas. A falta de diversidade também incomoda o espectador.

Dos depoimentos, o mais contundente é o de Paulo Chapchap. Ele mostra, com elegância e agudeza, que a luta a ser empreendida para debelar a pandemia assumiu proporções terríveis por causa da omissão de autoridades federais. Sem fulanizar, ele – respaldado pelos colegas – registrará o descalabro ao qual chegaríamos. Ou seja, a mais de 600 mil mortes, sendo que milhares delas poderiam ter sido evitadas.

O Banco Itaú-Unibanco investiu, orientado pelo Todos pela Saúde, 1 bilhão de reais em ações contra a pandemia. Número significativo, mas pouco se comparado ao investido, anualmente, pela SUS (Sistema Único de Saúde). Drauzio Varela, com sua serenidade costumeira e oratória concisa e aliciante, lembra que “o maior programa social do país não é o Bolsa Família (4 bilhões/ano), mas sim o SUS (250 bilhões)”. E diz mais: se há “algum vencedor nesta luta contra a pandemia”, ele se indentifica pela sigla SUS, “instituição valorizada pela população” em hora tão difícil. Até a arredia classe média reconheceu a importância do nosso Sistema Único de Saúde, “realmente único no mundo, se levarmos em conta os países com mais de 100 milhões de habitantes”.

O filme não é laudatório. Os próprios médicos apontam falhas na execução do projeto, levado a termo em meio à segunda onda da pandemia, que assumiu enorme gravidade em maio deste ano. Boa parte dos recursos foi gasta com campanhas de esclarecimento (já que “o governo federal não realizou nenhuma ação de publicização”), máscaras e tubos de oxigênio. E em ações que minorassem o sofrimento dos idosos. “Planejamos” – conta Drauzio – “criar espaços para isolar (tirar) idosos contaminados do seio de suas famílias. Não deu certo, pois as pessoas não queriam ficar sozinhas em hora tão difícil, queriam estar juntas aos seus”.

O maior mérito do filme é seu tom sereno e reflexivo. Num tempo de ânimos exaltados, os sete médicos falam com calma, clareza e sólida argumentação. Qualquer leigo entenderá o que eles dizem. Ouvidos acostumados a grosserias (que saem da boca até, ou principalmente, do presidente da República) e ao negativismo, serão recompensados pela sensatez e firme defesa da Ciência. O que, convenhamos, não é pouco nesse terrível tempo (político e sanitário) que nos coube viver.

 

SARS-CoV-2 – O Tempo da Pandemia
Brasil, 88 minutos, 2021
Direção: Eduardo e Lauro Escorel
Fotografia: Lauro Escorel e Jacob Solitrenick
Montagem: Vinícius Nascimento e Laís Lifschitz
Música: João Jabace e Luis Rodrigues

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