“O Pai da Rita”, novo filme de Joel Zito Araújo, abre a Roda Sesc de Cinemas Negros
“O Pai da Rita”, de Joel Zito Araújo

Por Maria do Rosário Caetano

“O Pai da Rita”, sétimo longa-metragem do cineasta Joel Zito Araújo, abre nessa quarta-feira, 19 de janeiro, a mostra “Oju – Roda Sesc de Cinemas Negros”, que somará exibição de filmes, debates e oficinas, em dois formatos – presencial, na confortável sala da Rua Augusta paulistana (CineSesc), e na plataforma Sesc Digital.

O filme inaugural, “O Pai da Rita”, é uma comédia protagonizada por dupla de velhos amigos, interpretados por Ailton Graça e Wilson Rabelo. Eles são sambistas do Bixiga paulistano (de nomes Pudim e Roque), da ala de compositores da Vai-Vai, e partilham, além de quitinete, sólida amizade e uma dúvida do passado: o que teria acontecido com a passista Rita, paixão de ambos?

O aparecimento de Ritinha, filha da sambista, na vida dos dois, e sombras do compositor Chico Buarque farão desmoronar essa grande amizade?

O filme, que participou da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e da Première Brasil do Festival do Rio, traz no elenco Jéssica Barbosa, Elisa Lucinda, Léa Garcia, Sidney Santiago, Francisco Gaspar, Paulo Betti e Eduardo Silva. A fotografia é de Lauro Escorel.

A Roda Sesc “Oju” se propõe a promover a diversidade criativa de realizadores de origem afro-brasileira, colocando em destaque “a importância histórica do audiovisual focado na potência poética e política”. Sem esquecer, “sua contribuição para a descolonização do olhar”.

Na língua yorubá, “ojú” significa “olho”. Como o cinema se inicia pelo olhar, a Roda Sesc de Cinemas Negros fará dos filmes fonte de estímulo para encontros reflexivos e compartilhamento de histórias e narrativas coletivas.

Entre os longas programados está “Chico Rei entre Nós”, de Joyce Prado. Para realizar sua estreia no documentário de longa duração, a jovem cineasta mergulhou na história e legado do mítico rei congolês que, escravizado, lutou pela liberdade de seu povo. Isto, no auge do Ciclo do Ouro, em Minas Gerais.

Ouro Preto e São Paulo são os principais cenários do filme. Mas a primeira capital das Minas Gerais, centro político e estético do Barroco, responde pelos momentos mais significativos e cativantes. Visita a uma mina, ciceroneada por guia atento e forte, é um deles. “Chico Rei entre Nós” nada tem de passadista. Evoca o tempo que passou – o de Chico Rei e outros escravizados – para refletir sobre o presente, sobre as lutas populares, seja dos Trabalhadores sem Teto ou Terra, seja dos que lutam pela sobrevivência cotidiana.

Do Ceará, cinematografia regional que vive momento de grande vitalidade, chega o longa ficcional “Cabeça de Nêgo”, dirigido por Déo Cardoso. Um filme jovem, inquieto, em fina sintonia com as rebeliões estudantis que marcaram certo momento da vida brasileira contemporânea (entre as manifestações de junho de 2013 e a ascensão de Bolsonaro).

Na ficção do jovem Déo, um adolescente, de nome Saulo (Lucas Limeira), após sofrer insultos racistas na sala de aula, tenta impor mudanças em seu colégio. Inspirado em escritos dos Panteras Negras (e em pensadores e militantes da causa black da grandeza de Angela Davis e Malcolm X), resolve enfrentar a direção e colocar em foco o racismo estrutural que o cerca. Com elenco juvenil (Nicoly Mota, Mateus Honori, Larissa Góes) e participações especiais (Jéssica Elen, Marta Aurélia, Val Perré), Déo conduz sua narrativa com total entrega e, por isso, empolga, em especial, plateias jovens.

