César, o Oscar francês, consagra “Emilia Pérez” com sete estatuetas
Por Maria do Rosário Caetano
A França, representada pelos 4.500 integrantes de sua Academia de Cinema, não se rendeu à campanha de desconstrução – iniciada depois de largada triunfante – de “Emilia Pérez”, de Jacques Audiard. O polêmico décimo longa-metragem do realizador parisiense, indicado a 12 César, o “Oscar francês”, triunfou em sete categorias, incluindo melhor filme e melhor direção.
Os acadêmicos, porém, ignoraram a atriz Karla Sofía Gascón, intérprete-protagonista de “Emilia Pérez”, que deixara registradas nas redes sociais ideias de conteúdo preconceituoso. Ignoraram, também, a estadunidense Zoe Saldaña, que concorria – acertadamente – como atriz protagonista (e não como coadjuvante, como acontece no Oscar, por maliciosa estratégia dos produtores).
Jacques Audiard, diretor de “De Tanto Bater meu Coração Parou” e “O Profeta”, viveu uma noite de redenção e alegrias. A quinquagésima edição do César foi presidida por Catherine Deneuve e prestou tributo ao cineasta Constantin Costa-Gavras, grego radicado na França, e à atriz Julia Roberts, estrela hollywoodiana. Resta saber se Audiard e seu filme encontrarão acolhimento tão consagrador na cerimônia do Oscar, que acontece nesse domingo de Carnaval, em Los Angeles.
Vale registrar que a força identitária é mais forte nos EUA, que na França. E mais: desde que o pensador queer, Paul Preciado, publicou no Libération, de Paris, e no El País, de Madri, artigo demolidor sobre “Emilia Pérez”, que os ventos passaram a soprar contra o filme.
A voz de Preciado somou-se ao protesto de mexicanos, que acusam o filme francês de “estereotipar o país, reduzindo-o ao narcotráfico”. Hoje, há quem aposte que “Emilia Pérez” só tem chances de ganhar uma das 13 estatuetas (recordista do ano) a que foi indicado: a de melhor atriz coadjuvante para Zoe Saldaña. A conferir se o estrago assumirá, mesmo, proporções tão avassaladoras no mundo anglo-saxão.
“Emilia Pérez”, hoje tão combatido, começa com as agruras de uma advogada, Rita Mora Castro (Zoe Saldaña), que será sequestrada pelo cartel do mexicano Manitas. Amargurada com seus empregadores, que não valorizam sua carreira profissional, ela acabará aceitando tarefa das mais extravagantes: produzir a “morte” de Manitas, de forma que ele possa fazer sua transição no sudeste asiático. Feita a ressignificação de sexo, Emilia Pérez entrará em cena, bela e filantropa. Tudo será narrado em tom fabular, com recorrência a diversos gêneros, em especial, o musical. A imprensa francesa chegou a cunhar um curioso neologismo para definir o filme: “almodaudiard” (lê-se almodôdiard) soma de Almodóvar com Audiard. O filme traz, sim, referências à obra do diretor manchego.
Os mexicanos acusam o cineasta francês de, além de estereotipar o povo mexicano e o próprio país, ter rodado o filme em estúdios localizados na França. Portanto, sem pisar em solo do país latino-americano. Esta última objeção é questionável. “O Brutalista”, outro finalista ao Oscar, foi rodado em estúdios na Hungria. Dezenas de filmes de Hollywood foram rodados na Cinecittá italiana. E, com o avassalador desenvolvimento de novas tecnologias (e da Inteligência Artificial), muitos filmes são realizados em “lugar nenhum” – caso de “A Fúria”, de Ruy Guerra. Construídos com recursos poéticos, encerrados entre quatro paredes. Murilo Salles, vale lembrar, recriou a viagem de Mário de Andrade ao norte do Brasil, em “O Turista Aprendiz”, em estúdios situados a milhares de quilômetros da Amazônia.
O segundo filme mais premiado do César foi o drama “A História de Souleymane”, de Boris Lojkine. Foram quatro troféus — roteiro original, atores (Nina Meurisse, como coadjuvante, e Abou Sagaré, como revelação), e montagem.
O filme de Lojkine foi exibido na edição brasileira do Festival Varilux e tem distribuição garantida em nossos cinemas. Trata-se de drama enxuto (93 minutos), protagonizado por Souleymane, imigrante vindo da Guiné, que chega a Paris e tenta se manter como entregador de refeições. Seu instrumento de trabalho é uma modesta bicicleta. Enquanto faz o serviço, ele prepara entrevista que será determinante para obtenção do asilo. Desse instrumento legal virá a documentação que garantirá o direito de exercer seu ofício. Para atingir tais objetivos, Souleymane terá que enfrentar muitas adversidades.
O filme vendeu, em território francês, 600 mil ingressos e ajudou seu intérprete, de 23 anos e recém-chegado da Guiné (depois de longa travessia do Mediterrâneo), a obter o direito de permanência no país europeu.
“Vingt Dieux”, de Louise Courvoisier, que os brasileiros assistiram nos cinemas com seu título internacional – “Holy Cow” –, também causou sensação na cerimônia do César. Foi escolhido como o melhor filme de estreia (opera prima) e atriz revelação (Maïwene Berthelemy). Trata-se de narrativa plena de vitalidade, protagonizada por atores jovens e com os hormônios em polvorosa. E vivendo, sem rumo, numa cidade interiorana.
Tudo muda para o jovem protagonista Totone (Clément Faveau), que consome seu tempo bebendo cerveja com grupo de amigos, quando ele for obrigado a cuidar da irmã de sete anos. Ele terá, sem outra alternativa, que encontrar uma maneira de ganhar dinheiro.
O rapaz resolve, então, aperfeiçoar seu aprendizado como produtor de festejadíssimo queijo da região, o Comté. De forma que seja premiado (com 30 mil euros) no concurso local. Um filme duro (e amoroso), com interpretações marcadas por fisicalidade radical. Mas quem levou o prêmio de revelação não foi Clément Faveau. Mas sim a jovem Maïwene Berthelemy, que irá se relacionar amorosa e sexualmente com o protagonista.
“Holy Cow”, que conquistou o Prêmio da Juventude, em Cannes, causou sensação no circuito exibidor francês, no qual foi assistido por 900 mil espectadores.
Na categoria melhor longa de animação, “Flow – O Gato que Já Não Tinha Medo de Água” (assim foi chamado na França, que ajudou a produzi-lo), do letão Gints Zibalodis, derrotou um peso pesado (“A Mais Preciosa das Cargas”, do oscarizado Michel “O Artista” Hazanavicius).
No terreno do longa documental, uma surpresa: “La Ferme de Bertrand”, de Gilles Perret, derrotou “Dahomé”, da franco-senegalesa Mati Diop, vencedor do Festival de Berlim 2024, um libelo contra a espoliação de tesouros artísticos de países do Terceiro Mundo por potências coloniais.
Na categoria melhor filme estrangeiro, o vencedor carrega, para os brasileiros, gosto de déjà-vu. Afinal, “Zona de Interesse”, de Jonathan Glazer (Reino Unido, Alemanha) participou do Oscar do ano passado. O mesmo acontecerá se “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, que acaba de estrear na França, for indicado ao César de 2026.
Confira os vencedores:
- “Emilia Pérez”, de Jacques Audiard – melhor filme, melhor diretor, roteiro adaptado (Audiard e parceiros), fotografia (Paul Guillaume), trilha sonora (Ducol & Camille), efeitos visuais (Cédric Fayolle) e mixagem de som (Kerzanet, Devoldère, Holtz & Barletta)
- “A História de Souleymane”, de Boris Lojkine – roteiro original (Lojkine e Delphine Agut), atriz coadjuvante (Nina Meurisse), ator revelação (Abou Sangaré), montagem (Xavier Sirven)
- “Vingt Dieux” (“Holy Cow”), de Louise Courvoisier – melhor filme de estreia e atriz revelação (Maïwene Berthelemy)
- “Borgo”, de Stéphane Demoustier – melhor atriz (Hafsia Herzi)
- “Le Roman de Jim”, de Arnaud Larrieu e Jean Marie Larrieux – melhor ator (Karim Leklou)
- “O Conde de Monte Cristo”, de Matthieu Delaporte e Alexandre de La Patellière – melhor figurino (Thierry Delettre), melhor direção de arte (Stéphane Taillason)
- “L’Amour Ouf”, de Gilles Lellouche – melhor ator coadjuvante (Alain Chabat)
- “Les Fantômes” – ator revelação (Adam Bessa)
- “Flow – O Gato que Já Não Tinha Medo de Água”, de Gints Zibalodis (Letônia, França) – melhor filme de animação
- “La Ferme de Bertrand”, de Gilles Perret – melhor documentário
- “Zona de Interesse”, de Jonathan Glazer (Reino Unido, Alemanha) – melhor filme estrangeiro
- “Beurk!”, de Loïc Espuche – melhor curta-metragem de animação
- “L’Homme qui ne se Taisait Pas”, de Nebojsa Slijepcevic – melhor curta-metragem de ficção
- “As Noivas do Sul”, de Elena Lopez Riera – melhor curta-metragem documental
- César honorário – Constantin Costa-Gavras e Julia Roberts
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