No segmento dedicado ao curta-metragem está “República”, dirigido e protagonizado pela atriz Grace Passô. Durante a primeira fase do isolamento social – imposto pela pandemia de Covid-19, em 2020 –, Grace usou sua própria casa, no centro de São Paulo, como espaço de sua performance, filmada com a câmara próxima ao seu rosto, enquanto ela fala ao telefone. O filme somou diversos prêmios.

Outra realizadora, Renata Martins, assina “Sem Asas”. Nesse curta, ela conta a história de Zu, um garoto negro de 12 anos, que vai à mercearia comprar farinha de trigo para a sua mãe e, no regresso ao lar, descobre que pode voar. O curta conquistou o Troféu Grande Otelo no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro 2020.

“Dois Garotos que se Afastaram Demais do Sol”, de Lucélia Sérgio e Cibele Appes, baseia-se na peça “12º Round”, do dramaturgo Sérgio Roveri. O curta mostra as lutas e sonhos de homens negros (os boxeadores Emile Griffith e Benny Kid Paret) e foi premiado no Festival Mix Brasil de 2021.

Os encontros, que integram o núcleo reflexivo e prático da Roda Sesc, propõem troca entre o público e profissionais do cinema, pesquisadores e pensadores, com o objetivo de debater temáticas sintonizadas à diversidade. Os debates contarão com a participação da cineasta e produtora Lilian Solá Santiago, dos realizadores Joel Zito Araújo e Jeferson De, das diretoras Renata Martins e Glenda Nicásio, da atriz Naruna Costa e do ator Christian Malheiros.

Entre os cursos e oficinas serão oferecidas atividades que abordam Roteiro Infantil, Montagem e Financiamento. As inscrições estão abertas e devem ser realizadas até quinta-feira, dia 20 de janeiro.

 

Oju – Roda Sesc de Cinemas Negros
Data: 19 de janeiro a 9 de fevereiro
Serão apresentadas 43 sessões presenciais no Cinesesc, em São Paulo, com venda de ingressos pelo site sescsp.org.br/cinesesc (e, também, na bilheteria do cinema). A plataforma Sesc Digital mostrará nove títulos, gratuitamente, com acesso garantido em todo território nacional (sescsp.org.br/oju). Os debates, cursos e oficinas acontecerão em formato on-line e serão gratuitos (inscrições: sescsp.org.br/inscricoes).

Debates On-Line

. Quinta-feira, dia 20 – 19h00 – “Territórios: Percepções e Visões da Produção Audiovisual Negra”. Com Camila de Moraes, Glenda Nicácio, Keila Serruya e e Renata Martins.

. Terça-feira, dia 25 – 19h00 – “Legados: 21 Anos de ‘Dogma Feijoada’ e 20 Anos do ‘Manifesto de Recife’. Com Cris Guterres, Jefferson De, Joel Zito Araújo e Lilian Solá Santiago.

. Quinta-feira, dia 27 – 19h00 – “Presenças: Audiovisual Preto em Séries e Outros Dispositivos”. Com Christian Malheiros, Felipa Camargo, Jessica Queiroz e Naruna Costa.

. Terça-feira, dia 1o. de fevereiro – 19h00 – “Pertencimentos: Cinema LGBTQIA+ e as Questões de Raça”. Com Asaph Lucas, Carol Rodrigues, Daniel Veiga e Naíra Évine.

Cursos e Oficinas On-Line

Encontros para auxiliar profissionais em início de carreira, fomentar a criação de novas narrativas e ampliar conhecimentos do público em geral.

1. Investigando o Potencial Comercial em Projetos Independentes (objetivo: investigar o potencial comercial para projetos realizados por produtores iniciantes e coletivos audiovisuais).

2. Olhos Abertos: Montagem de Edição: Montagem de Edição de Vídeo” (objetivo um olhar mais atento ao processo criativo com a técnica de editar e montagem de vídeos).

3. “Decolonização do Olhar” (objetivo: conceber a descolonização do olhar como princípio absoluto para a produção e circulação de imagens não estereotipantes).

4. Oficina de Criação de Roteiros com Temáticas da Infância”.

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